alguém me traga uma mulher vestida de preto. sonho todas as noites com uma mulher vestida de preto. ela carrega nos olhos ânsia e terror. todas as noites ela me diz coisas ferozes com os dentes. sei que me tem amor.

abri a despensa na esperança de um tempero, um resto de farinha, algum pacote ou lata por vencer, mas pra quê?, abri a despensa e uma casca grossa marrom cobria pedaços de madeira, os restos do armário, entulho quebrado amontoado envolto em pó. bichos carcomendo os tecidos de dentro: o armário, meu ventre – há quanto tempo assim, a casa, nossos vestígios, desde a morte?, desde qual, desde tantas? tirei a camisa, máscara de pano envolta sobre meu rosto, impedindo os cheiros, e entrei, caindo como as prateleiras: sem pressa. as dívidas da construtora; sem pressa. os trinta e cinco reais para a cerveja da semana; sem pressa. o útero único que carrego em bomba; sem pressa.

alguém me traga uma mulher vestida de preto. uma que seja material, realizada, existente. ela me visita todas as noites e todas as noites eu me ajoelho frente à mesma parede e peço para parar de sonhar.

acendo um fósforo vez toda que acordo. li certa vez que o fogo é não só motor de inícios, mas também de interrupções. a sombra da chama encontra os viscos da parede – caminhos intermináveis desde o primeiro ninho. os bichos trabalham, vivos. buzinas lá embaixo, e vozes, britadeiras, freios de ônibus – algo estanque cai duro no concreto. metade do meu rosto brilha, dourado, e a outra metade está apática. observo a pretensão estática da parede, prazer estético, esqueletos e tetos, pedaços criando monstros, ninho de monstros, metástase, erupção. eu preferia que fosse meu, O Câncer. mas é a casa, implorando por demolição.

ela me diz: eu te seguro, bebê, eu te seguro, eu te – e desaparece, caindo fundo num túnel. a vertigem que ela sente também sinto, de cima, enquanto assisto. mudam as cores, já não há mais preto, no lugar uma mistura alegre em vida, cores que me forçam a dançar em sorriso, monstruosa e robótica, no chão da sala.

não, eu não acho normal essa cova, não, eu não gostaria de estar sentada bem no meio dela, não, eu não deveria ser a que é responsabilizada, a que se responsabiliza, a responsável, por arrancar com as mãos as plantas que se jogaram dos vasos, ou por varrer o vidro restado do lustre que se cortou do fio, sequer por separar o que é memória carregável do que é passado esquecível, ou, não: eu não vou reerguer os pilares de uma casa existida há tempos em morte, abandonada ainda em vida, em véspera de sepultamento, restada assim, apenas em resto, sim, os cantos em terra velha, acumulados, e, nos meios, buracos. meu pai me olha com o olho cheio de perda. como fosse o único escolhido pela ausência ao abate.

dançamos, exaustas, ela gritando onde foi que você comprou essa calça toda rasgada e eu respondo tão perto que me dá medo, mas, você?, você está aqui? vapor luz e o som em batida, ela criança reaprendendo a mover o corpo, e eu, adulta, doendo em articulações. me sinto tonta enquanto giro, vou e volto, como se acordasse, mas, não, estou ali, e ela já não está. espalho os dedos no rosto, caio no chão, deito colando as costas na fuligem, ninguém ao meu redor – mas os sons e cheiros e texturas e vozes -, e eu em palco aberto, equilibrista sobre terreno infértil, respirando, com gás e sem força.

falo sobre as labaredas. são elas as responsáveis, não eu. digo que o meu papel é apenas o de segurá-las, escada em impulso, moldar a fumaça, projetar o rastro, registrar a chama. o dia está quase lá, quase chegando às seis. não desisto porque já estou úmida, entregue às manchas. não desisto porque já estou em chamas. encho um copo pequeno com gelo e uísque. o álcool arde enquanto desce, garganta e térmitas, esparramado sobre as feridas. tudo é fogo e assistimos ao colapso. uma motoqueira acelera na esquina, interrompendo o estalar. tudo é quente.


Gabriela Soutello é escritora e jornalista, autora do livro de contos Ninguém vai lembrar de mim (Pólen, 2019), contemplado pela 1ª. Edição do Edital de Publicação de Livros Para Estreantes da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, e vencedor do 1º Prêmio Mix Literário, do Festival Mix Brasil. Participa, com um conto, da antologia A Resistência dos Vaga-lumes (Editora Nós). Teve passagens pelas redações da Revista Cult e da Deutsche Welle Brasil, na Alemanha, para as quais produziu artigos e reportagens sobre arte e cultura. Atualmente, trabalha com as redes sociais da Netflix Brasil.

A fotografia é da autora é de Raísa B, no instagram @raisa.benito.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.