EM UM ENSAIO DE VERÃO NA PRAIA DO LEME, A CANTORA ILLY FALA SOBRE MATERNIDADE, NOVO ÁLBUM, ELIS REGINA, DESCRIMINALIZAÇÃO DA MACONHA E MUITO MAIS

No outono você lança o disco Te Adorando Pelo Avesso, projeto desafiador que traz novas leituras e arranjos para clássicos de Elis Regina. Por que escolher a Elis? Um refúgio? Um estandarte? Um amuleto? Uma visão materna?

Sim. No finalzinho de março chega o álbum novo com versões bem diferentes do repertório da minha ídola Elis Regina. Talvez seja a coisa mais desafiadora que eu podia fazer na minha carreira e talvez este momento “mamãe coragem” tenha me dado forças pra embarcar nessa. Resolvi fazer esse álbum depois do programa Versões, do [Canal] BIS. Os arranjos – pensados por mim, Gabriel Loddo e Guilherme Lirio – estavam ficando tão lindos e os temas das canções tão atuais que decidimos levar para estúdio.

O que há de único ou original na sua interpretação de Elis Regina e o que ela aporta à música brasileira, considerando que é uma cantora constantemente relida e reinterpretada?

Eu não iria topar cair no universo de Elis para fazer mais do mesmo. As versões estão bem modernas, com um frescor gostoso. Fiz pensando em tentar ajudar, de alguma maneira, a deixar esse repertório vivo para novas gerações. Fascinação, por exemplo, ganhou ares de baile e referências do pop e funk melody. Querelas do Brasil virou um samba-reggae. Trouxe bastante do meu som para o álbum e as releituras estão bem particulares. Claro que tudo foi feito com todo respeito e capricho que Elis merece.

E em meio a um repertório de centenas de canções, qual foi o eixo que guiou a curadoria da seleção das músicas?

Eu escolhi as que mais me tocam, as mais atuais, com temas mais contemporâneos, as que dizem mais sobre mim.

Na década de 80, Elis Regina lança o clássico “Alô, Alô, Marciano”, escrita por Rita Lee e Roberto de Carvalho, música que atravessou gerações e tem um significado político e social muito importante, uma música que chega em 2020 ainda fazendo sentido. No clipe, dirigido por Pedro Henrique França, é evidente os anseios em tempos em que o medo insiste em sobrepujar a esperança. São 40 anos desde que ouvimos pela primeira vez essa canção, por que precisamos ouví-la novamente?

Precisamos ouvir novamente essa música porque “pra variar estamos em guerra“. No clipe eu velo a cultura do país que está passando por um momento delicado, precisando dos artistas lutando por ela. Essa foi a canção que abriu o projeto, que mostra a modernidade que estamos trazendo e a certeza do quanto Rita, Roberto e Elis são atemporais.

E a referência aos Secos & Molhados na arte da capa do single?

Tudo que é inovador tem um pouco de Secos & Molhados. A música brasileira deve muito àquele álbum. Pensei em misturar Elis a essa referência para mostrar o quanto de autenticidade e adoração à musica brasileira iríamos trazer ao projeto.

Fascinação, seu mais recente single, tem uma história secular: lançada originalmente em 1905 pelo duo francês Maurice de Féraudy e Fermo, a música começou a fazer parte dos shows de Elis em 76 e de lá para cá já foi interpretada por nomes como Sandy, Nat King Cole, Maria Rita… Por que essa música precisa ser ouvida de novo e o que trouxe de Illy para ela?

Eu trouxe uma versão totalmente diferente, contemporânea e dançante para ela. Notamos que, apesar de uma melodia triste, essa canção tem uma letra feliz. E foi isso que fizemos. Basta ouvir qualquer outra versão e a minha para se notar quanto é diferente de todas as outras. É dançante, com sopros, tambores, synths. É realmente um jeito novo de gravar uma música feita há mais de um século. Claro que em nenhum momento houve qualquer tipo de pretensão de fazer melhor do que qualquer outra, afinal, Elis é incomparável.

Elis Regina cantava fazendo denúncias sociais, falava sobre o corpo, questões feministas e da mulher. Inclusive apoiando a amiga Rita Lee, quando presa por porte ilegal de maconha. Você também se posicionou sobre o tema com Djanira, que ganhou um clipe com participações de Mart’nália e Giselle Itiê. A artista Ludmilla, em sua música Verdinha, fala de forma descontraída sobre o plantio de maconha. Em sua música Djanira temos uma professora que, demitida pela reforma trabalhista, passa a fazer biscoitos de marijuana para vender. Você sofreu algum tipo de represália ao tratar do assunto? Qual sua relação com a maconha?

Tá vendo como Elis sempre foi maravilhosa?! Sempre à frente do tempo. Eu adoro quando artistas usam a música para defender bandeiras. Eu particularmente sempre tento fazer isso de forma sutil e se possível engraçada. Assim fiz com Djanira, com “Fama de fácil“… e claro que no país que vivemos hoje eu recebi represálias por isso. Mas, talvez até menos do que por gravar Elis, viu?!
Sobre a música de Ludmilla, eu adorei. O tema e a leveza andam juntos com Djanira, mas por ser uma artista do mainstream talvez tenha chocado mais. A verdade é que nem a Verdinha dela nem minha Djanira deveriam ser polêmicas. Minha relação com a maconha é de uma mulher que sabe dos efeitos e do poder de cura dessa planta, que tem a certeza de que essa plantinha deveria ser descriminalizada.

Nos anos 90, o artista Gabriel O Pensador já sentia a maresia e falava de uma relação com a maconha na canção Cachimbo da Paz, mas não foi tão criticado por isso. Talvez por ser um homem branco numa sociedade heteronormativa e racista. Você sente que existe um sexismo/machismo em relação à figura da mulher que usa maconha?

Você já disse tudo. O machismo faz com que o mundo para nós mulheres seja mais difícil. Um xingamento que saia da nossa boca, um posicionamento a favor da legalização da maconha sempre vai chocar mais e com isso causar mais repulsa. Li dia desses um texto que falava que Ludmilla sofreu mais com Verdinha do que eu com Djanira por ser negra. Serviu para eu ficar ainda mais consciente do meu privilégio como branca. A mulher sofre mais com os julgamentos, a mulher negra sofre mais ainda, contudo vamos continuar levantando nossas bandeiras.

Como avalia o debate sobre a legalização do plantio e do consumo recreativo de maconha no Brasil, em relação a outros países latino-americanos? O fato de o STF ter autorizado o comércio de produtos à base de cannabis é um avanço significativo?

Estamos atrasados, mas há algum avanço, mesmo que tímido. Já está mais do que provado os benefícios de como tratamentos com a planta são eficazes. Para mim também é claro que o uso recreativo para adultos não é prejudicial. Talvez haja causas mais urgentes para a melhoria imediata no país, mas esse terror que muitos fazem com a planta já passou da hora de ser desmistificado.

Você é baiana, das terras de Caymmi, Jorge Amado, Caetano e Bethânia, de gente que escreveu e narrou a Bahia das gentes, dos portos, do mar, do pôr do sol, das ladeiras e escadarias, cenas que são narradas em canções como Afrouxa, de seu disco de estreia. Todos esses artistas têm uma ligação íntima com a literatura. E sobre livros e sua relação com a leitura, quais os livros que não podemos deixar de ler? 

É muita gente maravilhosa né?! Tenho lido mais biografias ultimamente, mas por favor não ache que as mesmas do ministro Sérgio Moro [sorri]. As de Elis, por exemplo, devorei tanto a escrita por Regina Echeverria quanto a de Julio Maria e adorei ambas. A literatura baiana também me encanta muito. Acho que Capitães da Areia e Mar Morto já são livros que não podemos deixar de ler.

A música [Djanira] também traz um forte ritmo latino, para além dos versos em espanhol. E pensando em latinidades, quais artistas latino-americanos você almejaria uma colaboração?

Ah! Eu adoro Jorge Drexler. Já até fiz um duo com seu irmão Diego, numa homenagem a Erasmo Carlos. Encantei-me com um show que assisti de Fito Páez em Buenos Aires. Adoro Devendra Banhart, a turma do Perotá Chingó, do Vir na Vista, a maravilhosa Julieta Venegas. Amaria colaborar com um desses. A música latina é riquíssima e meu som traz muito dela.

No disco Voo Longe, a música Fama de Fácil é uma marchinha pela liberdade do corpo feminino, remete ao carnaval, aos movimentos de rua, à música popular, aos tambores… Por que brincar o carnaval na Bahia?

Fama de Fácil é uma marchinha contemporânea, empoderada e livre. Já tivemos tantas marchinhas com letras ligadas ao racismo, machismo e homofobia que para mim Fama de Fácil se torna bem representativa. Quanto ao carnaval da Bahia, talvez só estando dentro para entender essa magia toda. Ver a saída do Ilê, ir atrás de Moraes Moreira, de Jau, de Armandinho, curtir o Psirico… É bom demais, gente! E cada ano que passa há mais trios sem corda, o que é super importante para respeitar o espaço dos foliões e diminuir a violência.

Para o projeto Nada Ficou no Lugar você aceitou o desafio de gravar Pelos Ares, composição de Adriana Calcanhotto e Antônio Cícero. Por que essa música foi escolhida e como a obra desses artistas te atravessa?

Escolhi Pelos Ares por ser a música mais virginiana possível de Adriana. “Eis aqui: bicicleta, planta, céu, estante, cama e eu, logo estará tudo no seu lugar“. Ela é uma referência para minha geração, uma compositora que toca diretamente no meu coração. Eu sou louca por ela e recebi um presente que virá no meu próximo disco de inéditas. Adriana é talento e generosidade ao nível máximo. E Antonio Cicero é imortal. Sua poesia é erudita e pop ao mesmo tempo. Eu babo por tudo que ele escreve.

As pessoas te associam muito a sua colega Duda Beat por causa da música que fizeram juntas? Como recebe esse tipo de comentário?

Eu adoro isso! Duda é uma artista de mão cheia, uma amiga que a música trouxe para minha vida e que ajudou a abrir mais minha mente para os beats eletrônicos.  A música que lançamos juntas é meu beijo mais empolgado no universo pop. Acho que por isso há um nicho que faz essa associação, mas tem uma turma, digamos mais MPB, que me conhece mais por meu disco Voo Longe, pela versão acústica de “Só Eu e Você” e pelas releituras de “Pelos Ares” e “Alô, Alô, Marciano”.

Nos cinemas, o longa A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, aborda a temática da gravidez e como ela desvia e interfere no destino de uma mulher. Você se perguntou sobre os rumos de sua carreira e trabalho quando soube que estava grávida? Chegou a achar que sua carreira estaria em risco?

Para ser bem sincera, não me questionei nem achei que estaria em risco. Fui envolvida por uma coragem louca e, desde que me descobri grávida, muitas portas se abriram. Lembro bem de Mariene de Castro me falando há anos que filho prosperava e tenho tido a prova disso. Claro que ser mãe traz um monte de sensações diferentes para cada mulher e é totalmente compreensível que outras mulheres se sintam mais frágeis, mas isso não aconteceu comigo.

E falando em gravidez, quais os seus desejos e histórias engraçadas da gravidez?

Não tive desejos loucos, mas passei a amar sorvete que era algo que eu nem gostava tanto. Já tapioca, que eu comia diariamente, passei a não gostar. Acarajé eu sempre desejava, mas talvez isso não tivesse a ver com a gravidez.

A gravidez também fala muito sobre processos familiares e de construção de família, laços e afetividades. O que muda com a chegada de Martim?

Absolutamente toda minha forma de pensar e sentir. Se eu já me considerava apegada a minha família, agora estou muito mais. Martim é a benção mais linda e poderosa da minha vida.


MODELO ILLY FOTOGRAFIA JÉSSICA LEAL STYLING REACERVO FABÍOLA TRINCA MARCELLA KLIMUK MAKE E PRODUÇÃO LUCAS FONSECA ASSISTENTE DE PRODUÇÃO JORGE PEREIRA

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.