O doutor acabou de explicar que com sorte a condição não avança. Condição é um outro jeito que arranjaram para falar doença, doente, você está doente parece muito sério, muito bruto, frio, sem muita saída ou com uma saída bem longe dali, sem letreiro luminoso indicando a porta, sem setas pelo caminho escuro para guiar a chegada.

Doença geralmente tem algum tratamento, mesmo com a saída longe. As que não têm chamam de terminal, mas a minha não é terminal nem paliativa nem tem cura por isso ele chamou de condição. Estou condicionada a viver com isso para o resto da vida.

Ele disse com sorte porque essas coisas são meio imprevisíveis, tempestade tropical, mesmo tratando e tomando todos os remédios na hora que apitar o alarme, evitando ar condicionado, fazendo musculação e alongamento, de manhã e à noite. Mesmo fazendo tudo certinho pode ser que o quadro complique, pode vir chuva torrencial alagamento ciclone.

Pode ser que minhas juntas fiquem enrijecidas e eu tenha dificuldade de dobrar os dedos em alguns anos, em alguns meses. Talvez eles não dobrem mais, fiquem cheios de nós, os de marinheiro, e então ficará difícil escrever, cozinhar e me masturbar do jeito que faço hoje. Meus dedos indicam minhas dores e guiam todos meus prazeres, doutor.

Talvez eles fiquem duros de verdade, galhos de árvores, firmes, capazes de balançar com o vento mas sem mudar a estrutura, sem se dobrar como quando eram galho novo, verde, broto. Dedos em ventania chamam os dedos que apontam para as diagonais, externas, janelas abertas, deviam chamá-los dedos de galhos maduros após ventania, não voltam à posição inicial. Eles quebram, doutor, se ventar muito forte?

Doutor, eu te falei que ganho a vida escrevendo? E ele falou para manter a mesa de trabalho baixa, a mão sempre mais baixa que o antebraço, a inflamação é quase toda nas articulações que podem inchar inchar e comprimir os nervos da região. Você já está com dormência nas mãos, não está?

A mão segurando o celular agora dorme, o braço estendendo roupa dorme ou dói, o braço fazendo ola ou balançando de um lado para o outro em um show. Eles cansam bem mais rápido, o braço e os dedos, todos esquerdos, canhota, a condição só pegou esse lado em cima. Embaixo, ambidestra nos joelhos e tornozelos, por isso nem tenho ido mais a shows, dói agitar os braços, dói manter-me de pé ou sentada, dói manter-me de bruços, deitada de lado.

Tem que manter a mente alinhada, o doutor fala quando começo a chorar, pega um lenço da caixinha em cima da mesa, perto das miniaturas de partes de gente que ele deve usar às vezes para explicar melhor o que acontece nas partes grandes da gente. A caixinha ali me alivia, não sou nem a primeira nem a última a chorar nesse consultório.

O tratamento médico, de pílulas e prescrição, ele continua, é só cinquenta por cento. Cinquenta por cento, ele fala assim, como a probabilidade de dar cara ou coroa jogando uma moeda pra cima, como aquele vídeo do protetor solar que eu vi repetidamente na internet discada quando era criança, suas escolhas têm 50% de chance de darem certo, mas também 50% de chance de darem errado. A pessoa que escreveu esse texto não sabia muito de probabilidade. Nem o doutor.

Se fosse a cabine do Sim e do Não do Silvio Santos as chances seriam cinquenta cinquenta, meio a meio, você deseja trocar uma bicicleta novinha por uma caixinha de fósforos vazia? E uma TV a cores por uma lancheira velha? Você deseja que as células do seu corpo se ataquem em vez de funcionarem normalmente?

Doença autoimune, ele falou meses atrás, antes de ver qualquer exame de sangue ou imagem, antes de pegar no meu pulso ou tornozelo. Viu pelo histórico de infecção de garganta, de ouvido de urina, pelas dores nas costas nos pés e cotovelos, no RPG que fiz tantas vezes e estava mais pra jogo de magia que fisioterapia os antiinflamatórios tomados feito placebo, pílula de farinha, o sono, horrível, picado, o cansaço que não melhorava.

Doença autoimune ele falou e eu pensei que fosse ser mais um diagnóstico errado, já disseram tantas outras coisas, pensei que fosse chute ou palpite, leitura das linhas da palma da mão na pracinha do centro.

Um homem, moreno, mais velho, vai aparecer na sua vida quando você já estiver sem esperanças e mudar seu rumo para sempre. Puxei a mão antes que a cigana pudesse terminar e acrescentar a parte do casamento e dois filhos, sempre essa mesma história essa mesma promessa, mas a mulher acertou, pensei que ela falava de amor quando falou homem, é sempre isso que perguntam às adivinhas, aos búzios e às cartas, ela falava era do doutor.

Agora eu quero saber dos filhos que eu nunca quis. Nunca pensei direito, nem naquele que eu tirei quando era nova, nem deu tempo, era carreira carreira estabilidade e então a frente fria, tempestade. Quandos as chuvas acontecem de forma enfileirada, ombro com ombro, formam uma linha de instabilidade, tempestade multicelular. Mais intensa que uma sozinha, de uma célula só, mais intensa em abrangência, mais intensa em ventos fortes e tornados, células unidas causando ruína.

Os dedos da mão em ventania e os do pé em martelo, é assim que chama o dedão que não encosta no chão. Hálux devia chamar polegar também, como na mão, tão mais bonito. O hálux dedão polegar do pé dá o equilíbrio, dá o impulso para o próximo passo, como eu vou andar adiante se até o hálux desistiu de me prender ao chão e a previsão é de vendaval, me diz, doutor, por que os dedos do pé não podem virar raízes como os das mãos viram galhos?

Onde foi mesmo que encontrei a cigana para eu voltar perguntar do resto da vida? Desses filhos, vai dar pra ter se eu quiser dessa vez, minhas amigas sempre reclamam da dor nas costas do peso da barriga, depois do peso do filho nos braços, vai dar pra carregar nos braços? O doutor diz que depende, que os hormônios podem ajudar ou piorar, mas a cigana vai saber, vai ler na linha da minha palma que ainda não bagunçou com o vento.

O doutor mais velho, moreno nos fios resistentes ao redor da careca, o doutor vidente que viu doença quando ninguém via ali nada ali há tanto tempo. Fibromialgia, fadiga, mediunidade, obsessor espiritual, fiz banho de folha, banho aromático, massagem, drenagem, tomei chás e vergonha na cara, falaram isso também, todo mundo tem dor e dorme mal, é exagero seu, tá com depressão não?

Um quadro depressivo, agora sim, tristeza. Mas vai passar, o doutor garante enquanto termina às prescrições e me estende mais um lenço, o rosto compassivo e um tanto contido, olhos bocas e gestos de quem dá a mesma notícia quase todos os dias.

Pelo menos você tem um diagnóstico agora, querida, isso não é bom, não é menos nebuloso?, agora dá para tratar, ele diz, me oferecendo uma sombrinha e uma saída para um banho quente, ao menos para hoje. Amanhã, pelo que vi na previsão do tempo, não tenho tanta sorte. Parece que chove de novo.


Ana Squilanti é escritora, roteirista e farmacêutica. Pós-graduada em Jornalismo e Produção Transmídia pela Faculdade Cásper Líbero, tem pesquisa sobre a relação  existência a partir de diferentes corpos. Gravou e dirigiu o documentário “Mais que um corpo” (2019), apresentado no Cine Philos na FLIP em 2019. “Queria chuva de verão” integra seu livro de contos Costuras para fora (Editora Nós, 2019), ganhador do Edital de Estreantes da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.