A Philos conversou com o artista plástico e residente da Casa da Escada Colorida, Allan Pinheiro, na abertura da exposição coletiva “Pro Tempo Levar”, que encerrou, em fevereiro, o primeiro ciclo de residências da Casa da Escada. A Casa é um centro de artes com um programa de residência artística situada num dos maiores cartões postais do Rio de Janeiro: a Escadaria Selarón. A Casa também promove exposições, cursos, cineclubes e degustação de café de origem no Café colorido.

Como morador de favela do subúrbio carioca, meu primeiro contato com a arte veio através da rua por meio da pichação e do graffiti. Mesmo efêmera, a arte de rua me despertou um senso de questionamento muito grande, pois ao mesmo tempo que é criminalizada, é impossível andar pelas ruas e não ver os muros pichados ou com pinturas gigantescas e coloridas. Foi esse espanto seguido de um profundo questionamento que me fez mergulhar na arte”.

Allan Pinheiro (2020)

Em seus trabalhos, Allan busca traduzir o cotidiano da favela e do subúrbio carioca com elementos que geralmente passam despercebidos nas nossas rotinas: placas de rua, faixas, cápsulas e cartuchos de bala, cenários e materiais que integram a vida nas comunidades são ferramentas para as suas obras.

Uma das minhas experiências com a rua, é a ideia de criar quadros e abandoná-los em locais públicos para que assim as pessoas possam ter contato e levem as minhas obras para suas casas. Pra mim, quebrar a rotina e fazer as pessoas se espantarem com a arte é o primeiro passo para que elas se entendem como participantes diretos do meu trabalho”.

Allan Pinheiro (2020)

A ideia de utilizar materiais como tijolos, madeiras de demolição, embalagens plásticas e sucatas, representa a conexão do artista aos lugares nos quais eu busca inspiração, não só por ter uma identidade visual nítida mas também por ser matéria extraída desses espaços. Em Castelo de Brinquedo“, Allan se utiliza de cápsulas de munições deflagradas em confrontos e ações policiais nas comunidades do Rio de Janeiro. “Isso traz pro meu trabalho uma vivência particular que me ajuda a descrever a sensação de impotência das pessoas que vivem em meio a guerras urbanas. Detalhes tão pequenos como utilizar materiais extraídos de locais específicos, dão uma nova significância a arte. Detalhes quase invisíveis, que me ajudam a retratar um quadro real de desigualdade no cenário social do Rio de Janeiro”, conclui.


Allan Pinheiro (Rio de Janeiro, 1993). Artista plástico e morador do Complexo do Alemão. Para mais obras do artista, acesse o perfil do Instagram.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.