No especial Feminismos Plurais da Philos, apresentamos cartas trocadas entre Daniela Colombo e Donata Francescato, editoras da Revista effe, um mensário feminista milanês criado em 1973, na Itália. Com curadoria de Jorge Pereira e tradução de Alessandra Arraes, o Dossiê effe, traz uma pesquisa refinada sobre os principais texto publicados por um dos editoriais mais importantes dos anos 70 na Itália e no mundo.

Alla ricerca del tempo

gennaio 1979

Londra
In uno dei sotterranei del Politecnico della City di Londra una incredibile sorpresa: migliaia di libri, riviste femministe inglesi e straniere dalla fine dell’800 ai nostri giorni, fascicoli di ritagli stampa, archivi di lettere, fotografie, stendardi, materiale iconografico vario, manifesti. C’è pure la collezione di due annate di Effe. Si tratta di una biblioteca, femminista naturalmente: la Fawcett Library. Nel 1866 Millicent Garrett Fawcett, suffragetta inglese, aveva fondato la London Society for Women’s Suffrage (LSWS), che è stata per più di cinquant’anni al centro delle lotte femministe in Inghilterra tra la fine dell’800 e l’inizio del nostro secolo, occupandosi non soltanto del diritto di voto ma anche della legislazione a tutela delle donne e in particolare del lavoro in fabbrica e nelle professioni. Come risultato di questa attività, la LSWS aveva raccolto una enorme quantità di documenti e materiale vario. Nel 1926 venne assunta una bibliotecaria, Vera Douie, che per 41 anni ha raccolto ogni cosa connessa con il movimento delle donne o riguardante la vita delle donne, anche quello che allora avrebbe potuto sembrare inutile ma che oggi risulta essere una fonte preziosa di informazioni sulle donne in Gran Bretagna e nei Paesi del Commonwealth. La biblioteca ha cambiato varie volte di sede, sempre con enormi problemi finanziari. La sua sopravvivenza è stata dovuta solo all’energia e al coraggio della bibliotecaria. Nel 1967 Vera Douie è andata in pensione, sostituita da Mildred Surry; ma questa, nel 1975, ha dovuto dimettersi perché non c’erano più fondi per darle un benché misero salario. Nel marzo del 1977, la biblioteca ha trovato finalmente una sede, in un sotterraneo del Politecnico di Londra. È stato formato un gruppo di nove persone per lavorare al catalogo, coadiuvato da un notevole numero di volontari, tra cui la stessa ex bibliotecaria. Il contratto di questo gruppo è però scaduto nel marzo del 1978 e il Politecnico può oggi impiegare solo due persone. Come sempre dunque il problema delle attività femministe è quello della disponibilità di un minimo di risorse finanziarie, e di dover sempre fondarsi sul volontariato. Il caso della Fawcett Library non è un caso come tanti: qui sono raccolti documenti rarissimi sul movimento delle donne, con ricchezza e completezza uniche, il tutto dovuto all’ostinazione di alcune donne, guidate da Vera Douie, che per anni hanno raccolto materiale basandosi sul motto: today’s junk may be tomorrow ‘s vital research material, i rifiuti, le carte che possono sembrare inutili oggi, possono costituire prezioso materiale di ricerca domani.
Ed ora veniamo a noi. La biblioteca e il centro di documentazione di Effe stanno crescendo. Abbiamo già raccolto 1600 volumi, per lo più riguardanti la produzione italiana e le opere tradotte in italiano, ma abbiamo anche le collezioni complete dei libri delle «Editions des Femmes» francese e della «Virago Press» inglese. Questi sono libri che difficilmente verranno tradotti in italiano. Sono disponibili le collezioni di una trentina di riviste femministe straniere e altre ne stiamo aspettando per i primi dell’anno. Il catalogo per autori viene regolarmente aggiornato. Quello per soggetti va avanti un po’ più a rilento perché le nostre forze (sempre basate sul volontariato) sono esigue. Per quanto riguarda il centro di documentazione, sono pronti finora un centinaio di dossiers. La fotocopiatrice purtroppo rimane nel libro dei sogni. Abbiamo invece acquistato due classificatori a cartelle sospese e stiamo organizzando i fascicoli pari passo con il catalogo per soggetti. Alcune di noi hanno fatto il giro dei venditori di libri usati, cercando vecchi libri in edizioni economiche, ormai fuori commercio, libri di poesie, romanzi, anche di donne sconosciute.
Le socie della biblioteca sono già cento. Le loro tessere di iscrizione ci hanno permesso di acquistare nuovi libri (per Natale ne abbiamo aggiunti una trentina), ma sono ancora insufficienti per poter fare un buon lavoro. Vorremmo quindi chiedervi di mandarci libri e documenti che non utilizzate più, bibliografie delle vostre tesi, volantini, manifesti, fotografie, vecchi libri delle vostre mamme e nonne, che magari giacciono in cantina. Per ora lo spazio è sufficiente. Abbiamo solo bisogno dell’aiuto di voi tutte. Noi abbiamo fatto nostro il motto della bibliotecaria della Fawcett Library.

Fawcett Library
City of London Polytechnic
Old Castle Street,
London, El 7NT

Londres
Em um dos porões do Politécnico da Cidade de Londres uma surpresa incrível: milhares de livros, revistas feministas inglesas e estrangeiras do fim dos anos 800 até os dias atuais,  recortes de imprensa, arquivos de cartas, fotografias, faixas, variedade de  material iconográfico e manifestos. Há também a coleção de dois anos da Effe. Trata-se de uma biblioteca, feminista, naturalmente: a Fawcett Library. Em 1866, Millicent Garrett Fawcett, sufragista inglesa, fundou a London Society for Women’s Suffrage (LSWS), que esteve por mais de cinquenta anos no centro das lutas feministas na Inglaterra entre o fim dos 800 e o início do nosso século (o 900, visto que essa carta é de 1979), ocupando-se não somente de direito de voto, mas também, da legislação que tutela as mulheres e especialmente tutela o  trabalho nas fábricas e nas demais profissões. Como resultado desta atividade, a LSWS havia recolhido uma enorme quantidade de documentos e vários materiais. Em 1926, foi contratada uma bibliotecária, Vera Douie, que por 41 anos colecionou tudo o que estivesse relacionado ao movimento das mulheres ou que houvesse conexão com a vida delas,  até mesmo o que então poderia parecer inútil, e hoje acaba por ser uma fonte preciosa de informação sobre as mulheres na Grã Bretanha e nos Países da Commonwealth. A biblioteca mudou de sede (local) por várias vezes, sempre com enormes problemas financeiros. A sua sobrevivência foi devido apenas à energia  à coragem da bibliotecária. Em 1967, Vera Douie se aposentou e foi substituída por Mildred Surry. Mas, a segunda, em 1975 teve que se demitir porque não havia mais fundos para pagar-lhe nem mesmo um mísero salário. Em março de 1977, a biblioteca encontrou finalmente uma sede, em um subterrâneo do Politécnico de Londres. Foi formada uma equipe para trabalhar no catálogo do acervo, constituída por 9 pessoas e coadjuvada por um notável número de voluntários, entre os quais a ex-bibliotecária. Todavia, o contrato de trabalho dos componentes da equipe venceu em março de 1978 e o Politécnico, hoje, pode contratar somente duas pessoas. Portanto, como sempre, o problema das atividades feministas é o da disponibilidade mínima  de  recursos financeiros, e de ter sempre que depender do voluntariado. O caso da Fawcett Library não é um caso como tantos: aqui estão coletados  documentos raríssimos  com riqueza e completeza únicas, tudo devido à obstinação de algumas mulheres, guiadas por Vera Douie, que durante anos recolheram materiais inspiradas pelo mote (lema): today’s junk may be tomorrow’s vital research material, o lixo, os papéis que podem parecer inúteis hoje, podem constituir um precioso material de pesquisa amanhã.
E agora venhamos a nós. A biblioteca e o centro de documentação da Effe estão crescendo. Já recolhemos 1600 volumes, a maioria de produção italiana e as obras traduzidas para o italiano, mas  temos também as coleções completas dos livros das «Editions des Femmes» francês e das «Virago Press» inglês. Esses são livros que dificilmente serão traduzidos para o italiano. Estão disponíveis as coleções de cerca de trinta revistas femininas estrangeiras e outras que estamos esperando para os primeiros meses do próximo ano. O catálogo por autores é atualizado regularmente, enquanto o por assuntos segue lentamente porque as nossas forças (sempre baseadas em voluntariado) são exíguas. Quanto ao centro de documentação, estão prontos até agora cem dossiês. A fotocopiadora, infelizmente, permanece no livro dos sonhos. Em vez disso, compramos dois armários suspensos para as pastas e estamos organizando os fascículos no mesmo ritmo do catálogo por assuntos. Alguns de nós visitaram os vendedores de livros usados, buscando velhos livros em edições econômicas ou enfim fora de circulação, livros de poesia, romances, até de mulheres desconhecidas.
As sócias da biblioteca já são cem. As fichas de inscrição delas  nos permitiram comprar novos livros (para o Natal acrescentaremos cerca de 30), mas ainda são insuficientes para poder fazer um bom trabalho. Gostaríamos, portanto, de pedir-lhes que vocês nos enviem livros e documentos que vocês não utilizam mais, bibliografias das suas teses, folhetos, panfletos, manifestos, fotografias, livros antigos  das suas mães e avós, que talvez até estejam no sótão morfando. Por enquanto o espaço é suficiente. Necessitamos apenas da ajuda de todas vocês. Adotamos o mote da bibliotecária da Fawcett Library

Fawcett Library
City of London Polytechnic
Old Castle Street,
London, El 7NT

Parigi
Prima e dopo Proust, il «tempo perduto» – per gli uomini – è il passato, le occasioni perdute e irrecuperabili, l’infanzia e il gusto irripetibile che ha la vita rivista nella dimensione della memoria. Per le donne «il tempo perduto» non è solo il passato, ma l’oggi, il domani, tutta la vita. Una vita sprecata nell’emarginazione dei lavori domestici, dei gesti quotidiani sempre ripetuti senza progresso e senza costrutto. Cento anni fa Agélie, una donna cui la classe sociale risparmiava il lavoro in campagna, nella filanda o al mercato, guardava questa sua vita senza senso sgranarsi pigramente ed inesorabilmente giorno dopo giorno. Ma il suo rifiuto di passare come un’ombra insignificante su questa terra, la sua ricerca di testimoniare la sua presenza e la sua umanità ci hanno lasciato oggi un documento di rara completezza e chiarezza. L’abitudine femminile ai diari, ai racconti confusi e letterariamente imperfetti della propria esistenza è ben nota. Con i poveri mezzi messi a disposizione da un’educazione sommaria e volta ad insegnare la rassegnazione, migliaia di donne hanno cercato di affidare a una pagina bianca un messaggio che non sapevano se sarebbe mai stato letto da alcuno e che comunque non osavano comunicare direttamente a nessuno nell’ambiente sociale che le emarginava. Nella quasi totalità, le pagine riempite dalle donne nel corso delle loro interminabili giornate, in cui non accadeva pressoché niente, al massimo una passeggiata, una visita, venivano gettate via al momento della morte, insieme agli oggetti senza valore raccolti nel corso di un’esistenza senza scopo. Ma, per caso, a volte qualcosa si salva, viene rinchiusa in una scatola e vi rimane per anni. Così è accaduto per le carte di Agélie, una giovane francese vissuta nella prima metà dell’800, di cui si è potuto così ricostruire l’esistenza, al punto da farne una esposizione al Museo delle Arti Decorative di Parigi: La Traversata del tempo perduto. Scritti, disegni, acquarelli, mobili, qualche gioiello,un insieme di oggetti senza valore commerciale, ma impreziositi dal passare del tempo e del valore emotivo che suscitano. Una mostra commovente e appassionante, allestita dalla regista teatrale femminista Simone Benmoussa, una mostra a cui dovrebbero far seguito altre, per togliere dall’oblio tutte le altre Agélie, non più per piangere sul «tempo perduto» delle donne che una storia ufficiale ha nascosto, ma per poter seguire uno ad uno quei destini segreti, così vicini e al tempo stesso ormai tanto lontani dai nostri. Dopo questa mostra, come non gettare uno sguardo diverso sulla creatività femminile, sul desiderio delle donne di scrivere, dipingere, compone musica.

Parigi, Museo delle Arti Decorative, una mostra sul «tempo perduto» di una donna.

Paris
Antes e depois de Proust, o «tempo perdido» – para os homens – é o passado, as oportunidades perdidas e irrecuperáveis, a infância e o gosto irrepetível que a vida há quando revista na dimensão da memória. Para as mulheres o «tempo perdido» não é somente o passado, mas é o hoje, o amanhã e a vida inteira. Uma vida desperdiçada na marginalização dos trabalhos domésticos, dos gestos cotidianos repetidos continuamente sem progresso e sem construção. Há cem anos Agélie, uma mulher cuja classe social a preservava do trabalho no campo, na fiação e no mercado, olhava essa sua vida sem sentido desintegrar-se perdendo compacidade preguiçosamente e inexoravelmente dia após dia. Mas a sua recusa de passar por essa terra como uma sombra insignificante, a sua busca por testemunhar a sua presença e a sua humanidade nos deixou um documento de rara completude e clareza. O hábito feminino aos diários e às histórias confusas e literariamente imperfeitas da própria existência é bem conhecida e difundida. Com os escassos recursos disponibilizado-lhes por uma educação voltada a ensinar a conformação, milhares de mulheres buscaram confiar a uma página  branca uma mensagem que não sabiam se algum dia teria sido lida por alguém e que de um jeito ou de outro não teriam nunca ousado comunicá-la diretamente a ninguém do meio social que as marginalizavam. Na quase totalidade, as páginas preenchidas pelas mulheres no curso dos  seus dias intermináveis  em que não acontecia quase nada, ao máximo uma caminhada ou uma visita, eram jogadas fora no momento da morte, juntas com objetos sem valor acumulados no decorrer de uma existência sem finalidade. Mas, às vezes algo se salva e é fechado em uma caixa e ali deixado por anos. Assim aconteceu com as cartas de Agèlie, uma jovem francesa que viveu na primeira metade do 800, da qual foi possível reconstruir a existência, a tal ponto de fazer uma exposição no Museu das Artes Decorativas de Paris: A Travessia do tempo perdido. Escritos, desenhos, aquarelas, móveis e algumas jóias. Um conjunto de objetos sem valor comercial, mas preciosos pela passagem do tempo e pela emoção que suscitam. Uma exposição comovente e apaixonante, montada pela diretora teatral feminista Simone Benmoussa, uma amostra que deveria ser seguida por outras, para tirar do esquecimento todas as outras Agélie, não mais para chorar pelo «tempo perdido» das mulheres que a história oficial escondeu, mas para poder seguir um por um esses destinos secretos, tão pertos e ao mesmo tempo tão distantes dos nossos. Como não ver com olhos diversos a criatividade feminina e o desejo das mulheres de escrever, pintar ou compor música?

Paris, Museu de Artes Decorativas, em uma exposição sobre o «tempo perdido» de uma mulher.


Cartas de Daniela Colombo para Donata Francescato, em suas correspondências para a effe em janeiro de 1979. A effe, revista feminista italiana (1973-1982) foi um dos principais veículos feministas da Europa e do mundo nos anos setenta. Alla ricerca del tempo foi traduzido por Alessandra Arraes. A fotografia que acompanha o texto é de Sergio Larrain, registrada em Londres no ano de 1959.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.