Mel Duarte nasceu na primavera de 1988 em São Paulo. É escritora, poeta, slammer, produtora cultural e atua com literatura desde 2006. Também integra a coletiva Slam das Minas SP, batalha de poesias autorais voltada ao gênero feminino. Publicou os livros “Fragmentos Dispersos” (2013),  “Negra Nua Crua” (2016) traduzido para o espanhol “Negra Desnuda Cruda” (2018, Espanha) e “Querem nos calar: Poemas para serem lidos em voz alta” (2019). No verão de 2020, Mel Duarte publicará o livro “Colméia” pela Casa Philos.

Em 2016 Mel foi destaque no sarau de abertura da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty e foi a primeira mulher a vencer o Rio Poetry Slam (Campeonato Internacional de Poesia). Em 2017 foi convidada a representar a literatura brasileira no Festilab Taag, em Luanda, capital de Angola; e em 2019 foi a primeira poeta negra brasileira a lançar um disco de poesia falada “Mormaço – Entre outras formas de calor” disponível nas plataformas de música. 

No especial Neolatina de novembro, apresentamos uma mostra de 5 poemas da artista:

minha condição

Eu não escrevo pra incendiar casas
mas pra ascender faíscas aos olhos de quem me lê
não escrevo pra matar a fome de multidões
mas espero que minhas palavras preencham um vazio que te ajude a se manter de pé
não escrevo pra governar um povo
eu ouço o que ele diz e utilizo minha voz para propagar sua mensagem
não escrevo pra obter a sua aprovação
mas pra registrar minha trajetória e de tantas mulheres negras que já foram silenciadas.

Eu escrevo pra acessar lugares em mim que são invisíveis aos olhos
pra expurgar pensamentos que não me deixam dormir
escrevo, pois, cada palavra é um atestado da minha condição poeta
e sendo poeta, ainda miúda que sou
escrevo porque a palavra é o que me resta

Num mundo conduzido por falsos profetas
nessa briga de egos e dialética
me apego num sopro de esperança
que me permite o papel e a caneta

Escrevo pra sobreviver
e sobrevivendo eu luto
escrevo se adoeço
e escrevendo me curo

E você? Pra quê escreve?

E pra onde você escorre,
quando esse mar palavra transborda?

orquídea roxa

Entre a distância do que os olhos dizem e as palavras enxergam
existe um corpo negro imerso em pensamentos
as mulheres que nele habitam falam ao mesmo tempo,
e hoje entendo que até o caos pode ser acolhimento.

Percebi que desatar os nós que me prendem
é tão importante quanto firmar os que me fortalecem
e essa força que me puxa pra baixo, mesmo com os pés cansados
vem pra ficar raiz e me conectar com o passado.

Me pergunto:
De tudo que guardo no peito, o que posso trazer á tona pra me dar mais acalento?
De tudo que ofereço pro mundo, o que posso absorver agora dele
pra me despertar mais conhecimento? 

São tantas perguntas, tantos anseios
essa pausa no tempo, esse silêncio…
Então, contemplo o desabrochar da minha orquídea roxa
enquanto espero pelo prenúncio de novos tempos

de qual lado você luta?

Não é de hoje que calam meu grito, abalam meus instintos
ambos pela dor
por te nos olhos esse brilho, essa herança bem quista dos genes de meu bisavô
não é só pela preta cotista, a casa própria da diarista
ou qualquer outra conquista dos que fazem parte da história de uma terra que
você usurpou!
É ver o espaço ocupado, a mulher preta, pobre no doutorado,
retomando seu legado, sem dizer: Sim senhor.

Nos querem supérfluas, apáticas – sem senso crítico
nos moldam em estéticas, inépcias, estratégia sádica orquestrada por cínicos
eu rejeito seus dogmas e mantenho a perspicácia no meu raciocínio
e ainda observo bem atenta os que compactuam com a tua lógica ilícita de
extermínio.

Senhores em seus altares, disputando egos maiores
supremos, palácios, planaltos, para que possam se sentir superiores,
influentes na arte da intolerância, não sei como se cria
tanta mente ambiciosa, tolhendo anciã sabedoria.

Nos oferecem uma mídia abastada, interesseira e interessada
apenas na morte, mas não em quem mata.
Como será que um corpo suporta, tanta violência inescrupulosa?
Como é possível dormir com as vozes em minha cabeça de tantas irmãs mortas?
Nossas almas pedem por socorro e ninguém nota!

E eu só peço a Oyá que me guia:
mantenha-me longe dos senhores fardados do mato e sua milícia!

Me diz, o que te assusta?
A farda, a gravata ou a luta?
Perceba que nessa disputa,
conheço teu caráter
pelos heróis que cultua!

pense grande 

Hey, você!
Já parou pra pensar qual a sua contribuição?
O que faz pelas pessoas que vivem ao seu redor, pela sua cidade?
Qual a sua habilidade?
Tenho certeza que dentro de você pulsa alguma vontade
um querer em fazer diferente, ir além da margem…

Há tempos já deram a letra, que há três tipos de gente:
As que imaginam o que acontece.
As que não sabem o que acontece.
E as que fazem acontecer.

Você pode escrever pra sua história um melhor roteiro,
recolher ideias do seu pensamento canteiro
acreditar no seu potencial é um começo
foque num ideal pra não ter retrocesso.
Quer saber do futuro? Mas o que tem feito no presente?
Querer mudar o mundo, tem que começar primeiro na gente.
Então vai, se movimenta
obstáculos são postos em nossa vida para que a gente os vença!

Sagacidade é saber lapidar o que tem na mão, é uma questão de essência!
E no quesito sobrevivência: Gueto, favela, periferia sempre teve o maior grau de competência!
Peraí! Tá ouvindo esse som?
Se liga! É o beat do seu coração, essa batida orgânica que te dá a direção então confie nela, acredite no seu dom!

Uma vez me disseram que a comodidade é a degradação do homem.
Logo, ficar parado não fará com que o jogo vire, nem matará sua fome
e não é preciso planejar algo grandioso pra fazer a diferença
acredite, a sua pequena parte é mais importante do que você pensa.

E pras minas, manas, monas que vivem a se auto- sabotar
que acreditam ser impossível sua história protagonizar
e digo isso por experiência própria
sempre há pelo que lutar!

Busque a sua fonte de resistência,
use sua criatividade, estabeleça metas, prioridades
saia da zona de conforto e vá pra zona de confronto
perceba: Você é a única responsável por sua felicidade!

E não deposite no outro sua projeção de liberdade
sei que é difícil ter coragem, mas você dá conta
entenda, mulher já nasce pronta!
E quando menos perceber,
terão outras inspiradas em você.
Pense Grande!

sem título

É resistência viver de arte, palavras, ritmos
é amor e respeito a si mesmo escolher focar nesses labirintos.
Para nós é um mundo de riscos,
inconstância na venda de livros, discos…
Mas certeza de estar em paz com o que oferece para os outros
e consequentemente consigo.


Acompanhe o trabalho de Mel Duarte também no Instagram, em seu site oficial e nas plataformas de streaming do Spotify e YouTube. A fotografia que acompanha o especial é de Julia Rodrigues.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.