Próximo a toda roseira,
lírio do campo ou qualquer
flor nobre existe uma súplica.

Tolas são as ervas daninhas que
sedentas por um pedaço de chão
insistem em nascer em uma terra
que jamais será sua.

– Mas toda terra não é livre?

Deus todo poderoso não criou a natureza para todos?

– Não.

É de seu lugar a lágrima da raiz arrancada,
do mato ceifado,
da semente perdida.
Mesmo sabendo que
n’alguma junta de chão,
n’alguma beira de rua ou canteiro
de planta, é ali que vai estar o desejo
arrancado todos os dias
pelo jardineiro.

Tu me regas,
a terra me nutre,
mas eu definho pelas mãos de outros
nessa terra que é mais castigo que liberdade,
me remexo embaixo do solo
tentando mais uma vez tua atenção,
crendo na vontade crua e ancestral
de que magicamente algo novo nasça:
-Algo novo que não é você e que não sou eu.

Lucas Fonseca (Pernambuco, 1990) é Artista Plástico (UFPE) e Historiador (UPE), participou de projetos de arte educação e curadoria para o Museu Murillo La Greca e o Instituto Ricardo Brennand, ambos em Recife. Para além de ter atuado em monitorias do MNBA – Museu Nacional de Belas Artes (Chile). O poema Jardineiro faz parte do seu livro Coração em fermentação lenta (no prelo, Casa Philos).


A ilustração que acompanha o poema é de Ewelina Karpowiak, colaboradora da Philos de Łódź, na Polônia. Artista de colagens e ilustradora baseada em Lodz tem trabalhado sob o nome artístico Klawe Rzeczy. Ela é uma teórica de cultura e mídia por profissão. Suas ilustrações podem ser encontradas principalmente em revistas polonesas, tais quais Architektura Murator, Pismo, Miesięcznik ZNAK, g’rls ROOM. Ela também trabalhou para empresas como Vander Jewelry, Fast Company, Ambition Magazine, Lonely Planet e Philos. Suas colagens foram publicadas no livro “Mix&Match. Exploring Contemporary Collage“. Desenhar pôsteres e ilustrações editoriais é sua atividade favorita. “A colagem digital é minha área de interesse há muito tempo. Eu gosto de remover objetos do contexto original e dar a eles novos; por vezes, abstratos, significados. A manipulação nessa área é, para mim, a criação de simulacros, de minha própria hiper-realidade que causa certas emoções” – diz ela sobre seu trabalho.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.