Três coisas que eu posso afirmar sobre aquela noite: Foi a primeira que passei no apartamento de Joana. Foi a segunda que passei sem Isabel, que viajara de férias com nossas duas filhas. E foi a última antes que eu começasse a me inquietar com as notícias que vinham salpicando as páginas dos jornais há pelo menos um par de semanas. Notícias sobre uma nova epidemia, um vírus desconhecido que mata jovens e velhos poucos dias após os primeiros sintomas. Mas não sem antes submetê-los a torturas e humilhações, como dispneia e diarreias copiosas. Apesar disso, naquela madrugada entre os lençóis só pensamos em executar a contento a performance que já vínhamos planejando desde o bar. 

No dia seguinte, ao checar nossos celulares, fomos cercados por relatos detalhados sobre o assunto: 2.113 contaminados no país. 207 mortos. Contágio pelo ar. Talvez pelo contato com superfícies infectadas. Talvez por animais domésticos. Talvez por sexo. Talvez tenha surgido numa cidadezinha do interior de Tocantins. Latência de 10 dias – as autoridades insistiam nisso. E o mais importante de tudo, firmes recomendações para que ninguém saísse de casa. Tudo era imprevisível, perigoso. Os transportes estavam suspensos, lojas e escritórios fechados. Os supermercados entregavam comida em casa, mas convinha se abastecer logo antes que os estoques acabassem.

Apesar disso, ou talvez por isso, dias excitantes se sucederam. Aproveitamos da melhor forma possível a porta aberta pelo estranho fenômeno, que nos obrigara a ficar parados onde estávamos, como nas brincadeiras de “estátua” da infância. Era emocionante também ver fatos realmente importantes substituírem a frivolidade cotidiana nas páginas da imprensa. 

O primeiro telefone a tocar foi o meu. Um breve susto, mas Joana se afastou para me deixar à vontade, e eu disse a Isabel e às meninas que tudo estava bem, o trabalho sendo feito à distância, o mundo ao alcance pela Internet – menti dizendo que a câmera não funcionava e que eu não sabia como consertá-la. Depois, foi o telefone de Joana, e eu aproveitei para contemplar a igreja que dominava a janela da sala, com suas portas cerradas e escadas vazias. 

À medida que se aproximava o décimo dia de confinamento, porém, fomos ficando mais nervosos. Se um de nós estivesse infectado, o outro também estaria. Num primeiro momento, eu esperava que o espírito de aventura prevalecesse e nosso entusiasmo aumentasse diante do perigo. Mas não foi o que aconteceu. O tesão esfriou. A tensão aumentou. Quando falava com Isabel, não deixava mais que Joana se afastasse. Tinha medo que ela fizesse barulho. Ela ia para a cozinha, eu ia atrás, vigiando. Quando era o marido dela que surgia, eu me inquietava por não ouvir sua parte no diálogo. Será que ele estava mesmo em outro país? Será que conversavam por códigos? Será que ela se chamava mesmo Joana? Como quem não quer nada, procurei por um documento esquecido em algum lugar.

Na manhã do décimo dia, saí do quarto de hóspedes, para onde havia me mudado não lembro exatamente quando, e esperei por Joana na sala. Espiei novamente a igreja, envolta em abandono. Fitei os cds e dvds na estante – mesmo com o presente suspenso, o mundo estava equipado para emitir ecos permanentes do passado. Respirei fundo, tentando avaliar meu estado de saúde, o ar enchendo os pulmões, indo até o último alvéolo, sem obstáculos. Engoli a saliva, uma, duas vezes. Verifiquei a temperatura das minhas bochechas. Tudo normal. Joana veio da cozinha com uma tigela de cereais. Perguntei se ela estava se sentindo bem, ela disse que sim.

Olhamo-nos com alívio – era tudo que restava passada a excitação e a ansiedade. Levantei-me e, pedindo licença à dona da casa, apanhei uma tigela para mim também. Comemos com vontade, sem olhar para os lados. Joana espantou um pigarro, deve ter engasgado com sua granola. Logo depois viríamos a saber que, segundo as últimas pesquisas científicas, o período de latência do vírus podia ser bem maior que dez dias.


Mário Araújo (Curitiba, Paraná). Seu primeiro livro, A Hora Extrema, recebeu o Prêmio Jabuti, em 2006, na categoria Contos e Crônicas. Em 2008, publicou o volume de contos Restos, que foi bem recebido pela crítica, com elogios de importantes escritores como Millôr Fernandes, Cristovão Tezza e Luiz Ruffato. Teve contos selecionados para antologias publicadas no Brasil, Alemanha, Espanha, Finlândia e México. Entre 2013 e 2017 escreveu crônicas semanais para o site Vida Breve. Em 2016, participou da antologia Cobain, que reuniu contos inspirados em canções do grupo Nirvana. Recentemente, concluiu seu primeiro romance, Breu, a ser brevemente publicado.

A fotografia que acompanha o conto é de Magda Fernandes (Porto, Portugal, 1981) e José Domingos (Paris, França, 1974), colunistas da Philos e fundadores da Imagerie – Casa de Imagens, criada em Lisboa.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.