Eclipse vital

A nostalgia atravessa a praça
Encontra cavidades mal aterradas
Poros expostos em vista tampada

Desconsolo a banhar recordações
Porções coloridas da tela sonhada
A poça d’agua não reluz novidades

Não traga obviedades
Tolos dizeres diários
Cálculos matemáticos em canções de ninar

Dirá o sorridente sobre o meu azedume
Dirá o carrancudo de minha frivolidade
Dirá o tempo apenas
Acalme-se

Não sufoque o passeio

Vigília da distração
Caminha, caminha, errante
Sem direção
Em diminuto cenário

Não questione o limiar derradeiro
A nave espacial
Refúgio de Kafka
Eclipse vital

Não complique a saída imediata
Sirene da fuga
Porto de embarque
Nu por inteiro

Jogue as cascas ao alto
Desenrole a fita adesiva
Vamos
Desde a infância
Capa de chuva em dia ensolarado
Pé descalço sem a grama

Dali em diante não há volta
Alegorias ou tradução
Desaba o mundo pasteurizado
Desaba o a história dos terceiros
Desaba

Sem preocupação.

Inércias

Flutua na espera
Cercado de objetos antigos
Acenos ensaiados
Gestos contínuos

Ouve sobre o cavalgar do tempo
Dias acelerados
Celebrações corriqueiras
Vida a ultrapassar percepções

Os insetos buscam luz
Anteveem a tempestade
Os outros apenas correm
Não entendem a claridade

O cão late no portão
Cochila sob o sol
Dispara no corredor

Os outros perdem o sono
Cultivam angústia
Sufocam a própria dor

Ouve sobre a troca de ofensas
Velhos bordões renascidos
Mundo virtualmente veloz
Passos repetidos
Repetidos…

II

Ciclos inteiros desmoronam
Basta a ordem inicial
A chama da vela ante a lufada
O susto do puro diante da máscara
O segundo seguinte não volta

Não é carnaval
Não é irreal
A pausa em frente ao reflexo provoca
Lâmpadas vermelhas e amarelas
Garrafas coloridas em disforme ordenação

Quem vem lá?
Depois da chuva de verão

Do brado de Xangô

Quem vem lá?
Depois da farra de auditório
Do vídeo vexatório
Terra em transe profundo

A lâmina de afiar sonhos não pode falhar
Não pode sucumbir aos desvarios
Vazamentos diários
Escorre sangue atrás das cordilheiras
Lá, onde a indiferença é mandatária.


Armando Martinelli (São José dos Campos, São Paulo). Jornalista, tem duas grandes paixões, a escrita, principalmente poesias e contos, e o cinema, com roteiros e produções de documentários. Publicou em algumas coletâneas, e seu primeiro – Recital das Reticências, saiu em 2018 pela editora Urutau. Mestrando em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor (IEL) na Unicamp, entre pesquisas e textos acadêmicos, segue finalizando seu segundo livro, também de poesia previsto para ser lançado até o final de 2020.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.