Apresentamos quatro poemas do escritor Raimundo de Moraes e um trecho do ensaio crítico “A Senhora que sou eu”, de Júlia Larré, sobre Relicário de Nossa Senhora, do livro “Jesus Cristo Mon Amour“. Acompanha o texto uma obra do artista argentino, Léon Ferrari.

Um relicário é um objeto em que são guardados relíquias, preciosidades de santos ou imagens deles. O Relicário de Nossa Senhora montado por Raimundo de Moraes vai além de qualquer objeto ou parte de corpo de um santo. Ele é crivado pelos próprios corpo e alma de uma mulher atormentada pela solidão e desejo de ser uma. Não de ser a.

O início do poema, marcado pela solidão-acompanhada que a personagem sente, já nos remete a um mundo completamente feminino: o gerar de um rebento que é seu corpo e ao mesmo tempo não é. É um sentimento de abandono e de incompreensão frente às mudanças inevitáveis que ocorrem na menina-mãe que carrega no ventre uma boca que não sabe bem de quem seja: “Agora crescem-me os seios/mas não sei a que bocas/eles irão dar de comer”. Imagino que o mesmo vazio tenha sido sentido pelo criador.

É também a partir do desespero frente à possibilidade de perda do filho que essa mãe percebe que o ama mais que o normal: “Então horas depois/ quando ao pôr do sol/ tu surges sereno/ sem nada a explicar/ vejo entre nós abrirem-se os abismos:/ – confirmo e assusto-me -/ te amo mais que uma mãe/ pode amar um filho”. Mas como achar que o amor de mãe é menor que o amor de mulher? Não está tudo em uma só pessoa e os sentimentos são parecidos? Para o holismo, o todo é sempre maior que as partes. A nossa criação ocidental, materialista, nos faz esquecer da característica monista dos fenômenos. Isso também engloba os sentimentos. E talvez essa nossa incompreensão nos faça deixar todas as emoções compartimentalizadas, encaixotadas em arquivos como em um computador. A poesia de Raimundo nos faz refletir sobre essa questão.

A personagem do poema se pergunta: “Há um caminho para um lugar/ aonde não se pode ir?”. E como um elástico que é puxado e depois retorna para o mesmo lugar, ela se remete aos sacrifícios que celebram, de início, a tradição do Pessach. Como se elas fosse cordeiro a ser sacrificado e ao mesmo tempo a ser purificado pelo sangue do mesmo para evitar a morte do filho primogênito. Os costumes a chamam para retornar ao mesmo lugar (mais seguro). A pressão e culpa que sua sociedade atribuíram a ela já pesam antes de qualquer coisa sobre o ventre já envelhecido. Sobre a mulher de corpo e alma quase-mortos, pois não pode ter o que deseja e a idade já pesa sobre os ombros.

Neste Relicário que se engendra, Raimundo traz a voz de uma mulher incompreendida, de uma mulher não correspondida, de uma mulher nesses aspectos igual a tantas outras. Igual a mim, igual a você.

No poema final essa voz pede: “(olvidem a mulher que fui/ serei vossa virgem/ vossa mãe/ vossa rainha)”. Esquecer para lembrar, como diz Drummond. Esquecer para compreender. Eis o exercício a que Raimundo de Moraes nos convida a fazer: pensar sobre as possibilidades quânticas para compreender as verdades do mundo em que vivemos (tanto culturalmente quanto religiosamente). Somos um só ser. Cada qual com suas diferenças, mas mais que isso, somos unidade. O convite é o de nos lembrar que a maior relíquia que se pode guardar é a certeza da humanidade dessa mulher.

***

Estou só
Chorei o luto do meu pai
e servi humilde
no templo em Jerusalém
Lavei leprosos
jejuei pelos filhos de Israel
dei esmolas no Purim
Agora crescem-me os seios
mas não sei a que bocas
eles irão dar de comer
Sonho com profetas
– os braços fortes de Salomão
a cabeleira negra de Davi
o dorso do rei que esposou Ester
Jeová: terei heróis
a preencher-me a vida?
Chove. Como duas sobreviventes
seguimos eu e minha mãe
Ao longe, as colinas verdes
de Nazaré

***

Jerusalém ferve na balbúrdia dos peregrinos
Norte sul leste oeste
– quanto a mim
que caminho devo seguir?
Há um caminho para um lugar 
aonde não se pode ir?
No desejo que me arde e pune
sigo uma trilha de pecado e maldição
Quero banhar-me no sangue
dos doze mil cordeiros do Pessach
No mar de sangue
encontrar um porto

***

Passam os dias. Envelheço
As notícias que recebo 
turvam-me os dias e as noites
não diminuem minha dor
Onde ele andará?
Dizem que na Cidade do Sal
onde os homens oram
enterrados na areia
Dizem que entre os doutos
de Alexandria ou muito além
do oásis de Mênfis
Com quantas mulheres
terá dormido?
Não há preces no templo
que me liberte
Sovo o ázimo com amargura
servirei o pão à mesa
servirei meu corpo morto
a José

***

Não és o mais belo varão da Judeia
mas teu olhar inflama as gentes
e a tua voz rouca enlaça
as almas sem rumo
A fidalguia com que te moves
não é a mesma que coroou Salomão
Mas tens um reinado
Tu pertences aos que te seguem
Contra essa multidão quem sou eu
para pedir-te uma palavra
em segredo?


Raimundo de Moraes é escritor, jornalista e publicitário. Publicou, através dos seus personagens (Alma Henning, Aymmar Rodriguéz e Semíramis) os seguintes livros: Baba de Moço, Tríade, Pornópolis e Coesia.

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Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.