Azul ou rosa, menino ou menina, bola ou boneca, herói ou princesa, isso ou aquilo? 

Esses e outros questionamentos nos enquadram em uma estrutura social movida pelo binarismo de gênero, ou seja, homem e mulher. Assim, pensar na construção do nosso sistema social como uma força que organiza e movimenta nossa existência enquanto coletividade, é averiguar os processos históricos que atravessam os corpos ao longo do tempo. O cistema, definição que decorre da pessoa cis, em latim, “deste lado”; torna-se uma estrutura que movimenta o sistema político-social ao qual estamos inseridos, com padrões de comportamento impostos aos indivíduos de uma maneira geral, regidos através da cisnormatividade, que se compreende por meio das alternativas citadas anteriormente. De um lado, temos tudo aquilo que corresponde a masculinidade e o ser homem, do outro, a mulher e sua feminilidade. Quando corpos, assim como o meu, insurgem dos padrões comportamentais do que seria dito como homem ou mulher, sinto-me brutalmente violentada por esse cistema que, cotidianamente, silencia e mata de forma física e simbólica estes corpos.

Consigo tirar pertinências dos processos que perpassam meu corpo de forma significativa ao longo do tempo. Em um primeiro momento, destacar minha sexualidade antes mesmo do meu corpo enquanto matéria física, é relembrar os anos em que vivi aprisionada com medo de compreender meus desejos sexuais. O contato que tinha com adolescentes gays era mínimo, afinal, conseguia enxergar neles o que eu não queria me tornar: o menino gay que era xingado, zoado e deslegitimado pelos garotos héteros cisgêneros da escola. Ainda que nessa mesma época tais práticas depreciativas já eram recorrentes comigo, verbalizar “eu sou gay”, era afirmar toda uma representação negativa que se tem da homossexualidade.

Sem dúvidas, carregar o fardo que a sociedade impõe aos corpos de pessoas LGBTs é um peso que ao longo do tempo vai ficando cada vez mais exaustivo e cansativo de sustentar, associado ao medo, exclusão e rejeição. Por isso, “eu sou gay, é isso e não vai mudar” foram as palavras que saíram da minha boca no momento que resolvi assumir minha sexualidade após longos e confusos 18 anos de idade. Chorei muito, dei bastante risada, recebi vários abraços, e o melhor de tudo: me senti amada, respeitada e acolhida pelos amigos que resolvi chamar de família. Por isso, consigo compreender este primeiro passo como o renascimento de um ser que, em seu processo, embarcaria em inúmeras outras aceitações e descobertas a respeito das questões que perpassam seu corpo.

Adentrando agora numa jornada de autoconhecimento com meu próprio corpo, aventuro-me a descobrir, para além dos padrões comportamentais tidos como “ser homem” impostos a minha genitália, e, consequentemente rejeitando tais normas; o desgosto sentido pelos corpos que se desvinculam da magreza. É neste momento que me encontro sozinha, rejeitada, desprezada e vulnerável. Porém, certa vez ouvi que nossa vulnerabilidade é o caminho ao qual poderíamos encontrar formas de empoderamento para os nossos corpos. Durante esse processo, comecei a degustar o amargo sabor que é ser uma pessoa gorda na contemporaneidade, pois somos corriqueiramente negadas o direito ao afeto, prazer e cuidado.

Eram nas noites confusas, apegada aos meus prantos, que conseguia estar a só com minha vulnerabilidade. Lembro como se fosse hoje da vez em que estava diante do espelho puxando partes do meu corpo na intenção de arrancá-las de mim enquanto chorava amargamente por ver aquele reflexo.

Desde sempre fomos ensinados a engolir o choro, respirar fundo e seguir em frente. Concordo com esse sistema de autodefesa e o quanto ele é essencial para suportarmos as dores que sentimos ao longo da vida, mas também seria interessante ensinar que podemos encontrar nos nossos momentos vulneráveis a força que precisamos para encarar e seguir firme. Foi na solidão que sentia naquelas noites, nas lágrimas que rolavam na minha face e nas tentativas fracassadas de sentir o afeto do próximo, que encontrei algo para acreditar: em mim mesma.

Ter a maquiagem ao meu lado desde muito nova, sem dúvidas foi a coisa mais importante que poderia ter comigo nessa trajetória. Sempre pontuo o quanto a maquiagem teve um papel revolucionário na maneira como me enxergo, expresso, e manifesto minha existência na sociedade. Nunca foi apenas o produto de beleza em si, ou muito menos um mero ato de consumo, mas todo um valor simbólico que vem atrelado ao desejo de querer algo que nunca foi designado ao meu corpo e ainda assim me fazia tão bem. Assim, encontrei na maquiagem não só a força que precisava para enfrentar as dificuldades de ser uma pessoa não-cis na nossa sociedade, mas também uma forma de reconhecimento enquanto um corpo belo e político.

Foi adentrando cada vez mais no universo da beleza, que permiti acreditar na potencialidade existente no meu corpo. A jornada de aprendizado com minha forma física não foi nada fácil, e ainda não é.

O discurso ao qual pregamos sobre amor próprio e corriqueiramente indagamos ao próximo “se ame”, esteja em desuso para mim. Permito-me desfrutar da descoberta, compreensão e formas de lidar com o próprio corpo, sendo a chave necessária que precisamos para viver pacificamente com nós mesmos. Tem sido muito mais enriquecedor provocar a experimentação do corpo, percorrendo campos aos quais nos sentimos seguros e frágeis, do que simplesmente demandar ao próximo o discurso de “se ame”, quando na verdade estamos falando de uma jornada que vai durar a vida inteira com seus altos e baixos. Por isso, venho dialogando cada vez mais sobre a possibilidade de autoconhecimento como um mecanismo contínuo que descobre maneiras de lidar com cada área do “eu”. Em boa consequência disso, apreciamos com mais cuidado nossa imagem da maneira que é.

Ainda que eu tente não associar a sexualidade das questões com minha autoimagem, não consigo diferenciar o que mais pesou na balança, afinal, afastar corpo e sexualidade como dois fatores opostos seria impossível. No fim das contas, estamos lidando com um corpo que desde sempre foi gordo e afeminado, vivenciando duas fortes pressões sociais: o padrão estético do corpo magro propagado pela moda e a publicidade como certificação da felicidade; e a repressão da população LGBTQIA+ que desde sempre sofreram tentativas de apagamento ao longo da história.

Contudo, os processos que guiaram a minha existência até o presente momento, foram os mais enriquecedores e valiosos que poderia ter. Assim, acreditar nos processos independente dos resultados finais, é crer numa jornada de autoconhecimento que nos levará a um destino incerto, porém extremamente satisfatório. Acredite.


Rick Negreiros é publicitária e criadora de conteúdo pernambucana. Apaixonada por carnaval, moda e beleza, debate em suas redes sociais a importância de compreender a potência e beleza do próprio corpo. Acompanhem o trabalho dela no YouTube, Instagram e Twitter. As fotografias que acompanham o texto são da fotógrafa Sara Lima.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.