Clandestino é uma história sobre vida e morte. É a história de homens que arriscam tudo para conseguir fornecer um futuro melhor para suas famílias. O projeto é um documentário contínuo sobre a migração clandestina do Oeste da África para a Europa. É um registro fotográfico da longa e arriscada jornada de jovens homens africanos pelas vastas distâncias do Saara, atravessando as ondas hostis do oceano e adentrando um continente estrangeiro, a Europa.

É uma íntima investigação de homens que renunciam-se, tornam-se ninguém, para então se reconstruírem como um alguém. Conforme a jornada se desdobra, eles são progressivamente privados de seu direitos humanos e tornam-se vidas nuas, párias da modernidade. Em sua essência, Clandestino é um projeto sobre a existência humana em um estado limítrofe prolongado. O drama imediato da travessia em si é espelhado em uma jornada psicológica e simbólica. Essa travessia é um rito de transição, no qual jovens migrantes são suspensos em uma terra de ninguém. Entre adolescência e vida adulta. Entre o familiar e o estrangeiro. Entre África e Europa. Entre vida e morte.

“Eu sei dos perigos dessa jornada. Há mortos por todo o caminho.”

Boubacar, 20 anos, migrante clandestino partindo para a Europa.

Clandestino retrata como migrantes navegam esse espaço marginal e como eles lidam com o medo, a saudade, a vergonha e a marginalização em si durante essa viagem e na Europa. Portanto, o projeto é uma crítica da ordem mundial, na qual o pobre, que está crescentemente limitado em sua mobilidade, é forçado a se tornar “ilegal” para poder sustentar sua família. O projeto começou em 2006, quando fiz um mestrado internacional em direitos humanos em relação a migrantes não-documentados. Eu viajei para o Oeste da África e segui um grupo de jovens rapazes em suas viagens clandestinas partindo de sua vila nativa no noroeste de Mali para Paris, França. Eu retornei para a África Ocidental em 2009, e estou atualmente em Paris, França, trabalhando junto a um pequeno grupo de migrantes “não-documentados” para retratar seus cotidianos, seu constante medo da polícia, das autoridades de imigração, assim como seus ganhos para suas famílias e para seus lares na África.


Christian Vium é artista visual e pesquisador pós-doutor em antropologia social no Departamento de Antropologia, Aarhus University. Trabalha primariamente em projetos a longo prazo, ancorados em participação observatória e colaboração experimental, investigando a intersecção entre arte, documentário e as ciências sociais através de múltiplas plataformas. Ele é um FOAM Talent de 2015, ganhador do prêmio Lensculture Emerging Talent 2015 e está na lista de 2015 da Critical Mass. Em 2016, recebeu o Prix HSBC pour la Photographie por seu projeto a longo prazo denominado “Ville Nomande” (Vila Nômade), que foi publicado como estudo acadêmico em julho de 2016.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.