Marisol Ceh Moo é escritora e professora. Nasceu em 1968 em Calotmul, um dos 106 municípios do Estado de Yucatán, no México. É defensora das línguas originárias em seu país e recentemente foi agraciada com o Prêmio de Literaturas Indígenas das Américas, o PLIA 2019, considerado o Nobel das Línguas Originárias, com o seu mais recente livro, Sa’atal maan (Passos perdidos) escrito em maia yucateco.

Seu primeiro livro, X-Teya, u puksi’ik’al ko’olel’ (Teya, um coração de mulher), escrito dez anos antes, configura a primeira novela escrita em idioma maia no México. A história narra, em uma visão feminina, a morte de Emeterio Rivera, defensor dos campesinos yucatecos.

Marisol, o que essa obra e esse personagem representam para você?

Durante muitos anos, a sociedade juvenil manteve uma firme ideologia de mudar o mundo e ter o mundo perfeito e em paz. Por isso, os ares dos anos 60 e 70 na América Latina sucederam muitas situações difíceis, a exemplo dos violentos acontecimentos de 1968, onde milhares de jovens foram mortos pela violência ditatorial no México. Os lamentos e a busca das mães por seus filhos desaparecidos foi uma grande motivação para escrever esta novela política. Esse livro foi uma abertura e princípio do meu longo caminho literário escrevendo sobre o meu povo e a minha gente. O personagem de Emeterio Rivera Martín, é referência de um homem que lutou por todos e buscou, a partir de uma visão comunista, cooptar os jovens para ir contra o governo apesar de saber que estava com os dias contados, é um exemplo de fortaleza e admiração para mim como personagem da minha novela.

Você declarou, depois de receber a notícia sobre o prêmio, que “as mulheres se encontram num lugar que é difícil de transitar porque os homens têm prevalecido nos aspectos literários”. Como você tem enfrentado este problema desde o início da sua escrita e como você chegou a obter um lugar entre as letras mexicanas?

Desafortunadamente, não são somente os homens que se colocam contrários à literatura escrita por mulheres e em línguas originárias. Para enfrentar esses problemas machistas com minha literatura tive que seguir sendo eu, a mulher teimosa, rebelde, tenaz e decidida de ser eu mesma, meu exemplo, e meu próprio êxito como motivação para mim e para outras mulheres, meninas, meninos e homens dos povos originários.

Obter um lugar na literatura escrita em línguas originárias ou indígena, como é mais conhecida, é uma questão de ter claras as suas metas e objetivos, com autodeterminação metodológica de fazer e cumprir o que te comprometes a fazer, para entregar personagens que requerem motivação, esperança de sair de sua vida de limitações e sofrimentos. Tudo é sobre sair das limitações e sofrimentos. As letras, as minhas letras, são liberdades ou prisões.

Hoje você é o referente da literatura indígena contemporânea no México, a primeira mulher a ganhar o PLIA por dedicar-se a valorização das línguas indígenas minoritárias e expandir a tradição dos povos indígenas. Por onde isso passa? E os outros escritores ameríndios que produzem literatura em línguas originárias? O que você teria a dizer a eles?

Passa pela opressão social que as nossas comunidades indígenas vivem no dia-a-dia pelo simples fato de ser indígena, por ser mulher, por ter sido violentada na infância, por ter me negado três vezes e por ter vivido três vidas como Marisol Ceh Moo, Soledad Castro e Sol Ceh Moo, a verdadeira, a atual, a indígena, a maia, a que ama reivindicar os direitos de seu povo e lutar contra a vulnerabilidade, por todas essas coisas, posso dizer que sou a união desses dois mundos, de dois tempos literários e a mulher destemida que escreve em línguas indígenas, motivo de teses e pesquisas de doutorado em literatura… Meu trabalho literário é um divisor de águas entre a literatura tradicional ocidental com a proposta de uma literatura fresca e contemporânea em línguas originárias. Vocês, todos e todas vocês, podem ser melhores do que eu no que se propõem, mas determinem essa meta em suas vidas e lutem contra todas as coisas e contra quem se interponha contra suas posições, sejam grandes e imortais na história, porém, sobretudo, sejam felizes e livres.

E então como se caracteriza essa ruptura com a tradução estilística e temática e a literatura em língua maia? Porque ao publicar uma novela você rompe com as lendas, os mitos, com a poesia e com os contos?

Nunca gostei de ser medíocre ou limitada, sempre estive em busca de ser um exemplo e ser grande no que faço, sou consciente de que a literatura primeiro foi gráfica, toda contada com imagens e grafias, hieróglifos, pinturas e a oralidade… Mas já adianto: eu não sou transmissora de histórias dos antepassados, eu sou criadora de obras literárias a partir do meu idioma materno, a partir da minha cosmovisão e minha forma livre de narrar a minha cultura. E também com a consciência de que não só existimos nós neste mundo, mas muitas culturas, por isso tenho buscado um lugar no mundo para dar a conhecer o meu povo, a minha mãe, sua cosmovisão e sua existência. O trabalho literário sozinho é um caminho para poder nos aproximarmos, é uma forma de educação social e sensibilização mundial para a paz e respeito entre os “não iguais”. As letras permitem que a minha caneta diga tudo o que deve ser dito, romper com os paradigmas e ir sempre contra o que nos é imposto. Essa é a maior motivação de Sol. A força e a valentia que meu pai me ensinou, me indicaram como responder e rechaçar escritores machistas, mesmo os de língua maia. Fazer tudo com dignidade e respeito, com diplomacia, é a chave para vencer as rivalidades, ainda mais se é um igual a você.

Quais são os neologismos necessários para não desintegrar uma língua, para não castelhanizar o idioma?

Todos os que fazem falta, os que de uma maneira ou de outra se realizam ou se dizem em consenso e se aplicam no idioma de maneira que possa ser compreendido pelos leitores hispânicos e originários, como uma maneira de enriquecer o léxico e não gerar desuso ou sobre-uso de palavras de forma a acabar com elas. A cultura é dinâmica, o idioma muito mais a cada dia que transita na boca das pessoas.

Que escritores de línguas indígenas lhe inspiram?

Não tenho nenhum que se possa tomar como referente porque manejam uma temática que se vincula muito com a comunidade e suas cosmovisões. A mim me interessa mais a universalidade, escrever que as comunidades indígenas também têm problemas sociais contemporâneos. Essa ruptura de temática e de gênero [fora da poesia], já que me atrevi a escrever novelas, também rompeu com essa proximidade.

E onde se encontram seus reflexos literários?

Sou uma mulher dual, vivo e vivi desde a minha infância em dois contextos muito ricos, sei como pensa a minha cultura maia, sei como observa e vê as coisas, suas crenças e sua riqueza cultural; e, em outro meio sou falante do idioma [espanhol]. Sou dinâmica e adaptável a qualquer um dos dois, onde seja necessário e onde quer que eu me encontre. Não posso negar um ou outro, sou uma, sou duas emoções, duas vidas, duas culturas, porém sou uma mulher maia, sou irmã de todos os outros invisibilizados, sou justa, trabalho pela justiça, pela dignidade humana desde a minha cultural, é minha tarefa criativa.

E sobre o seu trabalho como tradutora e intérprete maia, de onde vem essa motivação?

Desde 2005 eu tenho buscado ajudar o meu povo, não somente aos de minha cultura maia. Sempre desejei um lugar melhor para todos, de paz e tranquilidade. Uma das razões para estudar e buscar formas de ajudar o povo como tradutora e intérprete em língua maia foi por ter vivido casos injustos de pessoas presas por simplesmente viverem conforme seus costumes e tradições. Pessoas que foram acusadas de maneira injusta por usar ferramentas de trabalho consideradas pelas autoridades como de “uso indevido“. Os acusados nunca entendiam do que os acusavam, os castigadores, ou seja, a justiça e a polícia nunca entendiam o que as vítimas expressavam… Assim comecei a olhar pela equidade dos mais vulneráveis.

E essa vulnerabilidade também é tema norteador das suas obras…

Não me interessa falar de assuntos locais, me interesso em falar de temas dolorosos como o incesto, o abuso sexual generalizado, a violência contra as mulheres indígenas, as tradições que submetem as meninas. Se você permanece na comunidade, tem que conviver de acordo com as tradições e costumes que nem sempre são corretos.

As mulheres no México têm que se calar sobre muitas coisas, não podem denunciar os abusos que cometem seus pais e avôs, por temor que a família fique sem sustento, e muitas vezes se culpabilizam por nascerem mulheres. São essas coisas que não posso permitir e a literatura é uma ferramenta muito forte que me ajuda a dar a conhecer estes casos, em todas as suas representações: na poesia, no conto, ou com as minhas novelas, como Sólo por ser mujer (Só por ser mulher), que venceu o Prêmio Nezahualcóyotl, em 2014.

Eu me interesso em posicionar, em situar o povo, porém dou a conhecer as injustiças para salvaguardar as comunidades que muitas pessoas não sabem que estão sendo maltratadas. As pessoas nos usam como elemento turístico, tiram uma foto conosco e nos deixam algum dinheiro. O nosso trabalho enquanto escritor de línguas originárias é posicionar as sociedades mais vulneráveis. Isso é o que faço, goste ou não o governo, goste ou não Yucatán; não me interessa se Yucatán não me reconhece como filha, o que me interessa é fazer com que saibam o que acontece ao meu povo.

Então Yucatán não te apoia?

Em Yucatán há sempre boas intenções, porém temos que fazer as coisas por si próprios. Se tens um projeto, não te vão impedir de fazê-lo, mas não vão te apoiar. Eu estou formando jovens criadores, e isso faço com o dinheiro que obtenho de minhas conferências, meus livros. Com esse projeto oferecemos liberdade para as crianças que não sabiam que tinham, queremos que contem suas histórias. Nessas oficinas temos visto que muitos jovens sofrem com abusos e temos gravado seus testemunhos autorizados para depois proceder juridicamente.

O importante é que se expressem, que dispensem essa carga e tomem decisões, que vão estudar e deixar de ser oprimidos, não deixar de ser maia, mas preparar-se e depois retornar para sua comunidade e apoiá-la. Justamente por isso que Yucatán não me convidava para os eventos institucionais. O mesmo governo está focado em Mérida, ele apoia os nossos atletas e os reconhece… Porém, se se trata das necessidades do povo indígena, nos dão as costas.

Então falando em apoio do governo, você afirma que essa nova administração não está apoiando as comunidades indígenas?

Este governo prioriza o fim da corrupção, o que é ótimo, mas temos uma população que pede ajuda por que está na pobreza e com seus direitos humanos violados. A má gestão desse governo dá prioridade a projetos como trens, metrovias, que geram atrativos turísticos. Alguns dizem que “é a primeira vez que o governo olha para os pobres”, e isso não é verdade. As pessoas não estão de acordo comigo, nem quero que estejam, porém o assistencialismo no México é compra de desejos e vontades, é compra de votos. Dizem que vão vender livros traduzidos em línguas indígenas em todo o país para educar. Isso soa bonito para o presidente [Andrés Manuel López Obrador], mas só porque soa folclórico para as pessoas a quem ele se dirige, que não são indígenas. Deviam nos oferecer uma educação de qualidade, não se aproximam para nos perguntar as nossas necessidades porque tudo se planeja dentro de um escritório, porque como somos indígenas, não importa: “nós aguentamos vara”.

E os mexicanos que estão fora do país e se veem ameaçados nos EUA pelo governo Trump, na iminência de um muro fronteiriço que divide línguas e tradições. O que dizer a eles?

Ler-se e reconhecer-se, valorizar-se como povo mexicano, como pessoa, como seres humanos e pensantes, essa é a chave. Nunca se deve viver com medo, o medo é o mesmo que estar morto. Aprendam a viver felizes, um dia, dois, três, os que tenham que viver… Mas faça-os com dignidade, amor e respeito para com vocês mesmos, para com cada um. Mas evitem o medo, a dor e o sofrimento. A dignidade da pessoa e sua felicidade são o grande pilar para se estar bem em tempos difíceis. Os valores e a cultura dos povos e comunidades do México, em sua arte e sua literatura, nos permitirão alcançar a sensibilidade social sempre urgente para evitar a discriminação das pessoas por seus aspectos, origem, idioma ou classe social. É necessário criar práticas de respeito, sensibilização social e reivindicação cultural para irmanação do mundo.

Agradecimentos especiais para Mixar López, jornalista gentilmente cedida pelo Los Angeles Times para a Revista Philos. 

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.