púchkin & machado 

é preciso dizê-lo, sim
é preciso tornar-se negro.
no rosado leve da pele
o suave do retrato
e o céu da áfrica se perde do álbum de família.
é preciso revelar o sépia
revolver a tinta
descascar a camada de tinta.

na troca de pele
púchkin se espalha
no rastro do seu bisavô.
eritréia
ou etiópia, no outro lado da fronteira.

na verdade
camarões, novas linhas no mapa
mais escuras, mais certeiras.

púchkin
mais terra adentro, em várias áfricas
diferentes línguas.
machado
em outros morros e esquinas
a cada espanto
na pele

nessa escuta
novas ruas
novos pretos
riscar o ceú, a cidade.

por ora
a vida na pele

a linha, o sol

a escrita
fura o asfalto

rabisca a grafite onde antes
o esquecimento
e branco silêncio. 

percorre muros
dá impulso ao pé do menino
para o salto
cruza o espaço mais que pipas
(antes só elas podiam voar)

as pipas em balanços leves
silenciavam a fome
eterna disputa no trajeto das balas
(e as meninas de mãos vazias

não riscavam o céu)
mas agora, o livro

se ver no livro – e naquele que escreve
aprender a distância de ver
espiar pelo canto do olho
onde antes
a lágrima

novas formas de ver e para mim
mais uma janela
púchkin me faz procurar no mapa
o lago chad.
onde o seu bisavô, um menino de oito anos

a cada folha
a cada terra, lançava
no caminho para
a rússia
seu primeiro olhar

sob um céu distante. 

Susana Fuentes é autora do romance Luzia (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura) e do livro de contos Escola de gigantes, seleção Biblioteca do Professor no programa “Rio, uma cidade de leitores”, da Secretaria Municipal de Educação (RJ), ambos pela editora 7Letras. Escreveu a peça teatral  Prelúdios, em quatro caixas de lembranças e uma canção de amor desfeito, solo em que atua (selecionado para o The New York International Fringe Festival). Com seus contos participou de diversas antologias. Atualmente prepara um livro de poesia e um novo romance. É doutora em Literatura Comparada pela UERJ, com pesquisas em literatura brasileira e russa.


A imagem que acompanham o poema é de autoria do fotógrafo Fabio Teixeira, fotografada em Copacabana, no Rio de Janeiro em 2013.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.