Paulo Emílio Azevedo lança no dia 17 de agosto seu 18° livro. Trata-se de “A esperança é um segunda-feira com cãibras“, publicado pela Fundação PAZ; título que como seus feitos traz já de antemão imensa curiosidade. Com lançamento digital marcado para o dia 17 de agosto, a obra de duzentas páginas é um dos eventos que integram a comemoração dos 25 anos de carreira desse professor cidadão do mundo. O livro que dedica aos mais de cinco mil alunos por onde passou, ensinando e aprendendo, é o seu sexto e-book, e, o primeiro exclusivamente de contos.  

Após concluir a redação do texto, o autor foi além e construiu uma dinâmica entre trinta e dois discentes bastante representativos. Na ocasião, cada um deles recebeu um conto para comentar, ilustrar, performar e/ou fazer anotações de forma livre. O que se tem ao final de cada texto são partes dessas considerações que o autor chamou de “Primeiro leitor”. Desse modo, o inaugural se sintoniza com a  ideia de conferir alto grau de reconhecimento à reação dessa leitura inicial e interpretação do aluno sobre a narrativa – a voz do aluno sempre lhe interessou. Por conta disso, o prefácio também recebeu tal tratamento, sendo assinado pelo faminto leitor Victor de Paula. Quanto ao autor, ele acredita no conhecimento como espaço do incompleto, onde esse incompleto é fruto, sobretudo, de interações e não apenas da solidão.

A obra está composta em trinta e um textos distribuídos em: prólogo, seguido de párodo, cinco episódios intitulados (“Texturas do devir”; “Conversas (a)fiadas no pilotis”; “Tons pastéis de durée”; Partículas de ágon” e “As crianças e outros mundos possíveis de eudaimonia”). Em especial neste último, dedicou-se cada conto à memória de Manoel de Barros – aquele que nunca se distanciou da infância. Entre os episódios, intercalam-se estásimos e, por fim, o epílogo como êxodo. Apesar do arquétipo do livro configurar formato aristotélico de tragédia grega, a influência das fábulas adota além da presença do ágon também uma aproximação com o durée em Bergson, o devir em Deleuze, a crueldade em Artaud e a busca por uma linguagem que lhe confira a identidade emiliana.

Nesse trânsito, as personagens interagem com o tênue espaço entre o bisturi testemunhado o primeiro choro e o corpo dando adeus na forma de pranto. Entre uma extremidade e outra pode acontecer a revelação de outra personagem, cujas características destoam da catatonia teatral/literária que ainda se faz tão contemplada. Ela, uma anti-heroína, decidiu entrar em ação com a fim de desmascarar uma vilã — sem escrúpulos mas, muito sedutora — que vem, segundo o autor, há tempos adestrando a nossa passividade. Mais que isso, corroborando no adiar do nascimento de outro tecido social, afetivo e estético no cotidiano.

Para Paulo, a esperança é uma forma sutil de controle, biopoder que atua no ventre da insegurança à adoração de um retrato de mundo idealizado, fetichizado e prometido. Imagem ou souvenir recorrente ao apelo da compra dos serviços de um Deus inventado que prometera salvação desde que verificável plena obediência. A esperança é a irmã siamesa do medo, nutre-se da tristeza e promete um futuro – “cadê?” Ele nos cutuca. Foi, pois, preciso desmascará-la, enfrentá-la e quem sabe, matá-la. Mas, logo de primeira lança e não por última ordem como, em geral, se é acometido por tal deslumbre. Paulo nos convida à contramão: “Chega de cãibras, caminhemos com dignidade!”.

Ao longo de sua trajetória, seja desenvolvendo uma série de projetos, fundando metodologias e conceitos, criando espetáculos, performances, peças e tantas outras ações, a marca de Paulo está no fomento às potências do ser humano. Vale a pena conferir o que dessa vez tramou o escritor em seu estilo único de antropologizar a arte e vice-versa.


Paulo Emílio Azevedo é Professor, Pós Doutor em Políticas Sociais e Doutor em Ciências Sociais com especialização em Antropologia do Corpo e Cartografia da Palavra. Escritor, criador no campo das artes cênicas e consultor na área de Educação e Cultura, cuja pesquisa tem por objetivo refletir sobre outras formas de comunicação aos diversos protagonismos e redes de sociabilidade na sociedade contemporânea. Recebeu diversos prêmios, entre eles “Rumos Educação, Cultura e Arte” (2008/10) através do Instituto Itaú Cultural e “Nada sobre nós sem nós” (2011-12) no âmbito da Escola Brasil/Ministério da Cultura. Sendo um dos introdutores das práticas do poetry slam no Estado do Rio de Janeiro, vem desenvolvendo uma série de ações no campo da palavra falada e performance poética. Em 2018 representou o país na Journée d’Etudes Cultures, arts et littératures périphériques dans les Amériques: une approche transnationale de la production, la circulation et la réception em Lyon (França). Tem dezessete livros escritos, sendo três bilíngues. Coordena a Rede Cia Gente e orienta conteúdos para Fundação PAz – plataforma que registra e protege sua produção  intelectual. Com esse completa dezoito livros publicados. É pai de Hiago; sua obra-prima.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.