eu gosto de brincar que sou deus
fazendo chover nas plantas
da sacada do apartamento
que não cai chuva
com meu borrifador de água
comprado no armarinhos fernando
-que eu ganhei-

regulo a pressão da água
pra formar aquelas gotinhas de garoa leve
e canto perto das folhas
alguma música sobre chover
-acho-
que elas não acreditam na minha encenação
e brotam flores bonitas por piedade

assim como brotam mais dias
nessa quarentena
que já nem sei como se chama
sessentena seria?

eu que continuo morrendo
planto muitos poema
e poucos nascem
alguns natimortos
se inscrevem em editais

nunca
o notebook ficou tanto tempo aberto

enquanto a porta
tem dias que não se abre
nem para descer o lixo
amontoado
no canto da cozinha
versus
pensamentos amontoados
em algum lugar
da cabeça

tanta informação
que parece ser impossível
concluir um poema
-ou qualquer outra coisa-

com o que será que sonham os maus?
talvez nem sonhem
me auto respondo
eu deus onisciente de mim

já é maio
me lembram as flores

e um pequeno medo
me toca os pés
e sobe rapidamente até virar isso:
q u a r e n t a
é composto por quantos dígitos?

ouvir as vozes das minhas mães
foi o que faltou ontem
por isso o titubear da fé no hoje

me agarro ao filho
que se agarra
a tela de proteção
pra ver além
da tela do televisor
eu e ele
nos exercitando
para acreditar

eu deus que sou
pequena
rezo em cada linha poema
pra lembrar a deus
de não se esquecer
de mim
.


em tempos de redes sociais, luz ribeiro prefere pousar em redes de balanços e afetos, @luzribeiropoesia tem alguns seguidores, mas luz sonha em ter sempre com quem seguir. luz é coletiva: slam das minas-sp e coletivo legítima defesa. escreve desde que fora alfabetizada e nem por isso se acha poeta, sonha com o dia em que será poesia. campeã do  “flupp bndes” (2015), campeã do “slam br” (2016) e semi finalista da “coupe du monde de slam de poésie” (FRA – 2017).  protagonizou um dos capítulos da série “bravos” na tv brasil. autora dos livros: “eterno contínuo” (2013) , “espanca”  e “estanca” (2017). raiou no verão de 88 em são paulo, gosta de escrever com letrinha minúscula, nasceu antes de aquário pra presa não ficar. luz é: mar-mãe de ben e filha-mar de odoya.


fotografia de juliana cordaro

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.