Após o seu elogiado álbum de estreia “Ouvindo Vozes”, Dossel apresenta o novo single “Lembrança de Céu”, gravado na tradicional Fábrica Bhering – importante pólo cultural do Rio de Janeiro, onde o artista tem um estúdio. Lembrança de Céu é produzida por Barrucho e Àbáse (do yorubá – colaboração), mixada pelo húngaro Szabolcs Bognar e masterizada por Buguinha Dub.

Embora o título da faixa nos conduza a um universo lúdico e poético, a canção aponta um chamamento ao agora, um apelo à presença e à sensibilidade inerente.

já deu de ter pressa
percebe a maré
e se orienta

Sem muitas voltas, Dossel convida a uma escuta interna, de memória ancestral, sabedoria acessada mais diretamente pela criança, que nos traz o vigor da vida por necessidades mais simples, alertando ao que importa e nos move.

ouve dos mais velhos
descarta essa crença
escuta teus filhos sãos
mais perto do ventre

São memórias que os mais velhos carregam e constroem ao longo da jornada e nos lembram sempre que preciso, basta ouvi-los”, conta Roberto Barrucho. No entanto, o artista completa – “é preciso superar a intelectualidade e a fundamentação teórica, permitindo-se tal acesso pela experiência do corpo, sentir estas dimensões trazidas por vossos filhos e pelos mais velhos, para vivência do ser, para assim crer nestes ensinamentos e memórias que atravessa tempos e gerações.

Roberto Barrucho, nasceu no bairro do Catumbi, na área do Centro do Rio de Janeiro, onde viveu até os 12 anos, quando mudou-se pela primeira vez para o Rocha, onde anos depois viria a desenvolver um espaço cultural. Aos 21 anos retornou ao Centro, dessa vez na Gamboa, região portuária, apaixonando-se pela história local, que se desenvolve junto da história da própria cidade do Rio de Janeiro.

Formado em Produção Musical e Fonográfica, aos 25 anos, Barrucho volta ao bairro do Riachuelo, na Zona Norte, onde desenvolve ações junto ao coletivo Norte Comum e com músicos periféricos tanto na própria região quanto Zona Oeste. Este período de muitas vivências na cidade que foi determinante para uma formação prática de Produtor Artístico e Cultural,

Após esse período frutífero que desembocou na produção do seu primeiro álbum, “Ouvindo Vozes” (Mondé, 2019), retorna para região portuária, baseando-se no Santo Cristo, tendo a tradicional Fábrica Bhering como laboratório de criação e estúdio de produção musical.

Para Barrucho, a vida na cidade e o trânsito por suas distintas zonas sempre serviram de plano de fundo e motivação indireta para criação de letras e temas musicais. Por certas vezes essa temática chega a superfície de forma mais direta, como no caso de ‘Alegria‘, parceria com a artista Mahmundi, quando exalta as ruas do bairro de Santa Teresa, vizinho do Catumbi, onde cresceu. Ou ainda nos versos de ‘Arpoador‘, que nesse caso surge mais como um lugar de descanso e ‘fim de noite’ pós-lapa do que para o tradicional rito de tantos cariocas de aplaudir o pôr do sol.

aponta esse barco
dispensa a espera
já deu de ter pressa
percebe a maré
e se orienta

ouve dos mais velhos
descarta essa crença
escuta teus filhos sãos
mais perto do ventre

portal que atravessa
memória mais perto
ainda não se esqueceu
lembranças de céu

desfaz a preguiça
desfaz a preguiça
é preciso ser pra crer
é preciso ser
pra crer

é preciso ser
é precioso

é bonito o ser
que o feio encontra espaço
que abraço abraça e ata
a sombra que ocupa a casa

é bonito ser
é preciso ser

é bonito o ser
que o feio encontra espaço
que abraço abraça e ata
a sombra que ocupa a casa

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.