A uma saudade

Roxa saudade, roxa! Triste… Triste!…
Um doce olhar aveludado e puro
Fazes surgir do meu passado escuro,
Na mesma dor imensa em que surgiste!

És cinza dum amor que não existe!
Evocas na minh’alma o que murmuro
Sem saber o quê, o que procuro
Na minha vida amargamente triste!

Roxa saudade, és um soluço imenso!
O símbolo de tudo quanto penso!
Única luz de tudo quanto eu vejo!

Roxa saudade! Ó meu perfume leve
És um amor que se esqueceu tão breve,
Que nem durou o frêmito dum beijo…

Este poema foi publicado por Armando Nobre Gusmão no artigo Algumas poesias juvenis de Florbela Espanca, em A cidade de Évora, em 1962. A uma saudade é anterior ao Livro de mágoas (1919) e fora publicada em meados de 1916 no jornal Notícias de Évora, destino de outros poemas seus do Trocando olhares, poemas de 1915-1917.


Outono

Outono vem em fulvas claridades…
Vamos os dois esp’á-lo de mãos dadas:
Tu, desfolhando as rosas das estradas,
E eu, escutando o choro das saudades…

Outono vem em doces suavidades…
E a acender fogueiras apagadas
Andam almas no céu, ajoelhadas…
E a terra reza a prece das Trindades.

Choram no bosque os musgos e os fetos.
Vogam nos lagos pálidos e quietos,
Como gôndolas d’oiro, as borboletas.

Meu Amor! Meu amor! Outono vem…
Beija os meus olhos roxos, beija-os bem!
Desfolha essas primeiras violetas!…


O que alguém disse

“Refugia-te na Arte” diz-me Alguém
“Eleva-te num voo espiritual,
Esquece o teu amor, ri do teu mal,
Olhando-te a ti própria com desdém.

Só é grande e perfeito o que nos vem
Do que em nós é Divino e imortal!
Cega de luz e tonta de ideal
Busca em ti a Verdade e em mais ninguém!”

No poente doirado como a chama
Estas palavras morrem… E n’Aquele
Que é triste, como eu, fico a pensar…

O poente tem alma: sente e ama!
E, porque o solo é cor dos olhos d’Ele,
Eu fico olhando o sol, a soluçar…

Este poema pertence aos manuscritos de Florbela depositados na Biblioteca Nacional, intitulado Claustro das quimeras, que possui 35 sonetos. Trata-se de um dos originais do Livro de ‘Sóror Saudade’, e apenas este soneto, dentre todos, não veio à luz no livro em questão.


A fotografia que acompanha os poemas é de autoria dos nossos parceiros da Imagerie – Casa de Imagens, de Lisboa.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.