Tenho pensado muito sobre o corpo. Sobre as falas do corpo, sobre as epistemologias do corpo, sobre as violências do e no corpo, sobre as ausências. Já penso nisso há pelo menos sete anos. A dificuldade de habitar e ser habitante na pele que é casa, uma dádiva da natureza que requer pertencimento, um outro tipo de empatia, já que não é exterior, e nos deflagra com os nossos próprios medos.

Meu corpo tem me ensinado tanto e ao mesmo tempo eu tenho aprendido tanto com o corpo dos outros que fica difícil não tecer uma rede poética, estética, literária e crítica. Até porque é desse jeito que eu costumo funcionar: tudo ao mesmo tempo agora. É um desejo de pós-doutorado, é a ousadia de um novo livro, é uma vontade de estar viva e me dizer cada vez mais como latino-americana, desta terra que me inscreve. É também uma vontade de ganhar mundo, mas isso a pandemia não deixa.

E daí eu tenho traçado um plano infalível, dando espaço para a poesia, burilado a palavra, construído aos poucos uma palavra que seja modo de existir e dizer. Então comecei a trabalhar em um projeto que é um novelo, novo, velho, que me relê inteira. Amasso mais papel do que posso contar o choro de cada poema não terminado.

Nada de novo sob o sol, é verdade, mas resolvi fazer esse percurso de leituras e escritas em diálogo, em que, de certa forma afeto, mas evidentemente que sou afetada por outras mulheres escritoras que habitam esse sul do corpo latino e suas obras, esses espaços compartilhados e tantas vezes silenciados. Levarei anos para concluir, imagina, você, esse ciclo que se abre agora! Acontece que, na verdade, entendi que não tenho pressa.

No percurso, o primeiro passo foi compreender, como professora, como as pessoas lidam com a nudez, como inscrevem ela em seus próprios textos. Por isso, pedi que meus alunos de escrita ficassem pelados, cada um em sua casa, e escrevessem a partir daí. Meu espanto foi perceber que quase ninguém conseguiu: é difícil ficar nu diante do espelho, têm partes do corpo que a gente não conhece, outras não queremos ver, tem também uma questão muito forte do desamparo, tem o medo de ser pego no flagra por si mesmo, além da constatação de que a contemplação pode ser um processo doloroso que revela camadas muito mais profundas do que a pele. Retrocedi, mas resolvi escrever a partir da minha experiência própria. Um exercício de afeto, um acolhimento desse meu corpo que pedia o encontro, ansiava ser tocado de alguma forma.

Coloquei no caldeirão da minha insegurança todas as marcas que carrego na mala pesada da autoestima e quase todos os mitos de beleza que não quis cumprir na vida. Era noite, eu saí do banho e não tive dúvidas: tirei uma foto. Eu precisava realmente celebrar esse momento. Antes da quarentena, mostrava meu nude por aí. Contava a história ansiosa e dizia: quer ver? Estava tudo ali: as tatuagens, os desejos, as raivas, as dobras, os três redemoinhos no topo da cabeça (heranças de todas as vezes que abri e sangrei de cima pra baixo), os machucados no joelho, as quedas amparadas, as quedas nunca acolhidas. Tudo começou ali, inclusive esse desejo de me apoderar dessa inscrição que pode ser minha, mas me conecta como parte.

Precisei trocar de pele como uma serpente para não morrer, fazer bruxaria para me sentir viva, lapidar a palavra bruta para me reinventar e agora acesso esse corpo compartilhado, feito um ritual colocado à mesa por essa deusa tresloucada e maravilhosa que nunca me abandona. E essa deusa é muito mais latina, muito mais insubmissa, muito mais acolhedora, muito mais furiosa do que eu poderia prever. Entendi que, como não estou regulando paixão nessa pandemia, também não deveria regular poesia:

ao sul do corpo

a mulher que me olha
através do espelho
tem cicatrizes encrustadas
na pele como a madeira
talhada e a tinta que penetra
seus sulcos

os vincos das costas
as dobras na cintura
as pernas insubmissas
os seios grandes demais
as trompas quase secas
a boca que procura o grito
e renuncia o silêncio

a mulher que olha
atravessada
pela tela do celular
e pela água de banho
que esfumaça a visão
não se contenta
nunca está satisfeita
mesmo com os ossos
quebrados pelo caminho
e redemoinhos no topo
da cabeça

a mulher que atravessa
e me atravessa
a mulher atravessada
pelo espelho
demorou a conjurar verbos
de afeto para si
conjugava feridas e desamparo
até entender outra história
de dores compartilhadas
por outras mulheres
por ela atravessada

pele é estado de graça
em ritual na mesa
posta pela deusa
lilith dançando em volta
da fogueira
trançando todas
as nossas teias
como fazem as curandeiras

aqui
ao sul do corpo
tudo é revolução

inverno. quarentena. 2020.


Pilar Bu (Sul do Equador, 1983) é poeta, leoa, sereia e mãe felina de 4 gatos. Autora de Bruxisma (Urutau, 2019) e Ultraviolenta (Kotter, 2017), contribuiu em revistas eletrônicas e antologias. Fundadora do Leia Mulheres Goiânia e mediadora do Leia Mulheres Osasco. Doutoranda em Teoria Literária na Unicamp e Mestra em Estudos Literários pela UFG. É professora, pesquisadora e articula principalmente os temas, mas não se restringindo a eles: literatura contemporânea; representação e autorrepresentação de mulheres na literatura; teoria e crítica literária; estudos de gênero; teorias feministas. Acredita na força do superlativo e na troca de pele da serpente.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.