Somos pobres, porém livres, no nosso brio descuidado, nos trapos e coração soltos ao vento. Na nossa realidade feia, anêmica, somos os malditos, destros na arte inocente de encantar os sentidos e juntar palavras. Como o olho no ser, temos como bandeira a atividade criadora, de mudanças e retóricas incendiadoras, que não concebe permanências. Nosso legado é o amor inédito, vivemos a encruzilhada entre os silentes trabalhadores e a sorte dos vagabundos que se embebedam nos faróis. Não aceitamos o enquadramento a verdades sagradas, não queremos o beijo amargo dos que trazem no peito um coração atrofiado. Entregamo-nos às palpitações, ao devaneio, aos territórios desconhecidos, labirintos que se instalam na escuridão das madrugadas insones. A nossa obsessão é o discurso. Pungentes, pobres-diabos, lutamos contra a escravidão, sobretudo, a retórica reinante que não dá lugar ao pluralismo. Nossa liberdade confunde-se com o próprio excesso e, forçosamente, tentamos apenas não encobrir a urgência dos impulsos. Buscamos, imaginativos, a poesia corpórea que não permite acreditar na falsidade dos preconceitos, pensamentos dispersos que levam o homem a opor-se próprio homem. E então, no nosso poder de encantamento, as coisas tornam-se animadas, nas nossas tramas e escavações. Somos marginais, sim, mas tramamos nosso discurso de resistência, queremos o abraço comovido dos insensíveis, arrependidos da trajetória de obscuridade. Não queremos desesperança, mas reflexão e transmutação de toda coisa que existe numa força potente e imperiosa, que se traduz em amor.


Roberta de Medeiros é jornalista, formada em Comunicação Social. Atuou na cobertura da área política de sucursal da Folha de São Paulo. Trabalhou como repórter de afiliada da rádio CBN. E foi colaboradora de saúde e comportamento da Revista Fato. Escreve para a Revista Psique, periódico de circulação nacional especializado em Psicologia e Psicanálise.

A fotografia que acompanha o texto é de autoria de Magda Fernandes e José Domingos, nossos colaboradores da Imagerie – Casa de Imagens, do Porto, em Portugal.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.