A frase-título desse artigo é de Ro’Otsitsina do povo Xavante, do Mato Grosso, porta-voz do movimento das mulheres indígenas. E continua: “Violando uma menina, violando uma mulher, você está violando o povo. Ou seja, qualquer pessoa que faça mal a mim, que machuque fisicamente ou verbalmente a mim, ou a qualquer mulher, está fazendo algo contra o meu povo e a minha cultura”. Dona Damiana, líder indígena da Aldeia Apikay, símbolo de resistência e de perseguição às mulheres Guarani e Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, foi expulsa da sua terra tradicional e teve 9 dos seus familiares mortos, são ao total, 48 anos de luta e de violência contra a mulher indígena.

A mulher está levantando como liderança para defender a terra mãe. A terra é a nossa mãe, a terra dá saúde, a terra dá comida, a terra a gente usa para plantar, não é para judiar.

Leila Rocha Guarani e Kaiowá (MS)
Líder da Aldeia Yvu Katu / Kunangue Aty Guasu

As mulheres indígenas sofrem latentemente pela violação dos seus direitos e precisam ser ouvidas. Vivem no Brasil cerca de 445 mil mulheres indígenas, de 305 etnias, segundo dados do IBGE de 2010. Em 2015, no Acampamento Terra Livre validou-se a pauta nacional de luta comum à todas as etnias: Violação dos Direitos das Mulheres Indígenas, Direito a Terra e Processos de Retomada, Direito a Saúde, Educação e Segurança, Direitos Econômicos, Empoderamento Político das Mulheres Indígenas, Tradições e Diálogos Intergeracionais, Comunicação e Processos de Conhecimento, Processos de Resistência, por fim e não menos importante: Sustentabilidade e Financiamento. O peso da inércia e de decisões que previlegiam os latinfundiários e fazendeiros criminosos pelo Brasil, vêm comprometendo sistematicamente um futuro justo, harmônico, pacífico e sustentável para os povos originários. Cabe à nós, meros colonizados, mudarmos nosso mindset civilizatório e praticarmos valores indígenas como a escuta e a diplomacia. Agindo micropoliticamente em prol da preservação da vida dos povos originários

Nós, mulheres indígenas, somos jardim, somos raíz, somos tronco dessa luta”, sustenta Cris Pankararu do Povo Pankararu, de Pernambuco. As “parentas” como são chamadas umas às outras, discutem de forma pertinente todos os temas da pauta nacional entre diferentes regiões e etnias, mas o consenso entre elas de maior urgência são: a luta pela proteção e manutenção dos territórios e do meio ambiente, além de saúde e educação.

O tema da violência de gênero, ainda é uma bandeira que começou a ser fincada muito recentemente e de maneira mais tímida, entre elas. Para Ro’Otsitsina, as mulheres indígenas precisam ter oportunidades iguais no processo educacional, ao direito de escolha e de acesso ao conhecimento. E acrescenta: “Há momentos em que a união entre homens e mulheres é necessária, mas há momentos em que a gente precisa ficar em um espaço de confiança só entre mulheres. Até para poder se abrir sobre determinados assuntos. Para mim, uma liderança feminina do meu povo é aquela que detém todo o conhecimento familiar de maneira geral, além do conhecimento político e estratégico”.

Cápsula Âmago – CA 2019 concepção, stylist e tingimento natural: @studiotrinca shooting e fashionfilm: @welcome_to_igorland maquiagem: @mari_pin joias: @dritrivelato modelo: @portoisa

Em tempo de doença, seremos revolução. Contudo, a sociedade desconhece a nossa presença. A nossa identidade e nossa capacidade de multiplicar a nossa presença através das nossas conexões com as nossas forças ancestrais, é o que nos faz diferentes. Dizer isso, é afirmar que a minha luta fortalece a da outra e de todas que virão” observa Célia Nunes, do Povo Xakriabá, de Minas Gerais. A sabedoria e a sede de novos conhecimentos abrigando o tradicional e o verdadeiramente original da mulher indígena, nos mostra a força ancestral dos povos originários, através do conhecimento inteligente das plantas como medicina, usos artesanais e outros benefícios. Nos provando que o ser humano e a natureza são indissociáveis. Que a transformação consciente, significa aprofundar o diálogo: aprender, ensinar, admirar, refletir, vivenciar, sentir, amar – até nos tornamos um. Um com nós mesmos, um com o próximo, um com a natureza, um com o planeta.

A atividade predominante feminina na cultura indígena é o fazer artesanal, demonstrando o significado social da interação e diálogo entre as mulheres durante a confecção das peças. Thuë thëpë noathayu, na língua Yanomami significa “conversa entre mulheres”. Falar da imagem da grande ancestral indígena, é nos remeter ao arquétipo da mulher de grande capacidade de premonição, sábia, amorosa, destemida, perspicaz, guerreira e corajosa. Sendo importante para mulher indígena honrar e reverenciar suas antepassadas.

Nossa expectativa é de que as mulheres busquem muito mais do que uma única resposta: valorizem suas narrativas, suas histórias, suas memórias, para que isso sirva de alimento”, diz Célia Xakriabá. Recentemente, eu fui apresentada a cultura do povo Huni Kuin, do Acre, etnia essa em que as mulheres desenvolvem a tecelagem e o tingimento natural. Elas produzem o próprio algodão na aldeia, tecem o fio, tingem com tintas naturais extraídas das árvores como mogno, cerejeira e pau brasil, tratando-se de uma cultura artesanal que é passada de mãe para filha, através de gerações. Mawapai, uma importante artesã da comunidade, ensina à neta a arte que aprendeu com seus antepassados. As crianças aprendem na prática esse processo desde bem pequenas, onde tudo é feito em comunidade. Os grafismos produzidos pelas mulheres HuniKuins se chamam “kene”, que quer dizer “desenho verdadeiro”.  Para elas, o desenho é um elemento crucial na beleza da pessoa e das coisas. Cada desenho está relacionado a um elemento da natureza, seja animais, plantas, movimentos naturais etc. Quando estão tecendo as mulheres cantam pedindo a força da aranha para que teçam rapidamente, pois a história da origem do algodão é de que a arara o criou, por isso evocam sua força.

Se não tiver mais reza, o mundo vai acabar.” Estela Vera é rezadeira ou opurahelva do povo Ava Guarani do território tradicional de Potrero Guasu, fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. No depoimento “Se não tiver mais reza, o mundo vai acabar”, colhido pela antropóloga Lauriene Seraguza, Estela fala da importânica de suas rezas e cantos para a produção da vida social e dos mundos Guarani e Kaiowá. A força espiritual nutre a história e a luta das mulheres indígenas que erguem seus povos. Na cosmovisão indígena, a espiritualidade conecta mulheres e homens à terra. Entre a comunidade indígena tudo se divide. E o que nutre as relações entre as mulheres da mesma aldeia e de diferentes etnias, é o respeito e troca, de maneira coletiva e compartilhada.

A escolha por trabalhar com as plantas e com o tingimento natural, através de um sistema baseado no compartilhamento e na colaboração, respeitando os ciclos da natureza e integrando a mulher moderna à mãe terra, é intuitivo à minha crença de que quanto mais difundirmos os conceitos e a forma originária de trabalhar e ser em essência e harmonia com a natureza, propagando os conhecimentos ancestrais, com respeito à prática da artesania indígena, poderemos construir juntos uma sociedade mais inclusiva e igualitária. É a valorização da arte e do rico artesanato indígena que também contribue para a conservação dos povos originários do Brasil. Seguimos na luta diária pelo novo mundo.

Cápsula Âmago – CA 2019 concepção, stylist e tingimento natural: @studiotrinca shooting e fashionfilm: @welcome_to_igorland maquiagem: @mari_pin joias: @dritrivelato modelo: @portoisa

Fabíola Trinca é artista visual e tingidora natural. Utiliza suas mãos como ferramenta para a disseminação da arte natural em diversos suportes, realiza tingimentos botânicos em tecidos naturais, dando novo sentido ao vestir. A roupa respira, é viva. Instagram: @fabtrinca / @studiotrinca

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.