em agosto fui acampar na praia do sono. nunca tinha brincado de náufraga antes, cheguei lá de mala de rodinha e boné. riram e eu levei ovos na mochila pro café da manhã, todo mundo comeu. eu passei alguns meses tentando entender o que levava alguém a desistir de si mesmo. eram 6 da manhã e os cachorros magros da praia desafiavam o vento. letícia acordou e me pediu chá. contei pra ela sobre como as escolhas são sempre um cobertor curto. letícia disse que preferia pensar nos números que constroem prédios do que nas pessoas que desafiam os números e pulam dos prédios.

eu fiquei puta porque os engenheiros não constroem prédios maiores nas suas horizontais para evitar esses convites à morte

– do livro Poesia rouca, de Dora de Assis (2020)

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uma apresentação de Roberto Corrêa dos Santos

eu conheci dora em sala de aula e logo tive a certeza de que ela era incomum mas precisava, como preciso eu e tantas gentes, ser comum; assim, fazemo-nos eu ela sem esforço de comunitários. mas há algo em dora que, para rimar, a isola. e esse algo isolante em dora está na cara de dora e está no movimento de corpo de dora e dora sabe como fazer a arte de sua absência constitutiva de existir vir à tona para doar-se. dora escreve, dela brotam poemas: saem da pele e põem-se em escuta na alma de quem a lê.
“quem ousa a escrita’’, merece de dora dedicatória.
dora conta, dora narra, dora cria um ritmo tal que nos avoca; seguimos no ritmo de dora e com dora queremos saber mais, mais saber: seu ritmo tão veloz e leve, como se nos tocasse logo nas costas e em arredores nossos, como se nos pusesse a saltar em grande frescor de vida e letra.

um descompasso há ante dora e o sítio que habitamos, um descompasso há ante dora e algum ele a se amar; do descompasso à página chegam seus inquietos poemas. intensivos e tagarelas e econômicos são os poemas de dora, como pode? dora pode, dora faz, dora diz. dora tem uma caixa de afetos de toda espécie – uma caixa de sensações sem fim.

neste livro, eis nos em face da caixa aberta por dora; dora exigiu: – saiam! e os poemas seguem à rua dos livros na forma de “flores do espírito que ri” e que “chora e que ri”; ora pousam em paredes e ora descansam os poemas em uma das dobras das muitas doras da obra; isso, isso para começar: dora colheu as coisas próximas e as distantes para erguer o poema seu; seu poema tem sonho, pujança, ternura, é arte. tantos de nós queríamos a contemporaneidade que dora possui e domina e espalha em versos, falas e atos; há ali, na caixa aberta, uma clara e nobre herança secreta. dora desde cedo, desde antes, e bem agora sabe muito e muito sobre a batida de uma frase quando o poema-frase vibra para o mais além da frase; e disso, somado àquilo e àquilo que vem do existir e do viver, nasce o livro, arde o livro, ama-nos o livro: e move-se repleto de promessas (o poema revela: “prometo prometer”), promessas todas visíveis, com tantas já cumpridas: eis-nos diante do belo livro da bela dora a escapulir – seria esse o verbo – por entre sombras de dedos.


dora de assis dacosta nasceu com circular de cordão em 1997. é atriz e estudante de artes visuais da UERJ. ainda sente dores no pescoço.


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Poesia Rouca
Dora de Assis
ISBN 978-65-00-01267-5

Casa Philos (2020)
com ilustrações de Marina Lattuca

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.