A voz de Gabriel Cavalleiro é ampla, circula entre os sons da urbe, aprofunda questionamentos e diz: Não fui eu. A memória eu poderia dizer que um “grito inaudível” de um “pintor-poeta” que com a própria vida cria a sua arte de ver. As palavras que ele diz, ou melhor, que ele escreve nas ruas do Rio de Janeiro, riem, se despem da culpa, com a inocência da criança perante o universo que desmorona. Reflexão, rigor, ironia, concisão e coesão marcam o fazer de seu trabalho que fala também sobre aqueles que habitam as ruas das metrópoles brasileiras. Nas minhas idas e vindas por Recife, São Paulo e Rio, sempre me deparo com suas inscrições de sujeitos ocultos que se revelam em outros sujeitos-autores.

Mestre em Estudos Contemporâneos da Arte pela Universidade Federal Fluminense (UFF), bacharel em Desenho Industrial com habilitação em Comunicação Visual e Antropologia da Arte e Cultura pela PUC-Rio, Gabriel Cavalleiro, investiga o estranhamento do cotidiano, trazendo questões relativas à marginalidade, infância, perturbação e angústia humana. Sua pesquisa está relacionada aos espaços da cidade, sejam eles públicos ou doméstico-privados, e as relações com seus habitantes. Em suas exposições, explora as possibilidades poéticas da montagem ao se utilizar de apropriações de objetos mundanos. Seu processo de criação extrapola o espaço pictórico para a tridimensionalidade e intervenções públicas no intuito de dialogar com o espectador comum, o sujeito que é autor nas ruas; e não apenas com os já doutrinados no nosso elitista mundo das artes e da literatura.

Gabriel, para iniciar esta conversa, pensei em sugerir uma questão: a suspeita de que você possua um modo específico de pintar, ou que há certas características formais que são constantes em muitas das suas obras. Isso quer dizer que o seu trabalho já começa carregado de uma série de observações da cidade, seus estudos, técnicas de arte?

Não começo com uma retórica fechada e não acho que termino com uma também [risos]. Minha pesquisa parte da observação do que me espanta no meu entorno: anotações, registros fotográficos, desenhos e apropriação de fotos da internet. Na etapa seguinte foco no fazer e nas relações que me causam incômodo. Com o tempo vou percebendo elementos recorrentes nos trabalhos, alguns como: um pensamento sobre a cidade e sobre as relações entre seus habitantes, que afetam e são afetadas por ela, a urbe como fluxo; as memórias de um jovem amadurecendo, revisitando sua infância, as relações entre a alta versus baixa cultura e culturas de rede… A partir daí vou cruzando meus interesses plásticos, busco me aprofundar nesse processo. Com isso percebo uma ou outra questão, e procuro observar mais sobre elas, expandi-las. Pesquiso, tento consumir conteúdos referentes às mesmas – o que alimenta a minha ânsia de fazer. Sigo nesse movimento pendular de instinto e razão, estratégia e caos. Para mim é importante não estar totalmente no controle.
Num outro momento, reflito sobre o que estou produzindo, o que está se criando com a contaminação dos meus interesses e afetações. Acho que é mais uma relação entre consistência, consciência e consequência, independentemente da ordem.

Você pinta na cidade, aborda através da leitura, existe um ponto de partida para a escolha da tela?

Sobre as pinturas da piXação? São algumas as variáveis que levam a escolha dos locais: fala do próprio percurso que eu faço ao andar pela cidade, lida com um certo oportunismo, outras com o próprio risco de ser num lugar de mais difícil execução da obra ou que tenha mais visibilidade… É difícil definir apenas um ponto de partida… Tem locais que olho enquanto flanando pela cidade e penso “ali ia ficar do caralho”, depois volto e faço outros, são por mero acaso, o olho vai ficando viciado em encontrar essas “oportunidades”. É uma relação com a paisagem da cidade…

Que é um processo diferente do que você faz no ateliê, esse lugar isolado, de embate entre você, o pintor, o artista e a tela. Ele revela um sujeito recluso, que confabula seus desejos, seu imaginário e também tem um tempo. O tempo das ruas não é o tempo do ateliê, o tempo do seu trabalho nas ruas tem pressa de dizer e não revelar-se, o tempo das coisas que são feitas para serem logo mostradas. O que são essas duas vivências?

O trabalho nas ruas lida com a urgência do fazer, com o risco real em ser pego. Como artista, me proponho a ideia, mas na hora da execução me sinto mais próximo dos piXadores mesmo: aí já não tem a mesma racionalização que gerou o trabalho e sim aquela fissura em fazer mais, lidar com a adrenalina dessa dinâmica transgressora com a cidade. É como um jogo com uma regra muito importante: você não pode ser pego! Já que está em jogo a minha integridade física além da potência de responder judicialmente por isso…
Já o trabalho de ateliê tem um outro tempo e dinâmica, eu lido com o acaso da fatura, com o cruzamento de interesses estéticos e conceituais e deixo um trabalho ir contaminando o outro. Eles precisam de um tempo de cura, assim como um bom Whisky! Não me considero especialista em nenhum dos meus fazeres, a busca da resolução faz parte do problema, talvez por isso que goste de trabalhar com diversas mídias. Pela natureza distinta de cada uma delas: a pintura, o piXe, instalações, imagens, objetos, há um modus operandi distinto, questões específicas de fatura, relações estéticas e históricas que são ou não abordadas nesses dois espaços.

Gabriel Cavalleiro em seu ateliê pelas lentes de Luísa Ruas.

Não é no espelho que devemos observar-nos. Homens, contemplem-se no papel. Nestas palavras de Michaux, está uma síntese daquilo que pode ser considerado a sua obra, exploradora do conceito de escrita. Ainda mais para o graffiti, que é sempre uma assinatura, a voz de alguém. Concorda?

Acredito que se refere aos espelhos, em como nos vemos, como projetamos a nossa auto-imagem. Enquanto no papel, no fazer, é onde deixamos escapar o que realmente somos – além do que queremos ser-, uma vez que somos a soma das nossas ações, não conseguiremos fugir de nós mesmos.
Falando nisso, vejo aí a minha relação em, desde que iniciei minhas produções artísticas, de não me preocupar em ter trabalhos de naturezas tão distintas. Acredito que em algum ponto se encontram num eixo comum, já que não posso fugir de mim mesmo.

João Moreira Salles, na Revista Piauí, afirma que Não fui eu é um prodígio de forma, o ser o eu e o não. Pra você, o que é a forma do Não fui eu?

Vejo a forma do Não fui eu como uma ação infantil, leviana. Uma molecagem levada ao extremo da transgressão, uma frase que provavelmente dizemos muitas vezes em muitos momentos da vida, que por ser tão repetida se esvazia de informação plena, daí tantas leituras cabíveis. É também uma negação de autoria. No começo, a minha motivação vinha da questão de que o trabalho de piXe em si, seria apenas uma assinatura e me instigou criar um piXe-piXador que fosse uma antítese da própria piXação. Mas a pregnância da repetição da inscrição e o uso de mesma grafia e paleta de cores (que conscientemente remetem a um universo infantil) a tornou uma assinatura. Por isso acho que nem sempre a motivação é o que mais importa, isso apenas para o próprio artista; o trabalho tem que ser mais que isso. Funciona de forma autônoma, e ao fazer fui percebendo outras camadas, amadurecendo o meu olhar perante a ele, o que foi me gerando outras questões. Acho que toda a prática artística é um pouco assim, se não a pesquisa não andaria e seria quase uma ilustração de uma ideia. O trabalho quando funciona consegue dizer mais que nós mesmo.

Em outro momento ele finaliza o texto comEnquanto a verdade que a frase traduz nos disser respeito, a história por aqui será o que é: uma coisa que se move, mas não avança”. O que pra você é esse movimento e como a arte faz a gente mover e avançar?

Não acredito que arte possa mudar alguma coisa efetivamente. Apenas afetar a percepção das pessoas as questões do seu entorno, mas essas pessoas, ao perceberem a realidade de outra forma, podem sim, transformar suas realidades.

E como reagiu este país retrógrado a essa pequena revolução sua nas ruas?

De diversas formas que nem eu esperava, sendo muito sincero, não esperava nada com ele, não tratava o Não fui eu como um trabalho. Era uma relação minha de transgressão com a cidade, eu já piXava e fazia essas “molecagens” na rua desde a escola, antes de iniciar os meus estudos no campo artístico e querer ser artista. As pessoas mais centradas em si projetam em Não fui eu os seus próprios valores, para muitos é uma grande zoeira: como um meme interativo onde tiraram fotos com a inscrição apenas pela potência jocosa nela contida. Outros projetam seu discurso político, tanto de direita quanto de esquerda. Já vi comentários nas redes sociais dizendo que “souberam que era uma campanha de Não fui eu que votei na Dilma” [risos]. E tem muitos outros discursos em sentidos opostos também.
No instagram, pessoas começaram a me ameaçar e agredir verbalmente dizendo que eu era um lixo, um criminoso que emporcalhava a cidade. Vivemos num sistema capitalista onde a propriedade privada é muito valorizada, como algo que beira o sagrado, já que foi conseguida pelo fruto de esforço e acúmulo de capital, e eu interfiro nesse espaço privado. Enquanto outro se diziam ser meus fãs. – Como assim?! Que amavam o meu trabalho, queriam saber quem eu era, etc… Muita gente acha que é um trabalho de um coletivo, recebo mensagens se referindo a mim no plural: Vocês… Acho que parece estranho uma pessoa insistir em fazer mais de 4 mil inscrições de Não fui eu por tanto tempo…
Mas tive reações muito gratificantes de pessoas que admiro e que respeitaram o Não fui eu como um trabalho artístico, contendo poética. Enquanto outros só me viam como um criminoso. Já fui ameaçado na rua, já tive que correr, já colocaram arma na minha cara, assim como já me abordaram falando se sentir “honrados em me conhecer”, que sempre quiseram saber quem fazia, que sempre tiram foto… “É muito bom, por favor não para. Como faço pra você fazer no meu apartamento?”
Já fizeram bonés, estampas de camisa, memes usando a frase com a minha mesma grafia. Outras inscrições começaram a aparecer em estados que eu nunca fui e me marcaram como se fosse meu. A coisa deixou de ser minha e se tornou muito maior do que eu. Percebi muitas reações diferentes.

Bataille escreveu uma vez que “poesia que não se eleva até a impotência é vazio de poesia”. O que você acha? Sua obra procura se elevar até a impotência? O que você quer elevar seja nas ruas, no seu ateliê ou na sua vivência como artista?

Se bem entendi, concordo sim! Na verdade, posso falar mais por mim. Já que nunca me senti capaz de criar poesia, me parece muito pretensioso, né? Acredito que a poesia já está no mundo e o que nos cabe é criar gatilhos que a despertem nas pessoas, mas não as criamos. No máximo criamos pretextos que a catalisam os nossos embates com o mundo. A obra deve ter um vazio para que o espectador possa complementar com a sua subjetividade individual. Acho que a coisa mora mais em entender o que encontro do que procurar elevá-la. Parto de uma necessidade de criar e relacionar as coisas que percebo no mundo. Nesses tempos em que não vivemos num ritmo orgânico e sim da máquina: Nós acordamos de tal hora quando o despertador toca, atravessamos a rua quando o sinal está verde, etc… Isso gera um olhar letárgico para o nosso entorno, só quero de em alguma forma desestabilizar o olhar. É não só olhar, mas também ver, observar, estranhar as coisas como quando éramos crianças.

Citar Bataille é também falar em academicismos. O que é a academia nas ruas? Tendo em vista que suas intervenções urbanas partem desse lugar de pensamento, digamos, acadêmico e toma o espaço social.

A academia das ruas é mais democrática, ou melhor.. quase anárquica. O trabalho se dilui no cotidiano. Devido a verborragia imagética das ruas e a pluralidade de natureza de grafismo (os letreiros, os lambe-lambes de publicidade ilegal, o grafite, o piXe), essas intervenções por vezes perdem o seu sentido inicial e criam uma relação única com o espaço que as cerca e com quem as lê, fazendo assim parte da paisagem gráfica da cidade e do imaginário coletivo. O que é interessante pensar é que muitas vezes pouco importa a intenção original, pois os elementos ganham significados diferentes de acordo com o repertório individual de quem os lê. A paisagem gráfica muda toda a experiência de um lugar. O que percebemos nos é imposto, não escolhemos ver ou não ver, estão lá. Mas o bacana é que também são feitos pelos próprios cidadãos, pelos transeuntes que afetam e são afetados pelo seu entorno, a cidade é um organismo vivo.
Diferentemente da rua, o espaço institucional expositivo ou acadêmico sempre vem acompanhado de curadoria, de referência, de nota de rodapé, assim como de legendas que contextualizam suas obras e pensamentos. Já na urbe a rua é o próprio suporte e sua veiculação instantânea daquela informação, no limite em que ela e o trabalho se confundem.

E tendo em conta que letras e artes e arte e cidade se associam numa perspectiva até barroca, a escrita não nasce, porém, para si, apenas do jogo intelectual, certo?

A escrita também é desenho, parte de uma performance: da ação de inscrever algo em algum lugar, daí lida com espaço, corpo, tempo. Não se resume apenas ao conteúdo lírico de seu texto, mas também forma, ação, contexto que está inserido… O meio faz parte da mensagem.

É uma subversão pelo riso ou questionamento?

Acho que tanto o riso quanto o questionamento coexistem de forma subversiva. O humor trabalha com o limite do incômodo, é ferramenta linguística extremamente potente para questionar. Ao gerar o riso cria-se mais empatia junto ao receptor e assim torna a experiência com as suas camadas de conteúdo mais leve, mas não menos crítica. Daí depende da bagagem de quem interpreta apenas rir ou se questionar.

Há distância entre o eu e o outro, a culpa e a absolvição, mas dentro de uma tragicidade?

Sartre já falava que o inferno são os outros e que a má-fé seria mentir para si mesmo, tentando nos convencer de que não somos livres. O ser humano tem uma tendência a justificar as suas falhas no outro, não temos muito o distanciamento crítico e auto-análise. Nunca nos diz respeito, nós somos benevolentes conosco. Difícil assumirmos que, sistemicamente, fazemos parte das mazelas da sociedade, somos responsáveis por nossas ações, mas os outros são o inferno. Vale distinguir culpa de responsabilidade por muitas questões sociais que são estruturais. Como indivíduo realmente não temos culpa delas, mas como cidadãos privilegiados por essas questões sociais, de classe, estruturais, temos a responsabilidade em dever reduzi-las. Responsabilidade pelo nosso papel na sociedade.

O que sua arte faz por você e faz pelo outro?

Mesmo se eu disser o que penso que possa fazer pelos outros estarei falando mais de mim do que de fato sobre o que ocorre. Depois que o trabalho é colocado no mundo, ele funciona sozinho, dialoga com o mundo, ecoa de uma forma onde não tenho controle. Sendo assim, até as minhas motivações e possíveis intenções deixam de importar. Espero que os toque da forma que seja, bem ou mal, que estranhem, que desestabilizem o olhar, que amem, odeiem, sintam raiva, questionem, riam… O pior dos cenários seria a indiferença.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.