Acordei, separei minhas pernas para levantar da cama e senti pequenas pedras penduradas entre minhas coxas, presas ao meu clitóris por curtos fios.

Por reflexo e por medo, num misto de desespero e vontade de estar sonhando, fechei as pernas com força e senti as pedrinhas carimbando minha carne. Pequenas dores reais, inegáveis e táteis na minha flacidez bege. Esferas marcando a pele amarelada avessa ao mundo externo.

Afastei as coxas e olhei para as pedras, incapaz de aceitá-las. Eram seis, os pequenos pêndulos irregulares. Eram fatos, aquelas pedras. Mas como nasceram entre minhas pernas? Como brotaram?

Levantei devagar, sentindo as pedras balançarem. Tocavam-se como enfeitezinhos, meigas. Bolas de vidro num pinheiro sintético. Poderiam ter som, alguma melodia aguda, como sinos dos ventos. Eu andava lentamente, quase na ponta dos pés, e pensava o que teria feito a quantidade exata de seis pedras aparecerem entre as pernas de uma mulher.

Segurei as pedrinhas com a mão direita, incomodada com a sensação de tê-las livres. Apanhá-las me pareceu adequado. Como pitombas ou seriguelas enchendo mãos em concha. Seguras, ainda que chacoalhassem.
Fui até o espelho, sentei no chão, me arreganhei em posição divinatória.

Meu clitóris estava maior. Gordo. Tinha o tamanho do dedinho do pé. Nele, vários fios brancos se emaranhavam confusos. Enrolavam-se como cabelos envelhecidos e deixavam-se cair, cansados. Em suas pontas, as seis pedras. Ousei tocá-las com atenção. Cinzas, ásperas. Seus mínimos buracos me lembravam a Lua. Consegui rir me imaginando um planeta tilintando seis satélites naturais.

Deixei que o Sol caísse e o quarto ficasse escuro. Seis da tarde, provavelmente. Não tive coragem para levantar e senti-las dançando.

Pensei por muito tempo no que faria. Então achei que deveria tentar desenrolar os fios, mas logo percebi que estavam colados. Tentei puxá-los, mas a dor foi imensa. Pensei em cortá-los muito rente ao clitóris, libertar-me das pedras. Porém, me veio a constatação de que meu corpo poderia desejar aquelas pedrinhas. Se ontem nada daquilo existia e de repente brotara. O que poderia explicar? Talvez um grande desejo, um grande clitoriano parto.

Então levantei devagar, sentindo as pedras balançarem. Fui ao banheiro, fiz xixi com as pedras, escovei os dentes com as pedras e tomei banho com as pedras. Depois vesti calcinha, saia, sutiã, blusa e calcei chinelos. Bebi café e comi bolachas de água e sal. Tudo isso fiz com as pedras. Elas estavam ali, causando certo volume, mas também alguma sensação nova. Se eu me mexesse assim, se eu apertasse as coxas assim.

Sentei no sofá e as experimentei. Raspavam no meu clitóris crescido como grãos gigantes de areia. Eu pensava nas minhas pernas abertas diante do espelho e na imagem das minhas pequenas esferas que enfeitavam a minha vulva. Logo as pedrinhas estavam molhadas, pegajosas num melado elástico. Meu clitóris respondia, conversava com minhas seis pedras.

Depois me senti confusa. Talvez estivesse condenada a viver sozinha com as minhas rochinhas. Jamais conseguiria explicar seis pedrinhas penduradas. De que forma abriria as pernas para alguém e diria veja só o que tenho é uma novidade não há tecnologia igual é importada mandei implantar. Eu e minhas pedras condenadas às coxas lambuzadas de uma mulher só.

Levantei devagar, sentindo as pedras balançarem. Deixei que o sol subisse. Oito da manhã, provavelmente. Fui caminhar com minhas pedras. Fui ao supermercado, comprei goma, duas garrafas de cachaça e cigarros. Tudo isso eu fiz com minhas pedras. Ninguém percebeu, preciso dizer. E todos os passos que dei foram muito interessantes, porque as pedras me pareciam mínimos meteoros colidindo uns contra os outros e contra minhas carnes finas. Eu andava e pensava que, afinal, não eram tão ruins assim.


Nascida em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), Jarid Arraes é escritora, cordelista, poeta e autora do premiado Redemoinho em dia quente, vencedor do APCA de Literatura na Categoria Contos, e dos livros Um buraco com meu nome, As Lendas de Dandara e Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis. Atualmente vive em São Paulo (SP), onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres e tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel.


Miguel Rodrigues ilustrou esse conto, é natural de Americana, São Paulo. Trabalha principalmente com colagem manual e ilustração, adepto de métodos analógicos, abordando com seu trabalho na maioria das vezes reflexões e questionamentos pessoais. Organizador da feira de publicações e arte independente Americanazine. Participou expondo artes em MOGRAV (FAAL Limeira), Mostra Copyleft (UFPR Curitiba) e do Salão Ubatuba de Artes Visuais.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.