Pode ser bem polêmico o que eu vou falar mas, a gente vive para se arriscar não é mesmo? Eu digo isso porque trabalho com música há muitos anos e, às vezes, encaro com certa dificuldade curtir um som só por lazer sem fazer a análise técnica de cada detalhe. Olha, esse problema também acontece nos shows que eu vou. É muito difícil ir para alguma festa, show, festival ou qualquer produção que eu pise no lugar e não procure a saída de emergência. Mas pera, a saída de emergência é só o primeiro ponto para uma infinidade de “checklists” imaginários que já vem no automático: luz, som, segurança, se tem banheiro para todo mundo, se a troca de palco é rápida…

IIhh, ah lá! Microfonia duas vezes não dá, gente!-, E é assim que se resume as minhas saídas (quando a gente podia sair). 

Agora a nóia mesmo são nas lives, mas esse assunto pode ficar para a próxima.

Eu comecei falando disso, porque tem pouco tempo que venho numa construção de trabalho com a Zé Bigode Orquestra, que é a banda que me fez vir aqui hoje escrever sobre ela. E lembra aquela certa dificuldade de ouvir a música sem analisar e tal? Pois é. Eu não sei a fórmula para que isso não aconteça: não sei se é a relação de confiança que estabeleço com o artista, ou se existem alguns sons realmente mágicos que nos transportam para outras dimensões. A questão é que a Zé Bigode me leva para algum outro lugar que ainda não tem nome e eu, sinceramente, não sei aonde fica. Só sei que eu me desligo to-tal! 

A polifonia da banda já se estabelece de forma única e entra como cura em dias tão difíceis que estamos vivendo. E eu já aviso de antemão: é impossível ficar parado!

A Zé Bigode Orquestra começou a sua história em junho de 2016 por iniciativa de José Roberto Rocha, que é o guitarrista da banda, com o objetivo de democratizar o acesso à música instrumental para os mais variados públicos através da linguagem do Jazz passando pelo Reggae e o Afrobeat.

Junto ao José Roberto, chegou o Daniel Bento (baixo), Eric Brandão (bateria), Thiago Garcia (trompete), Victor Lemos (saxofone tenor), Pedro Petrutes (teclado) e Victor Hugo (percussão).

Em 2016, eles lançaram o primeiro EP da banda, intitulada “Zé Bigode”. Logo em seguida, em 2017, eles lançaram o primeiro álbum completo, chamado “Fluxo”. O disco ampliou a sonoridade da banda e entrou para a lista de 50 melhores lançamentos do ano divulgada pela conceituada Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Já em 2018, a banda trouxe o single “Impulso” e, dessa forma, passou por diversas casas importantes. No ano seguinte, a Zé Bigode Orquestra lançou o remix “Amalá Adubado”, assinado por Buguinha Dub e trouxe novas sensações para a faixa de destaque no álbum “Fluxo”.

E agora, no início da quarentena, eles lançaram “Tikulafe”, que é o abre-alas de uma série de lançamentos que vem por aí.

Nesta sexta-feira, dia 17 de julho, a Zé Bigode Orquestra lança o EP “Viva Dub”, em parceria com Buguinha Dub, Luciane Dom e Luana Karoo. O EP é uma homenagem ao único dono possível de nossas vidas, o eterno Bob Marley! Nesse lançamento, a banda faz a mistura no ponto certo do Brasil com a Jamaica e, pelo o que eu ouvi deles, tudo começou quando o Zé Roberto (guitarra) ouviu pela milionésima vez o clássico “Exodus”, disco de 1977, do Bob. Dessa forma, antes de virar um EP, eles decidiram fazer um show em forma de tributo com as músicas do disco e, para isso, chamaram a Luciane Dom: “Como somos uma banda basicamente instrumental, sentimos a necessidade de chamar alguém para cantar e foi aí que convidamos a Luciane Dom, que já tínhamos dividido o palco em São Paulo na Noite Rio da SIM e, no mês de fevereiro de 2019, estreamos esse show no Blue Note do Rio de Janeiro tocando o álbum na íntegra. Como deu super certo, decidimos também expandir o projeto e optamos por adicionar faixas de outros discos. Acabamos fazendo novos arranjos de algumas músicas com uma pegada mais Zé Bigode, inclusive trouxemos coisas autorais, usando as faixas originais do Bob Marley como espelho, mas adicionando elementos novos”, completa José Roberto.

Além da Luciane, outros dois convidados maravilhosos participam do novo EP da banda: Luana Karoo e Buguinha Dub. “Nesse momento de pandemia, sem perspectiva de show ou qualquer coisa do tipo, ficamos pensando no que fazer, até que vi que o Buguinha Dub ia lançar em conjunto com o Baiana System o remix adubado do disco mais recente do Baiana, “O Futuro Não demora”, e isso me deu a ideia de remixar as quatro faixas que já tínhamos gravado. Já tivemos a oportunidade de trabalhar com o Buguinha em dois momentos anteriores: uma vez ele fez um Dub para uma faixa do nosso primeiro disco chamada “Amalá”. E a vez mais recente, foi uma masterização do nosso último single Tikulafe”. Apesar de não conhecer o Buguinha pessoalmente, sempre nos demos muito bem pelas redes sociais e acabei explicando para ele a ideia que tive. Ele curtiu de cara e começamos o processo: mandei a sessão e daí surgiu o “Viva Dub”, que é uma forma de homenagem tanto ao Bob Marley, quanto ao Estilo Dub. O nome “Viva” vem como celebração e também uma brincadeira com o nome “vivo”, já que as releituras foram gravadas 100% ao vivo no estúdio.”.

No segundo semestre de 2019, a banda já tinha algumas músicas rearranjadas e surgiu a oportunidade de gravar no lendário Estúdio Toca do Bandido. Dessa forma, escolheram quatro faixas e gravaram o áudio e o vídeo que saíram no nosso canal do Youtube no fim do ano passado. As faixas escolhidas foram “Rat Race“, “Exodus“, “Rebel Music” e “Natural Mystic“.

Para quem não sabe, o estilo Dub é um gênero musical jamaicano dos anos 60 /70, que foi criado por DJ´s jamaicanos e tem uma predominância por remixes instrumentais de gravações existentes, que nascem através da manipulação e remodelação das gravações, geralmente removendo os vocais de uma peça de música existente, e enfatizando os tambores e as partes graves.

José Roberto lembra que quando o Buguinha Dub entregou as músicas já “Adubadas” (é dessa forma que o Buguinha chama os remixes), eles decidiram rebatizar as quatro faixas do Bob Marley que já estavam super diferentes (inclusive com temas novos). 

Rat Race” virou “Rasta Don’t Work For No C.I.A“, “Exodus” se transformou em “Dub of Jah People“, “Rebel Music” virou “Hey Mr.Cop!” e “Natural Mystic” é “Mystical Dub”.

Te convido a viajar comigo para esse outro lugar ainda sem nome que a banda Zé Bigode Orquestra me leva. Clica aqui no link do spotify para ouvir o lançamento maravilhoso dessa sexta-feira, “Viva Dub!”:

 

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.