“Sou a letra A – última: Flor-do-Lácio, primeira a ver seus passos
Passeio, olhar no passo, teu seio alimento, embaraço…”

É dessa forma que o poeta e compositor Vinicius Terra inicia as primeiras frases do seu novo videoclipe “Máscaras de Azulejo”, em parceria com o duo português Lavoisier. O autor encara a lusofonia como a representação da letra A, a primeira do alfabeto, descrevendo a palavra e seus significados em um “eu-lírico feminino”.

O videoclipe tem sua estreia marcada para amanhã, dia 21 de agosto de 2020 e conta com a direção e produção de Victor Fiúza (diretor do clipe “Ok Ok Ok”, de Gilberto Gil e de documentário “Racionais MC’s: Uma História Musical“), com imagens colaborativas de vários artistas espalhados pelo mundo. A ideia foi buscar a essência do silêncio da mulher por intermédio da primeira imagem que há na cabeça de uma sociedade ainda patriarcal: o corpo.

A música Máscaras de Azulejo abre o disco “Elxs Ñ Sabem A Minha Língua {…}“, lançado recentemente por Vinicius Terra. Segundo o artista, por mais que o tema central do álbum seja a descolonização da lusofonia, a obra em si aborda as mazelas, as crueldades e a necessidade de reparação histórica em muitos aspectos daquilo que se perdeu na travessia do Atlântico:

Não havia como silenciar o fato de as mulheres não serem citadas e, sobretudo, abrir a narrativa da obra. É o que há por trás das máscaras de azulejo que cobrem as casas e sobrados dos centros urbanos lusófonos. É preciso limpar a maquiagem e descobrirmos o véu do retrocesso e do silenciamento. Já não há mais espaço para um mundo sem respostas.

Máscaras de azulejo, Vinicius Terra (2020).

A música conta com a participação especial do duo português Lavoisier , com vocais de Patrícia Relvas e guitarra elétrica de Roberto Afonso. Juntos, criam uma atmosfera de resgate e ao mesmo tempo de reformulação à música portuguesa, com um novo olhar à identidade lusitana. Segundo Vinicius essa parceria com “a guitarra do Roberto e a voz da Patrícia trouxeram o canto raivoso de uma sereia sufocada pelo lixo plástico nas profundezas do Atlântico. É desesperador e ao mesmo tempo lindo”.

Máscaras de Azulejo é uma composição do Terra em parceria com o beatmaker 2F U-Flow, que também assina a produção da faixa. A faixa é Co-produzida e arranjada pelo músico Gabriel Marinho, que assinou a produção e direção musical do álbum “Elxs Não Sabem A Minha Língua{…}”, e que desenvolve essa parceria com Vinicius desde 2015. 

Este é o segundo trabalho lançado pelo rapper, desde que o isolamento social começou devido à pandemia do novo coronavírus. No mês de maio, Terra lançou o videoclipe de Adamastor, música que traz à tona novamente o mito de Luís de Camões, presente em Os Lusíadas, como uma figura da pós-verdade e com o poder das fake news e do retrocesso em nosso século.

“Adamastor” é a última música do disco e o clipe foi construído com base em recortes de imagens entre Portugal e Brasil, durante os shows de lançamento. A figura de Adamastor, o mítico gigante, também está na capa de “Elxs Ñ Sabem A Minha Língua{…}”; uma réplica da estátua instalada originalmente em Lisboa é representada em chamas na cada do álbum. Ainda sobre o projeto, Vinicius finaliza: 

Temos escolhido uma sequência de músicas (desconstruindo a ordem oficial do disco nas plataformas digitais) justamente para debater os temas cruciais e que possuam elo com este momento de isolamento social. A todo momento há um caso de feminicídio no Brasil. Sou homem cis e sinto-me na obrigação também de falar com a parcela do público que alcanço; de que essas feridas precisam de cura e prevenção, para que não continue a acontecer de maneira normativa e banal.

Além do videoclipe de “Máscaras de Azulejo”, uma nova versão remasterizada do single estará disponível nas principais plataformas digitais.

Nascido e criado entre os limites de São João de Meriti e Pavuna (territórios periféricos pertencentes ao Rio de Janeiro), Vinicius Terra é considerado uma figura singular e pioneira no Brasil por promover intensamente a construção e o fortalecimento dos laços entre os países que falam português. Dedicou-se muito cedo à cultura hip-hop, tendo seus primeiros anos na arte do rap e lançando diversas mixtapes, eps, singles e discos em parceria com outros artistas, sobretudo no ambiente lusófono. Foi professor de Português/Literatura e criador do “Concerto Didático”: uma aula-show onde conta a história da língua portuguesa e da literatura lusófona sob a perspectiva da cultura hip-hop, realizada na última década em diversas escolas e centros culturais do Brasil. É curador do Festival internacional de língua portuguesa “Terra do Rap” (com edições em São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa) e da exposição itinerante “A Energia da Língua Portuguesa” (EDP Brasil), que percorre o país desde 2017, tendo marcado presença como palco da FLIP, em Paraty-RJ, nas 3  últimas edições. “Elxs Ñ Sabem a Minha Língua {…}”, seu álbum de estreia, remonta toda a história da língua portuguesa sob a ótica do rap – desde o trovadorismo do século XII até o hip-hop lusófono do século XXI e as conexões entre Portugal, África e BrasiI, buscando respostas para o que perdemos na travessia do Atlântico e na construção de nosso país. Atualmente está em processo de produção de uma música colaborativa e web-série com importantes vozes da música lusófona destinado ao novo acervo de reinauguração do Museu da Língua Portuguesa (São Paulo-SP), previsto para janeiro de 2021.
A fotografia do artista que acompanha a matéria é de Mariana Rios.


O duo Lavoisier é a voz de Patrícia Relvas e a guitarra eléctrica de Roberto Afonso. Começou enquanto terapia musical, para tratar uma crise de identidade lusitana, e se transformou em música antropofágica. É com esta simplicidade e coragem que tratam a palavra, é assim a fantasia pop em que mergulham a voz de Patrícia Relvas e a guitarra elétrica de Roberto. Manejar a língua portuguesa é isto, interpretá-la com esse encanto mesmo dizendo o óbvio. Aqui a tradição revisita-se com um charme fora de comum. O classicismo virado do avesso, nunca deixando as raízes do tal folclore. Recentemente a dupla lançou um disco primoroso, com releituras de poemas do grande Miguel Torga, intitulado “Viagem a um Reino Maravilhoso”.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.