Virginia Woolf: un suicidio di libertà

Estudando a literatura inglesa na universidade, eu não tinha dado muita atenção à obra de Virginia Woolf. Eu tinha lido «Mrs. Dalloway», mas não tinha tido a vontade de aprofundar o conhecimento sobre esta escritora que tinha parecido difícil para mim, muito preocupada com a técnica de escrever, muito segura de si e consciente dos movimentos da sua consciência: enfim, uma desdenhosa criadora de vanguarda literária, que pertencia a uma elite, a um pequeno grupo de escritores que escreviam para uma minoria de leitores.

Studiando la letteratura inglese all’università, non mi ero molto soffermata su Virginia Woolf. Avevo letto «La Signora Dalloway», ma non mi era venuta voglia di approfondire la conoscenza di questa scrittrice che mi era parsa difficile, troppo preoccupata della tecnica dello scrivere, troppo sicura di sé e consapevole dei moti della sua coscienza: insomma una sdegnosa creatrice di avanguardia letteraria, che apparteneva a una élite, a un piccolo gruppo di scrittori che scrivevano per una minoranza di lettrici.

A ideia que eu tinha dela, formada através dos livros de história da literatura, era a de uma preguiçosa, rica mulher vitoriana, sem filhos, que olhava do alto do seu nariz aquilino, criticando todos aqueles que não tinham o seu mesmo ponto de vista ou que não pertenciam à sua mesma classe social.

L’idea che mi ero fatta di lei dai libri di storia della letteratura era quella di una pigra, ricca donna vittoriana, senza figli, che guardava dall’alto del suo naso aquilino, criticando tutti coloro che non la pensavano come lei o che non appartenevano alla sua stessa classe sociale.

Então, um dia, casualmente, encontrei-me lendo «A Room of One’s Own» (“Um quarto só para si”, na tradução literal e publicado no Brasil com o título de “Um teto todo seu”) à medida que os meu olhos escorriam as páginas a minha excitação e entusiasmo aumentavam. Será que esta mulher tão diferente de mim e de tudo o que faz uma mulher moderna, tenha recolhido em um livro estas ideias que fazem parte da vida cotidiana de uma feminista?

Poi un giorno, casualmente, mi trovai a leggere «Una stanza tutta per sé». Mano a mano che gli occhi scorrevano sulle pagine la mia eccitazione e il mio entusiasmo crescevano. Possibile che questa donna così diversa da me e da tutto ciò che fa una donna moderna, avesse raccolto queste idee che facevano parte della vita quotidiana di una femminista?

No livro, baseado em duas conferências que ocorreram em Cambridge, Virginia Woolf esboça a posição social da mulher na literatura. Seria difícil encontrar um ataque mais radical e mais decisivo, um quadro mais atento e detalhado da submissão das mulheres. Mesmo percebendo a sua condição privilegiada (tinha herdado uma renda vitalícia de 500 libras por ano de uma tia e tinha-se liberado não apenas do esforço e da fadiga, mas também do ódio e da amargura: «Não tenho mais a necessidade de odiar nenhum homem; nenhum homem pode mais me ferir; não tenho mais necessidade de lisonjear nenhum homem; nenhum homem  pode mais  me dar mais nada»), não por isso ignorava a condição das outras mulheres. Não tinha esquecido de quando ganhava a vida «fazendo pequenos trabalhos para jornais, a crônica de um espetáculo aqui, de um matrimônio ali eu tinha ganhado algumas libras escrevendo endereços em envelopes, lendo livros para velhas senhoras, fazendo flores artificiais, ensinando o alfabeto às crianças da creche», essas eram as principais, senão as únicas ocupações que se ofereciam às mulheres antes do 1918. Longe de se considerar uma pessoa intelectualmente superior, continuava a sentir-se mal instruída, porque seus irmãos tinham sido mandados à universidade, enquanto ela e sua irmã tiveram que renunciar à instrução universitária.

Nel libro, basato su due conferenze tenute a Cambridge, Virginia Woolf delinea la posizione sociale della donna nella letteratura. Sarebbe difficile trovare un attacco più radicale e più deciso, un quadro più attento sulla soggezione delle donne. Pur rendendosi conto della sua condizione privilegiata (aveva ereditato un vitalizio di 500 sterline l’anno da una zia e si era così liberata non solo dello sforzo e della fatica, ma anche dell’odio e della amarezza: « non ho più bisogno di odiare nessun uomo; nessun uomo mi può più ferire; non ho più bisogno di lusingare nessun uomo: nessun uomo mi può più dare niente»), non per questo ignorava la condizione delle altre donne. Non si era dimenticata di quando guadagnava la vita «facendo lavoretti per i giornali, la cronaca di uno spettacolo qui, di un matrimonio là; avevo guadagnato qualche sterlina scrivendo indirizzi sulle buste, leggendo libri per le vecchie signore, facendo fiori artificiali, insegnando l’alfabeto ai bambini dell’asilo», le principali — se non le uniche occupazioni che si offrivano alle donne prima del 1918. Lungi dal considerarsi una persona intellettualmente superiore, continuava a sentirsi male istruita, perché i suoi fratelli erano stati mandati all’università, mentre lei e sua sorella avevano dovuto rinunciarvi.

Eis uma mulher que conhecia quais eram os problemas das outras mulheres: problemas econômicos, preconceitos, falta de cultura, falta de privacidade. Jane Austen, por exemplo, tinha escrito os seus  romances em um canto da sala, cobrindo-os com uma folha de papel absorvente cada vez que alguém entrava, porque se envergonhava quase como se estivesse cometendo um crime. Uma mulher afirma Virginia Woolf , para poder trabalhar intelectualmente necessita de um quarto todo para si.

Ecco una donna che conosceva quali erano i problemi delle altre donne: problemi economici, problemi di pregiudizio, mancanza di cultura, mancanza di intimità. Jane Austen ad esempio aveva scritto i suoi romanzi in un angolo del salotto di casa, coprendoli con un foglio di carta assorbente ogni volta che qualcuno entrava, perché si vergognava quasi, come se stesse commettendo una brutta azione. Una donna — afferma Virginia Woolf — per poter lavorare intellettualmente ha bisogno di una stanza tutta per sé.

Virginia Woolf nasceu em 1882, filha do Sr. Leslie Stephen, um escritor vitoriano especializado em biografias de personagens ilustres, pensador livre e apaixonado por montanha e por Julia Jackson. Desde a sua infância, Virginia teve uma natureza secreta, intensa, como se fosse animada por uma peculiar música interior. Os momentos mais felizes da sua infância e juventude os viveu na enevoada e sombria casa que os pais possuíam em St. Ives na Cornovaglia. Recordações destas estadas se encontram em todos os seus  romances.

Virginia Woolf era nata nel 1882, figlia di Sir Leslie Stephen, uno scrittore vittoriano specializzato in biografie di personaggi illustri, libero pensatore ed appassionato di montagna e di Julia Jackson. Fin dalla sua infanzia Virginia ebbe una natura segreta, intensa, come animata da una sua peculiare musica interiore. I momenti più felici della sua infanzia e giovinezza li visse nella nebbiosa e ombrosa casa che i genitori possedevano in Cornovaglia, a St. Ives. Ricordi di questi suoi soggiorni si ritrovano in quasi tutti i romanzi.

Em 1992, casou-se com Leonard Woolf, um funcionário da Administração Colonial Britânica que tinha vivido no Ceilão por vários anos, mas, cujos interesses intelectuais tinham prevalecido sobre os da carreira. Com o marido, Virginia fundou uma editora, a Hogarth Press e tornou-se parte do famoso grupo literário de Bloomsbury, do qual faziam parte Henry James, T.S. Eliot e James Joyce. Em 1932, aos 50 anos, Virginia tinha publicado 6 romances e era uma mulher famosa. Mas o sucesso não poderia apaziguar a sua febre interior, intensificada pela angustiada crise política daqueles anos. Enquanto a Europa se precipitava em direção a fascismos e à guerra, Virginia Woolf começou a deslizar em direção à autodestruição, em direção a «um desejo de morte», como ela mesma escreveu. «Sentia escreveu sobre ela  um biógrafo , que estava correndo para a fogueira de um imenso sacrifício humano».

Nel 1912 sposò Leonard Woolf, un funzionario dell’amministrazione coloniale britannica che era vissuto diversi anni a Ceylon, ma i cui interessi intellettuali avevano alla fine prevalso su quelli per la carriera. Con il marito, Virginia fondò una casa editrice, la Hogarth Press ed entrò a far parte del famoso gruppo letterario di Bloombury, cui appartenevano anche Henry James, T.S. Eliot, James Joyce. Nel 1932, a 50 anni, Virginia aveva completato 6 romanzi ed era una donna famosa. Ma il successo non poteva placare la sua febbre interiore, accresciuta dall’angosciosa crisi politica di quegli anni. Mentre l’Europa precipitava verso i fascismi e verso la guerra, Virginia Woolf cominciò a scivolare verso l’autodistruzione, verso «un desiderio di morte», come scrisse lei stessa. «Avvertiva — ha scritto di lei un suo biografo — che si correva al rogo di un immenso sacrificio umano».

As vozes do passado lhe falavam cada vez mais frequentemente. E em 28 de março de 1945, Virginia Woolf, após ter escrito duas cartas ao marido e à irmã, caminha em direção ao rio Ouse, um curso de água em North Yorkshire,  perto da sua casa de campo. Deixa o seu chapéu e o seu bastão de passeio à beira do rio e desaparece nas águas escuras que tantas vezes tinham sido descritas nos seus romances.

Le voci del passato le parlavano sempre più spesso. Il 28 marzo del 1945, Virginia Woolf, dopo aver scritto due lettere al marito e alla sorella, si incamminava verso il fiume Ouse, che scorreva vicino alla sua casa di campagna, lasciava il suo cappello e il suo bastone da passeggio sulla riva e spariva nelle acque scure che tante volte erano state descritte nei suoi romanzi.

O seu suicídio pareceu à maioria o gesto insano de uma mulher doente de nervos, mas hoje, para nós  tem o valor de um testemunho supremo e desesperado do seu compromisso social por um mundo em que o homem seja irmão do M’homem e em que «a razão de ser de uma mulher não consista em ser sustentada por um homem e em cuidar de suas  necessidades».

Il suo suicidio parve ai più l’insano gesto di una donna ammalata di nervi, ma per noi oggi esso ha il valore di una testimonianza suprema e disperata del suo impegno sociale per un mondo in cui l’uomo sia fratello a M’uomo ed in cui «la ragion d’essere di una donna non consista nell’essere sostentata dall’uomo e di accudire ai suoi bisogni».

Esta visão do mundo e da sociedade, que caracteriza Virginia Woolf como uma autêntica feminista, aparece não somente nos seus ensaios como também em seus romances. Basta lembrar que em um livro seu se lê que «Chloe gostava de Olimpia» e isto em uma época em que ainda era um tabu pensar que as mulheres pudessem amar outras mulheres e não apenas serem rivais entre si pelo amor de um homem. E em polêmica com o preconceito corrente, que há como fundamento o fato de  nunca ter existido entre as mulheres um Mozart ou um Leonardo, a Woolf enfatiza que as mulheres prefiram escrever ao invés de pintar ou compor música porque o papel custa menos do que as tintas e do que as orquestras.

Questa visione del mondo e della società, che caratterizza Virginia Woolf come una vera femminista, appare non solo nei suoi saggi, ma anche nei suoi romanzi. Basta ricordare che in un suo libro si legge che «Olimpia piaceva a Chloe» e questo in un’epoca in cui era ancora un tabù pensare che le donne potessero amare le altre donne e non essere soltanto rivali per amore di un uomo. E in polemica col pregiudizio corrente, che si fonda sul fatto che non c’è mai stata tra le donne un Mozart o un Leonardo, la Woolf sottolineava che le donne preferiscono scrivere piuttosto che dipingere o comporre musica perché la carta costa meno dei colori e delle orchestre.

Nos seus romances ela descreve a vida de cada dia que via cheia de alegrias e de terrores. Os seus personagens são mulheres comuns: a moça que escreve envelopes para o movimento das  sufragistas, a estudante brilhante, a moça que não deseja nada além do matrimônio e do tênis, as poetas, as velhas  senhoras: certamente um mundo burguês, mas era o único que ela conhecia.

Nei suoi romanzi ella descrive la vita di ogni giorno che trovava così ricca di gioie e di terrori. I suoi personaggi sono donne comuni: la ragazza che scrive buste per il movimento delle suffragette, la studentessa brillante, la ragazza che non desidera altro che il matrimonio e il tennis, le poetesse, le vecchie signore: certo un mondo borghese, ma era l’unico mondo che conosceva.

Além disso Woolf foi uma das primeiras escritoras a perceber a ligação entre a criança e o homem: os amores silenciados, as rivalidades, as hostilidades entre os pais e as crianças. Não tinha filhos, mas tinha sido uma criança atenta e se recordava da sua infância e da sua relação com os seus pais.

La Woolf è stata inoltre una delle prime scrittrici a cogliere il legame tra il bambino e l’uomo: gli amori taciuti, le rivalità, le ostilità tra genitore e bambino. Non aveva figli, ma era stata una bambina attenta e si ricordava della sua infanzia e dei suoi rapporti con i genitori.

A crítica e feminista Margaret Drabble diz ao seu respeito: Não se pode  procurar no seu trabalho uma mulher moderna que conduza o gênero de vida que nós conduzimos. O que podemos achar é uma profecia de nós mesmas e ela foi a nossa profetisa. Em seus dias não existiam mulheres profissionais que se desdobravam entre a casa e o trabalho com a ajuda de comidas congeladas e máquinas de lavar roupas, não existiam mulheres de negócios; não existiam escritoras com muitos filhos que corriam da máquina de escrever à escola, ao açougue… Não existiam muitas mulheres comprometidas politicamente. Mas estavam para nascer, e ela preparou o caminho e contribuiu a formá-las. Mesmo tendo traçado nos seus romances o retrato de uma sociedade moribunda, e com a qual não queria misturar-se porque não a aprovava e sentia que estava para acabar, Virginia Woolf amava as pessoas e a sociedade. «Se pudesse nos ver agora, enquanto combatemos, entre mil dificuldades, pelas nossas novas liberdades, estaria certamente do nosso lado para nos ajudar e nos encorajar. E apesar de ainda não termos conseguido construir o tipo de sociedade que ela desejava, e que o seu momento histórico lhe negou, já podemos perceber o quanto ela contribuiu para a sua criação. Podemos sentir o quanto ela contribuiu para nos tornarmos quem nos tornamos, sentir o quanto lhe devemos se conseguirmos continuar sendo quem somos».

Dice di lei la critica e femminista Margaret Drabble: non bisogna cercare nel suo lavoro una donna moderna che conduca il genere di vita che noi conduciamo. Ciò che possiamo trovare è una profezia di noi stesse e lei è stata la nostra profetessa. Ai suoi giorni non c’erano donne professioniste che si bilanciavano tra casa e lavoro con l’aiuto di cibi sur-, gelati e macchine lavatrici, non c’erano donne d’affari; non c’erano scrittrici con molti figli che correvano dalla macchina da scrivere alla scuola, al macellaio… non c’erano molte donne impegnate politicamente. Ma stavano per nascere, e lei ha preparato la strada e ha contribuito a crearle. Pur avendo tracciato nei suoi romanzi il ritratto di una società moribonda, e in cui non voleva mischiarsi perché non la approvava ed avvertiva che stava per. finire, Virginia Woolf amava la gente e la società. «Se potesse vederci ora, mentre combattiamo, tra mille difficoltà, per le nostre nuove libertà sarebbe certo al nostro fianco ad aiutarci e incoraggiarci. Ed anche se non siamo ancora riuscite a costruire il tipo di società che ella desiderava, e che il suo momento storico le negò, possiamo già avvertire quanto ella abbia contribuito a crearlo; possiamo avvertire quanto abbia contribuito a farci quelle che siamo, quanto le dovremo ancora se riusciremo a restarlo».


Ensaio de Daniela Colombo para a effe em julho de 1974. A effe, revista feminista italiana (1973-1982) foi um dos principais veículos feministas da Europa e do mundo nos anos setenta. Virginia Woolf, un suicidio di libertàfoi traduzido por Alessandra Arraes e faz parte dos estudos do eixo de feminismos plurais da Revista Philos. A ilustração que acompanha o ensaio é de Ingrid Maillard, colaboradora da Philos na França.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.