Os nossos mortos, contá-los entre os vivos, como atravessam nossa escrita, nosso corpo, gesto. Estamos vivos, o país está vivo enquanto acolhe pensamentos, nomes desses por quem chamamos e habitam a memória e a língua, as línguas dessa terra. A ternura, a saudade, o cuidado, a alegria, a dor que vem com o nome num sussurro ou espanto com o sabor da primeira lembrança, a xícara, o café, a criança embaixo da mesa no rendilhado de luz, a voz da mãe, da avó. Está morta a terra que não fala, não respira, sufoca a língua e a memória, e nem podemos caminhar sobre ruínas, elas foram apagadas. Apagar o nome, a letra, se nosso primeiro movimento em criança é riscar o chão com graveto ou as unhas, os dedos, escrever o nome que aprendemos. E no desenho-testemunho dizer sol, morro, bicho, gente, o meu bicho, a minha gente. Dizer eu vi. Eu vejo. Escuto, guardo, devolvo de outra forma. Converso com o que veio antes de mim. E quem esteve antes de mim. A primeira ida ao teatro. Ao mar. Ao cinema. Como apagar, varrer a história, os vestígios, se existimos em linguagem, arte, se em nossa infância no planeta a mão rabiscou cavernas, paredes, histórias nossas de cada dia. Responder às esperanças. As esperanças recebidas daqueles que nos deixaram. Nossos passos ecoam ao seu lado e já não sei quem sou se não posso lembrar seus nomes. E ouvir seus nomes. Nas bocas tristes que suspiram porque lembram e caminham, e também alegres porque lembram e caminham. Num agora que se constrói sobre ruínas, e não devemos apagar ruínas. Por nós agora, nessas lembranças futuras. É de impossibilidades, necessidades, urgências que estamos vivos. E tão sós e à deriva. Que às vezes sinto pena. Mas a vontade de continuarmos vivos cresce, imensa, só para não abrir mão da responsabilidade pela história que é, que será contada.


Susana Fuentes é autora do romance Luzia (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura) e do livro de contos Escola de gigantes, seleção Biblioteca do Professor no programa “Rio, uma cidade de leitores”, da Secretaria Municipal de Educação (RJ), ambos pela editora 7Letras. Escreveu a peça teatral  Prelúdios, em quatro caixas de lembranças e uma canção de amor desfeito, solo em que atua (selecionado para o The New York International Fringe Festival). Com seus contos participou de diversas antologias. Atualmente prepara um livro de poesia e um novo romance. É doutora em Literatura Comparada pela UERJ, com pesquisas em literatura brasileira e russa.


As imagens que acompanham o texto são de autoria do fotógrafo David Segarra, da Catalunha, e faz parte de sua coleção intitulada “Gaza – Palestina, amor, bellesa, resistència, patiment, saviesa, alegria i coratge.“, (Gaza – Palestina, amor, beleza, resistência, sofrimentos, sabedoria, alegria e coragem), de 2014.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.