LEONA VINGATIVA, UM DOS NOMES MAIS IMPORTANTES DA INTERNET BRASILEIRA REFLETE SOBRE SUSTENTABILIDADE, DIVERSIDADE E SUA VANGUARDA NA CULTURA DIGITAL DO PAÍS.

No mês em que comemoramos a diversidade e o orgulho de sermos lgbtq+, nossos direitos estão cada vez mais ameaçados apesar das conquistas civis. Do que você se orgulha?

É verdade, eu passei por muitos preconceitos, vários, em relação à raça, porque eu já sou uma negra, gay e da periferia. Então você já deve imaginar como foi difícil. Mas eu sou do meio das manas! Eu sou delas! Então no meio da gente não existe tristeza, entendeu? A gente é o remédio, a gente traz alegria para as pessoas. Quem tem a gente como amiga, quem tem a gente como colega, como parceira… Sabe que o nosso mundo é um mundo que a gente pena, mas é divertido. A gente sofre preconceito, mas o nosso meio é divertido.

A felicidade como um escudo?

Isso, eu também sempre fui uma guerreira. Eu aprendi a conhecer o que é bom e o que é ruim cedo. Eu comecei a ser quenga com 14, 13 anos. Porque eu não tive oportunidades, então eu fui parar na rua como muitas pararam. Muitas estão até hoje na rua, sobrevivendo de prostituição. Mas eu quero dizer uma coisa pra você: têm muitas que não querem estar ali, elas estão ali porque não têm oportunidade. Elas estão ali porque elas não têm oportunidade!

Isso é uma realidade muito triste do mundo trans, não é?

Isso. As bichas falam que “eu sou uma cobra criada’’. Eu sou uma pessoa que já sou vivida. Sou da rua mesmo, raiz.

Que emocionante Leona, ouvir isso. É muito bom a gente poder compartilhar isso com o público e saber da sua trajetória e como as coisas aconteceram e levaram você a chegar onde está hoje. Bem, elevando um pouco o ânimo da conversa, recebemos o seu ensaio, fotografado por Jonas Amador em Belém do Pará. Uma das fotos para o ensaio da Philos foi também publicada pela revista Vogue. É um photoshoot que representa você como entidade da natureza, uma Vênus transamazônica. Fala um pouco da sua relação com a floresta e a cultura ancestral da região Norte.

Olha gente, quem me conhece, para quem já falou com Leona, para quem já trocou palavras comigo… Enfim, quem me conhece sabe que eu sou paraense raiz, que eu sou jurunense raiz. Eu amo a natureza. Sempre quando eu posso, desfruto das belezas do Pará. Aqui perto a gente tem a Ilha do Combú, a Ilha das Onças… Belém, a nossa cidade, ela é linda. Mas só que infelizmente tem muita gente que não valoriza, tem muita gente que não… Que enfim, maltrata, joga lixo onde não deve jogar… Eu amo o meu lugar, eu amo. Onde eu chego, falo muito bem de Belém, do Pará. Se eu passo muito tempo fora, eu fico inquieta, eu não consigo. Eu tenho que vir em Belém. Tudo que é meu está aqui. Então é difícil eu ficar muito tempo longe… Eu sempre viajo, mas não consigo ficar muito tempo fora da minha cidade. Tudo que é meu está aqui. Enfim, tudo, tudo. Leona é a cara do Pará, eu amo o Pará, eu amo minha cidade, eu sou raiz, quem me conhece sabe. Eu amo tudo do Pará. Para mim, eu tenho uma relação muito forte com a natureza, eu amo a natureza.

Leona Vingativa para a Revista Philos por Jonas Amador

E como foi a experiência de chegar no teatro e na televisão com o seu trabalho? Porque você tem vários espetáculos aí no Pará, em Belém você já fez várias peças. Como foi essa experiência?

Foi boa! Todos os dias eu aprendi alguma coisa nova. Mas aprendi que a gente já é uma atriz, eu já nasci uma atriz! Para mim foi uma oportunidade maravilhosa na minha vida mostrar mais o meu trabalho para as pessoas, de poder  levá-lo a sério, porque tudo começou com uma brincadeira, víamos tudo como uma brincadeira em que nos divertíamos.

Essas pessoas precisam “dar graças a Deus’’ aos que começaram isso tudo, ou seja, eu, entendeu? Eu sou a pioneira!

No momento em que começamos a apresentar o espetáculo, nosso primeiro trabalho de mostrar de verdade nosso show, foi aí que as pessoas puderam ver e dizer: «Ela realmente é dos palcos». Foi muito bom, várias portas se abriram através do teatro, graças a Deus. Aprendi várias coisas, tive experiências maravilhosas durante os espetáculos. Tudo o que aconteceu não tem preço. Está sendo um sonho realizado, nem eu acredito às vezes… Me olho no espelho e digo: —Caraca! Olha onde eu cheguei! Olho os meus vídeos: vou na internet e coloco Leona Assassina Vingativa ou então só Leona, porque já aparece. E eu vejo aquela criancinha gritando, jogando um CD no chão (risos)… «é esse, é esse!» ou então até mesmo aquele vídeo falando o meu nome completo, jogando no chão um celular à prova d’água… E hoje eu vejo a mulher linda que eu me tornei. Eu sou grata a tudo, sou muito feliz e agradeço muito a Deus pela maneira que ele me fez e pela maneira que tudo está acontecendo na minha vida. Tiveram momentos na nossa vida sofridos, de vários nãos, mas olha aí:  “os humilhados serão exaltados’’. Eu já esperava tudo isso que ia acontecer, porque eu sei o quanto que a gente vinha lutando, Deus e eu sabemos. Os nãos, os preconceitos… Eu sei que nada disso que está acontecendo é por acaso, é merecido. Hoje em dia tem muitos blogueiros, influencers digitais, pessoas que ganham dinheiro na da internet, por meio dos vídeos que postam na internet. —Essas pessoas precisam dar graças a Deus’’ aos que começaram isso tudo, ou seja, eu, entendeu? Eu sou a pioneira! (risos). Queiram ou não queiram, é a verdade! A gente que deu a cara a tapa, fomos nós os primeiros a sermos criticados pelos vídeos postados na internet. Mas vejo que as pessoas respeitam muito a gente, principalmente as pessoas que trabalham no meio da internet, que ganham dinheiro com a internet, muitas delas acompanham a gente, os internautas em geral… Para mim é muito gratificante, tudo é merecido. A gente vai fazendo nosso trabalho, espalhando alegria para o povo, que é o nosso dom. O elenco é formado de pessoas maravilhosas: a Aleijada Hipócrita que me acompanha desde o início, a Empregada Nordestina, a Delegada Daphnny, a Escrivã Nana… quem conhece sabe, a gente vem de muito tempo.

E como se deu o processo de parceria com a Aleijada Hipócrita?

Vamos sentar e fazer uma coisa engraçada

Na verdade a gente já faz isso de muito tempo, antes mesmo de fazer os vídeos, a gente já tem o costume de estar rimando, compondo com outros nomes as letras. É algo natural, estamos brincando entre amigos. E numa dessas ideias eu ganhei da Gabi Amarantos a música “Eu quero um boy”. Ai eu planejei o clipe junto com Aleijada Hipócrita e essa foi a nossa primeira música, que foi lançada durante a Copa do Mundo de 2014. Nesse momento a gente percebeu que a coisa tava ficando séria e pensamos: —Vamos sentar e fazer uma coisa engraçada. E daí surgiu o “Frescah no Círio” [versão do Daft Punk com Pharrell William], a música “Um conto de Natal (Só é Natal se eu comer peru)” [uma versão da Mariah Carey], entre outros. Hoje em dia estamos um pouco separadas, em projetos diferentes, já não fazemos muitos vídeos juntas, mas continuamos sendo amigas.

Suas músicas sempre trazem um conteúdo de crítica, seja falando sobre a questão do lixo, ou os direitos trans… Você também canta sobre cultura da região Norte, como em Frescah no Círio, uma versão do clássico Get Lucky, de Pharrell Williams e Daft Punk… Você também se sente uma porta-voz desses movimentos? Por que levantar essas bandeiras? e quais a suas referências musicais?

Ai, com certeza, né? Eu sou paraense raiz! Então eu me sinto assim uma madrinha, eu amo muito tudo isso! Eu amo Beyoncé, Rihanna, Christina Aguilera, Madonna, Britney essas são as internacionais. As nacionais eu amo a Gaby Amarantos, amo a Anitta, Ivete Sangalo acho uma guerreira maravilhosa. Gosto da Fafá de Belém aquela maravilhosa.

Como você enxerga o seu impacto na produção de outros grandes artistas brasileiros? Sua versão de Eu quero um boy, de Gaby Amarantos foi um grande sucesso.

Sim, e essas pessoas também são uma referência para mim. Eu comecei por meio da Gaby. Quem me deu esse impulso mesmo foi ela. Isso de ser muito guerreira, eu sei que ela é! Ela é muito pra cima, mas quem conhece sabe que ela passou por várias situações difíceis. Então eu tenho a Gaby como uma grande referência pra mim. Me  vejo em muitas coisas que ela faz, já estive em clipes, enfim.

Falando da Gaby, ela é sua conterrânea do bairro dos Jurunas, uma comunidade famosa por ser mãe de grandes artistas do carimbó e da música paraense.

Olhe o Jurunas é um bairro maravilhosa, é minha casa, é o meu lugar! Amo tudo! Lá eu me sinto em casa, tento sair do Jurunas, mas eu não consigo. Eu tenho vários negócios no Jurunas. Lá as pessoas gostam do meu trabalho, as pessoas me ajudam muito no Jurunas. A maioria dos meus vídeos são no Jurunas. Aquelas pessoa que passam e veem ali o meu trabalho. Eu amo. Inclusive temos um vídeo novo, “Bem feito, você não tem respeito” gravado nos Jurunas e falando sobre o lixo de novo. Todos são no Jurunas.

E sendo essa paraense, o que você mostraria para quem ainda não conhece o Pará?

Olha, para começar, eu amo açaí. Açaí é um prato que eu como todo dia! Café da manhã, almoço e janta. E se der, na merenda. Até na merenda eu como! Mas eu amo também o tacacá, que é maravilhoso. Tem o [pato no]  tucupi, tem o jambu que é maravilhoso, que muitos falam que treme a boca, dá uma britadinha assim na boca. Eu amo a minha maniçoba que é maravilhosa, maniçoba da que a gente faz, do Pará (para ressaltar o caráter tradicional do cozimento da maniçoba). —Ixe menino! São vários pratos. O nosso arroz paraense é maravilhoso, eu amo. Eu amo tudo!

O cenário político e econômico também é um tema nos seus trabalhos, né. Em um dos seus vídeos mais recentes você fez o “Sem direito a nada”, que é uma crítica à reforma da previdência do governo bolsonaro. Como essas mudanças te afetam? Como é a sua lógica política em relação a isso, de chegar, fazer essas críticas…

Eu fiz esse vídeo para os nossos idosos. Eu vi que realmente eles [a classe política brasileira] não estavam tendo conosco o respeito que a gente merece. Eu ouvi muita gente falando que isso [a reforma da previdência social] era uma falta de respeito com nossos idosos, enfim. E eu também vejo muita falta de respeito com os idosos, abandonos… As pessoas estão realmente abandonando seus pais, seus avós… aí eu fiz o vídeo.

Sua produção se destaca em muitas vertentes. E ficamos muitos felizes ao saber que você, Leona, é uma das artistas destacadas pelo programa IMS convida, do Instituto Moreira Salles. Como vai ser seu processo de criação nessa residência artística?

Pra mim é muito gratificante, né? Eu fico muito feliz com isso! Também não podia ser deixada de fora, né? Seria muita sacanagem! (Risos) Pra mim foi muito bom, foi uma notícia maravilhosa, eu amei quando soube, e é isso, não posso falar muito, eu só tenho agradecer a cada um que gosta do meu trabalho, que me tem como referência, que me dão muita força no trabalho. A cada um dos meus fãs, a cada pessoa que gosta do meu trabalho…

Então, pra finalizar nossa entrevista eu queria te perguntar como a Leona de hoje enxerga a Leona do futuro?

Olha, hoje em dia eu quero só seguir, né? Eu parei muito minha vida. Na verdade, eu sempre trabalhei né, sempre tive meus bicos, mas eu nunca soube trabalhar real, administrar tudo isso. Hoje em dia, graças a Deus, eu tenho uma nova visão, hoje em dia eu sei administrar as coisas, eu tenho meus advogados, eu tenho meus produtores e antes não, era só eu, eu e Deus. Pra mim, hoje em dia Leona é só usufruir de tudo que já era pra ter usufruído, só conquista, só vitória. Quero mostrar meu trabalho mais e mais, ter mais e mais espetáculos pra mostrar pro meu público que gosta do meu trabalho, mais e mais vídeos, mais e mais shows, então é isso. Pra mim, Leona é só, em relação a trabalho…


MODELO LEONA VINGATIVA FOTOGRAFIA JONAS AMADOR ARTE @OIMECHAMORAFA STYLING @VNECIUS BEAUTY @NETONAVARRO @_EXOTICFLOWER FILM @JPFARIAX @J.ALMEIDA.PH EDITORIAL @REVISTAPHILOS @CASAPHILOS PRODUCER RENAN CARMO ENTREVISTA LUCAS FONSECA

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.