A escrita de Lucia Berlin é resignada, definida e condescendente. É marginal, provocadora e carente. É de uma perícia bruta e líquida, que nos espia a solidão sem necessidade de aprovação do mago interno, também conhecido como arte. Que caminhos esta mulher palmilhou até chegar ao hábil tecido dos precipícios da minúcia, compilando passagens da sua obra nas mais cruas formas, (a)variações, presenças e ausências?  

São raros os escritores contistas que o conseguem fazer assim deste modo: limites traçados como fronteiras no espaço, quase como manda a tradição inglesa do desenho, com autoridade e medida, sem ganhar espaço a mais no papel. Há contos e contos. De Gogol a Chekhov, de Eça a Lispector, de Poe a Borges, de Cortázar a Hemingway, Trevisan e Akutagawa, Alice Munro ou William Trevor, entre muitos outros – em todos eles há o denominador comum desse desenho, do encanto quando se encostam a nós e, com singelo toque, nos batem no ombro e sussurram “senta-te e escuta o tanto que tenho a dizer”. 

Lucia Berlin é uma dessas prodigiosas autoras, feminista ou nem tanto, pouco importa, que nos desmonta em sucessivos socos no estômago até ao rodopiar das nossas cabeças. Derruba-nos com as suas narrativas, ora muito longas ora muito curtas, num rosto que rezinga impenetrável, estórias que vão tomando conta de nós, do início ao fim, sem a preocupação de contagiar as vozes mais puritanas só por ser mulher e, portanto, de não a levarem a sério. 

O caminho de Berlin tolda-se numa espécie de montanha russa. Despreocupada – pelo menos aparentemente – com o despontar da obra antes da morte, ao invés disso, assume e aceita que ela mesma nem sequer chega a desabrochar até ao seu desaparecer. Mas não morre por muito tempo. Sorte ou azar, fica sempre a dúvida se o doce veneno da fama a salvou da pior doença, dessa solidão mais aguda. Tantos e tantos famosos autores, contudo pouco célebres, dariam tudo para passar ao lado dessa droga bem pesada. Fica também a incerteza: se no meio de outras dependências que a autora experimentou, sendo o álcool a que mais forte bateu na sua vida, ela saberia que essa auréola a levaria a um poder irreal feito de fumos, espelhos, entre outros abismos que a glória, o renome, o prestígio e a influência trazem erroneamente para o mundo.

Não. Lucia deixou-nos a impressão de que o mais importante era que houvesse, pelo menos, uma pessoa que apreciasse o seu trabalho, em vez de uma multidão fazendo de conta que adorava o produto. Um/a só leitor/a seria o suficiente para a salvar. Uma multidão acabaria por esmagá-la, ou deixá-la-ia morrer na miséria. Sagacidade era o nome do jogo nas suas narrações. Uma vida ficcionada, faccionada, friccionada, nunca foi objeto de manipulação para ela. Expurgação, talvez sim. Ademais, também a própria teve sempre muita consciência da inviabilidade desse poder, que não lhe pertencia, nem a ela nem a ninguém. Um presente emprestado pelo sucesso, talvez. Uma ética que sabia não poder usar a seu favor, veneno que felizmente lhe passou ao lado, condenação que a livrou para sempre. Lucia entendeu bem isso desde o início do jogo, que só escreve de verdade quem tem mãos verdadeiras, sem aldrabar, nem os outros e muito menos a si mesma. 

Lucia fintou bem a dor de quem não a soube amar na sua totalidade, na sua verdade. Claude Simon (Prémio Nobel em 1985) cujas cinquenta páginas de um romance seu, “Palace”, originalmente publicado em 1962, enviado em segredo por um leitor seu, vê-se recusado por todas as editoras, dezanove no total. Grande sorte para o escritor francês, que se livra de ver ingênita aberração, uma vergonha para todos nós. 

A história está feita destas peripécias, onde não se reconhece o apropriado valor da sua arte, onde não se gratifica a excelência. O original, para muitos, é uma roleta russa, uma ameaça, um mal que se suspeita, um prenúncio a abater. Camões morreu pobre e desolado e, muito provavelmente, sem amigos. Pessoa, um nómada de poiso em poiso, “foi morrer com o fígado trespassado a um hospital com nome de santo francês que está no Bairro Alto e, ao que se diz, a última frase que lhe se ouviu foi em inglês que a disse I do not know what tomorrow will bring, para tirar as dúvidas a quem as tivesse.”, lembra o autor Pedro Paixão. Temos ainda Ruy Belo – hoje, finalmente hoje – poeta de grande gabarito no mundo das letras, herói primeiramente abandonado pela academia fascista e, por último, pela academia democrática. E muitas centenas de outros grandes, como foi o caso de Ruy Cinatti, “um poeta entre os maiores, enlouqueceu com a revolução dos medíocres e presumidos cravos, que, entretanto, desapareceram como espécie. Eu só não me deixei esmagar porque não tenho valor algum em particular, nunca tendo chegado a ser o que queria”, completa Paixão.  

Lucia Berlin faz parte dessa custosa redoma dos (des)conhecidos das letras. Embora o seu trabalho tenha sido – e será – amado por muitos, escritores inclusive, e a sua obra “Homesick” tenha ganho o American Book Award, em 1991, a contista nunca teve um grande número de leitores, talvez porque o seu habitat eram as margens do mundo literário, ou, porventura, porque nunca se preocupou com o modo intransigente e a natureza “pouco higienizada” da sua escrita. O socialmente correto era luva que a própria não calçava. As histórias de Berlin estão repletas de segundas oportunidades. Todo o pecador tem segundas e terceiras chances para enfrentar as várias mordidas da vida, uma erva amarga que se tritura até ser finalmente cuspida. 

No mesmo dia que nasce, no mesmo dia que morre. Ironia do destino, talvez presságio shakespeariano, o póstumo “Manual da Faxineira” [1] é hoje um espólio feito de fragmentos que se retalham em genial compilação de memórias e fluxos de consciência além-ficção. Um vício que se cola como uma droga. Um “trabalho em curso”, com avanços e recuos. Estórias com começos e recomeços e meios sem um fim, que costuma acontecer da mesma maneira que acontece na vida, por meio de uma morte ou de uma partida, em vez de uma frase bem elaborada e cheia de florzinhas para enfeite. “The story is the thing”, ponto. 

Sem todo este legado, sem essa nobreza na capacidade de sofrimento, Lucia Berlin não seria o que se tornou hoje, “uma medida – e talvez a melhor medida – da grandeza de uma pessoa. E, contudo, os grandes também são alegres. Este é, portanto, o paradoxo”, aviso feito por M. Scott Peck no seu livro “O Caminho menos Percorrido”. 

No prefácio, Lydia Davis assegura que estas histórias se ajustam aos muitos detalhes e contornos da vida de Berlin, “rica e cheia de incidentes” e descreve o seu género como sendo semelhante à autoficção ou ‘autoficção francesa’; a narração da própria vida, quase inalterada, da realidade, selecionada e criteriosamente, artisticamente contada”, salienta. “Ma escreveu histórias verdadeiras, não necessariamente autobiográficas”, garante um dos seus filhos já depois da sua morte. E ainda bem que assim é: é a vida, é a morte, a vida da morte viva, não fôssemos nós humanos com memória e herança e tudo se arruinaria, como lágrimas à chuva, como “as máquinas de lavar” quando “transbordam espuma pelo chão”.

[1] “Manual para Mulheres de Limpeza”, edição portuguesa. “Manual for Cleaning Women”, título original. Fotografias gentilmente cedidas pelo Acervo Lucia Berlin, Literary Estate of Lucia Berlin LP.


José (Yosef) da Cunha Rodrigues, português radicado em Boston, formou-se em Línguas e Literaturas Modernas. É mestre em Literatura Portuguesa e pós-graduado em Estudos Pós-coloniais. É doutorando em Estudos Portugueses, especialidade em Literatura e Cultura Lusófonas pela Universidade Aberta em parceria com a Brown University. Leitor Camões I.P. e diretor do Centro de Língua Portuguesa, é corpo docente na University of Massachusetts (Latin American & Iberian Studies Dept.) e no Boston College (Romance Languages & Literatures Dept.). É autor do livro À Luz da Kabbalah

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.