Conheci Bárbara no hall do teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, na saída da peça Macunaíma – uma rapsódia musical, de Bia Lessa. Apesar de nunca termos nos visto pessoalmente até aquele fim de espetáculo, Bárbara havia me convidado para assistir a montagem naquela noite.

Os seus olhos”. Lembro-me que ela falou dos meus olhos naquele primeiro encontro. E até hoje me pergunto o que eles deviam ter lhe dito. Não o sei, e talvez não devesse mesmo saber. Mas decerto usei-os para testemunhar todas as coisas belas que de Bárbara emanam: o mundo, o silêncio, a delicadeza, as suas flores margaridas… E também as nossas vivências, os almoços na cozinha de casa, o bolo de aniversário surpresa, as conversas e reflexões tão profundas que Bárbara sempre me faz ter.

Outro dia me peguei olhando fotos nossas, acho que temos os olhos parecidos. Mas espero um dia poder olhar como Bárbara olha: através. 

Sem mais delongas, apresentamos a mostra Hoje fui à tua casa & outros poemas, de Luz Bárbara. As esculturas que acompanham os poemas são da artista plástica colombiana, Lucía Parias, colaboradora da Philos de Bogotá.

Hoje fui à tua casa
Novamente sem ser chamada
Recolhi meus pedidos para entrar
Recolhi do chão as roupas que tirei para te amar
Recolhi as palavras que falei para me fazer conhecida
Mas do tempo que passamos em silêncio
Quando deitaste teu corpo sobre o meu
E com minhas mãos conheci tua pele
E com as fendas entre meus dedos e unhas
Comi os tocos de teus pelos recém nascidos
Deixei na tua cama cada segundo
Para que tu recolhas

***

Eu sou muitas mulheres que se amam
Muitas mulheres que se amam moram dentro de mim
E elas se amam
E elas se mamam
E elas se olham
E elas se molham
Não é narcisismo
Eu sou muitas mulheres que se amam
Muitas mulheres que se amam moram dentro de mim
E elas não são a mesma pessoa

Eu sou muitas mulheres que se amam
Muitas mulheres que se amam moram dentro de mim
E elas se amam
E elas se mamam
E elas se olham
E elas se molham
Não
É narcisismo
Eu sou muitas mulheres que se amam
Muitas mulheres que se amam moram dentro de mim
E eu não sou a mesma pessoa

Minhas mulheres estão grávidas
De si

Deixa o óleo escorrer
Pelo beco escoar
Até o suco cair
Pelo rego regar
Pois o que era só o toco
Agora pode arvorar
Subir e descer
Ir e voltar
Que a plantação tá grande
E da seca sobrou pouco

Não quebra a quenga
Da fruta menina
Cálida casca grossa
Também dá carne macia
Deixa ela abraçar o pé todo
Vai tu junto trepar
Subir e descer
Ir e voltar
E por cargas d’água
Traz pra mim um coco

***

Meio da noite
Sinto o cheiro que vem do meio das tuas pernas
Lua cheia
Vesica Piscis vermelha que me leva à ascensão
Intersecção inchada para sucção
Dela sai sangue
A fonte de ferro líquido da guerreira
O elixir da força bruta
Beber-te torna-me bicho
Agora sou toda impulso e instinto
Transmutada em loba
Esfrego meu rosto em teus pelos
Mordo tuas coxas
Singro
Subo até os seios
Apago todos os rastros de vermelho em teu corpo com a língua
Lambo teus delicados dedos
De vagar
Com mais atenção para a doce fenda entre o indicador e o dedo
do meio
Pequena poça que ainda reserva tuas águas femininas
Bebo tudo tudo tudo
E ainda assim não sacio essa sede que dura 28 dias

Absorvente Noturna


Luz Bárbara é multiartista de Parahyba, desenvolveu em São Paulo seus principais trabalhos. Como poeta escreveu para a Antologia Profundanças 3 e performou suas poesias no espetáculo Ninho de Palavras com Lucas Dan e no espetáculo Camaradas – Fantasia para dueto, camerata, camarim, atentado e passeata com Chico César.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.