Hospitalidade é assunto tramado: mesmo a mais incipiente pesquisa dos significados ligados à palavra é capaz de revelar uma complexa teia de ideias que se relacionam. Falar de hospitalidade é falar, necessariamente, do outro e do reconhecimento das diferenças. É abrir as portas ao estranho, ao estrangeiro, oferecendo-lhe abrigo e cortesias enquanto subjaz como pano de fundo tácito, tanto na mente do hospedeiro (hospes) quanto do hóspede (hostis), a ideia de reciprocidade. Atualiza-se, de certa forma e com as devidas proporções, a lei do talião, do “olho por olho, dente por dente”. Ou, como diz o antigo provérbio maori: “dá tanto quanto tomas, tudo estará muito bem”.
E se hospitalidade é convívio entre os homens, quer dizer que ela está aí desde sempre. Nos tempos de Homero era exigida pelo deuses para depois, por volta do século V, virar uma exigência política. Ou seja, hospitalidade é ordem – seja presente nos códigos religiosos, seja nos civis –, à qual os homens devem obediência como forma de autoproteção.

Foi em nome dessa obediência que o personagem bíblico Ló sacrifica suas próprias filhas. É isso aí: para proteger seus hóspedes ele as oferece à turba enlouquecida e pervertida. Sim… Ló fez isso… Era ordem lá do Levítico: “Se um estrangeiro habita convosco na vossa terra, não o molestareis. O estrangeiro que habita convosco será para vós como um compatriota, e tu o amarás como a ti mesmo, pois fostes estrangeiros na terra do Egito.”

O verdadeiro gesto hospitaleiro implica na identificação da alteridade e da desigualdade que advêm dos status díspares entre quem vem de fora, o forasteiro, e quem está dentro, o anfitrião. É só a partir desse reconhecimento que se torna possível alcançar um dos fundamentos básicos da Hospitalitas: a promoção da igualdade entre as partes, conforme determina o verbo hostire (= igualar), de mesma raiz semântica. Com isso tenta-se diluir, senão mesmo acabar, com a hostilidade (hostis, hóspede) latente representada pelo outro intruso e desconhecido. Hospitalidade e hostilidade são irmãs. E não pretendem passar a vida em batalha, preferem, antes, um pão, um vinho e uma conversa à volta da mesa.

No plano simbólico a soleira da porta representa a fronteira de ultrapassagem entre dois mundos. É a própria errância batendo às portas de lugares que possam acolher as incertezas inerentes a toda busca. É o exterior que busca aquecer-se no interior da casa – foyer –, no calor da partilha com o outro. É um rito de passagem onde quem está de fora quer se sentir parte da vida de quem está dentro. E este, o de dentro, o anfitrião, quer o frescor do movimento, quer as notícias, quer o cheiro do longe. Em troca dá o pão, para dividirem e assim se tornarem companheiros – cum panis – irmãos. Trata-se, do ponto de vista da sociedade (de sua melhor evolução), da afirmação de uma identidade coletiva.

Poderíamos pensar então o empenho nos gestos hospitaleiros – em franco reconhecimento da elevação da consciência ética coletiva e, portanto, da ideia de um interesse comum a todos os homens – como uma faceta da idealizada “sociedade universal do gênero humano”, anunciada por Cícero há 22 séculos?

Se, por um lado positivo e esperançoso precisamos reconhecer que o conceito de dignidade da pessoa humana – fundamento básico do pensamento ético – fortaleceu-se na esfera mundial alcançando cada vez mais grupos de indivíduos (tendo sua expressão máxima na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948). Por outro lado há no cenário mundial um recrudescimento de movimentos ultranacionalistas, com as práticas excludentes que lhes caracterizam – como o fechamento de fronteiras aos imigrantes –, em resposta ao crescente nomadismo e à marginalização. Falar em fronteiras fechadas é quase um paradoxo se pensarmos que estamos vivendo a era da mundialização caracterizada por uma interdependência dos países e de seus habitantes. Teoricamente seríamos uma ‘aldeia global’… Só que enquanto se desmancham as fronteiras do ‘mundo líquido’, novos muros são construídos à volta das pessoas, cada vez mais fechadas em si.

Mas… se tomarmos como certa a visão que Cícero, lá nos idos de Roma, tinha para o futuro da humanidade onde “cada qual deve, em todas as matérias, ter um só propósito: conciliar o seu próprio interesse com o interesse universal; pois, se cada um chamar tudo a si, dissolve-se a comunidade humana” não há outra saída senão apostar que o homem saberá optar pelo caminho certo. Isso porque ele próprio dizia que todo ser vivo tem a inclinação para se preservar. Igualmente apostava na capacidade do homem – desde que respeitoso fosse com a “justiça jurada dos deuses”–, Sófocles que colocou na boca de seu coro na Antígona:

«De tantas maravilhas, mais maravilhoso de todas é o homem.[…]
A voz, o pensar volátil e as urbanas leis das assembléias ele as ensinou a si mesmo, fugiu da áspera agressão do frio e dos dardos das tempestades. […]
De saber fecundo, move recursos inesperados ora ao bem, ora ao mal. Una as leis da terra à justiça jurada dos deuses, e amuralhado será; desamuralhado se saiba, porém, atrevendo-se a insultá-las».

Se na História, em outro momento, a harmonia entre os homens foi determinada por uma imposição divina pode-se agora seguir por este mesmo fio e vasculhar onde o homem escondeu sua centelha do divino. A confiança do homem no próprio homem não revela que há laços invisíveis aos olhos? E a própria tomada de consciência de si não alça a humanidade à esfera divina? Como esclarecida pelo próprio Iahweh na alegoria bíblica do pecado original: “Eis que o homem tornou-se como um de nós, versado no bem e no mal”

Estou com Cícero e Sófocles: acredito no homem –

Seja bem-vindo, sente-se comigo e coma do meu pão.


Lu Lessa Ventarola é mineira e fundadora do MAP – Movimento Armado de Poesia e por ele realiza oficinas em escolas públicas e intervenções urbanas. É artista que pinta com palavra. É poeta que escreve com imagem. Junta cá com lá porque no Direito, sua formação, entendeu que o que a Lei tem de mais importante é o Espírito. E o Espírito é vasto e se expande. Acredita na educação, nas gentes e nos passarinhos. Vive atualmente em Coimbra.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.