[o sussurro]

terra parece morta
mera pedra diluída
puro pó sem pulso
até que explode em planta (vida)/

bomba de folha, de flor, pequeno grão
pedra viva que é o barro do pão
coisa imóvel que anima toda gente:
o que sussurra a terra à semente?//

[flores da falta]

flores são luxos metabólicos:
planta faz cor do que sobra
não do que falta/

mas como são belas as flores da falta
(pétalas plenas em risco
de morte)//

planta que arrisca tudo
no limiar do sol,
da sorte//

[basta uma gota de sol]

a luz de um novo dia
desfazendo o céu escuro:
basta uma gota de sol
e está coalhada a noite/

uma gota de sol
e tudo vira véspera:
o pão fica dormido, e o novo amor
será que ainda alimenta?//

basta uma gota de sol
para haver outra vida nas mãos
requentar a espera nova
na alegria que ontem não deu/

e se hoje não der também?
se hoje não der, tudo bem:
de noite a gente aguenta
(basta uma gota de sol)//


Nuno Virgílio Neto nasceu em 1976 no Rio de Janeiro, cidade onde vive. É jornalista e músico. Seu livro de estreia, eletricaestrela, foi finalista do 1º Prêmio Rio de Literatura na categoria de autores inéditos. É jornalista, escritor e músico.

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Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.