Nuno Ramos me recebeu em sua casa numa rua tranquila da Zona Oeste paulistana e disse antes de acionar o botão da porta automática: “Não precisa ter medo. É só cruzar os braços.” O artista se referia à cadela Maria, um labrador brincalhão e agitado. Subi as escadas até o primeiro andar do sobrado e Maria pulou em mim.

Cães, jegues, peixes e urubus já estiveram presentes em instalações e figuram em livros do artista plástico e escritor nascido em São Paulo. E Nuno já se comparou como artista a um vira-lata procurando restos e detritos para alimentar sua atividade criadora abrangente – sua força de arrasto, como mais de um crítico denominou sua obra. Em 2008, criou a instalação Monólogo para um Cachorro Morto, com cinco pares de lápides de mármore, e uma televisão onde um vídeo mostra o artista velando um cão atropelado às margens da Rodovia Régis Bitencourt [assista ao final da entrevista]. Dois anos depois, três urubus fizeram parte de Bandeira Branca, ocupando o espaço central na 29ª Bienal de São Paulo e provocando violentos protestos de pessoas e entidades de defesa dos direitos de animais, conquanto as aves tivessem licença do IBAMA e fossem criadas em cativeiro. Sob pressão – com artigos coléricos em jornais e internet – o próprio órgão suspendeu a licença e os animais foram retirados. 

Detalhe da obra de Nuno Ramos, ‘Bandeira Branca‘ © Fundação Bienal de São Paulo

Minha visita foi numa sexta-feira, 13 de março, oito dias depois de Nuno fazer 60 anos de idade. Sua aparência, contudo, é bem mais jovem. Os cabelos cortados à máquina dão pouco sinais de grisalho e o corpo magro é ágil. De tênis, calça brim, camiseta e óculos, ele passaria como um doutorando de ciências humanas da USP, instituição na qual se graduou em filosofia. Cruzamos a ampla cozinha e atravessamos um pátio até um escritório-biblioteca nos fundos, provida de estantes de madeira repletas de livros, uma mesa e duas poltronas. Maria ficou do lado de fora, nos vendo pela porta de vidro e abanando o rabo. 

Acho que chegamos ao fim de uma época na qual havia uma demora preguiçosa, mas cheia de energia nas artes”, disse, esticando as pernas sobre uma banqueta e refestelado numa poltrona executiva. “Acho que hoje perdemos a potência de sonhar.

No ano passado, Nuno lançou um volumoso livro de ensaios, cujo título, Verifique se o mesmo (Todavia), refere-se à placa obrigatória fixada na parte externa das portas de elevadores em todo o Estado de São Paulo: “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar.” Os textos da primeira parte analisam obras do período ao qual ele se refere como O Palácio de Moebius e cujos marcos extremos são a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880) e o disco conhecido como Álbum Branco, de João Gilberto (1973).

Percorrendo um século, a obra examina uma gama considerável de gêneros: das artes plásticas, literatura, música, ao cinema e arquitetura. “Hélio [Oiticica] é o desbravador dessa minha hipótese do mesmo, com seus ninhos e labirintos – foi a partir de um texto sobre ele que desenvolvi o raciocínio; Drummond, provavelmente o maior artista brasileiro do século 20, escapa ao Palácio, embora o frequente às vezes.

Para Nuno, o impulso de exteriorização promovido pelo melhor de nossa arte tem como resposta sua interiorização, como se não saíssemos de nós mesmos. Vem daí essa ideia do Palácio de Moebius – a famosa fita estudada pelo matemático alemão August Ferdinand Moebius em 1858 cuja colagem de suas duas extremidades depois de efetuar meia volta em uma delas torna-a reversível. Dentro desse templo de eterno retorno, Nuno acredita ter o país produzido seus artefatos culturais mais potentes. Mas o “Mesmo” para ele – cujo início como artista plástico nos anos 1980 se deu quando esse ciclo se encerrou – tem também um caráter sociológico, estruturante de nossa vida comunitária: o fato real de que os poderosos continuam intocáveis, mantendo reféns a enorme base da sociedade, numa nação com um dos níveis de mais alta desigualdade do mundo e onde os índices de mortes violentas alcançam 60 mil pessoas por ano.

Disse a Nuno que a impressão deixada em mim pelo seu livro foi lutuosa. Ele balançou a cabeça com o olhar em algum ponto no chão. Acrescentei sentir parte de uma geração fracassada (sou oito anos mais novo do que ele), pensando numa frase do texto de abertura do livro: “Sinto que envelheço [tenho 58 anos] com um desejo autêntico de agir (…), mas sem saber muito bem o chão onde piso”.

Ele me escutou e começou a responder: “Acho que são várias coisas. Essa coisa do Moebius, que cai para dentro, que se refugia numa autonomia interna e renuncia à interface com o real , a despeito do que o artista queria…. Esse movimento inaugurado pelo Hélio nas artes plásticas e que se espraia até o Tunga deu muita arte boa, mas ele também espelha uma coisa nefasta que o Faoro [Raymundo Faoro, autor de Os Donos do Poder] fala sobre o poder ser sempre o poder dos mesmos e para os mesmos.” Uma pausa. “O sistema político nunca se dirigiu para fora, enquanto a cultura tentou compensar isso com parâmetros próprios. E nós vivemos diante desse confronto e tensão. Mas isso acaba nos anos 80 e 90. Minha obra é uma tentativa de ainda dialogar com isso.

Nuno raras vezes produziu arte de conteúdo político. Uma das exceções é 111, exposição que ocupou duas grandes salas na galeria Gabinete de Arte Raquel Arnaud, em São Paulo, em 1992 – uma reação do artista diante do impacto do massacre de 111 homens encarcerados no Carandiru perpetrados pela Polícia Militar paulista [leia um trecho do livro Cujo, de 111]. Mesmo sendo exibida outras vezes, a obra pertence a uma coleção particular, ainda longe da vista do público (será montada definitivamente ano que vem, na Coleção Marcos Amaro, em Itu). Essa privatização das artes plásticas no Brasil, para Nuno, se deve à timidez das nossas instituições. Mas também reflete a ausência de dinâmica com o público, característica de quase todo mundo que faz arte por aqui.   

     “Há um tema rondando as questões que faço, a ausência de público. Não é possível que trabalhar num país deste tamanho gere tanta angústia. Há muita potência para fazer mas, também, muita potência para esquecer completamente.”

Essa angústia sempre o acompanhou. Embora goze de grande prestígio com obras literárias premiadas e um número considerável de exposições nos mais importantes museus, centros culturais e galerias do país, Nuno Ramos despende uma soma enorme de energia para receber em troca um silêncio perturbador. Não por acaso, como citado acima, sua obra de maior rumor foi a silenciosa e impenetrável instalação Bandeira Branca, na Bienal há dez anos, mas antes pela indignação causada do que por sua forte beleza.

Estive no magnífico prédio de Oscar Niemeyer na véspera da abertura do evento. Poucas obras de tamanha escala me causaram tanta desorientação e fascínio.

A transitoriedade da obra que nasce morta, como a define, encontrou uma metáfora concreta poucos anos depois da Bienal, quando a Galeria Celma Albuquerque de Belo Horizonte entregou seu grande térreo para Nuno erguer uma de suas instalações mais tristes, Ai, pareciam eternas..., na qual três casas em escala real naufragam numa mistura de argila e água. Eram réplicas de três casas de sua vida – a da infância, a de seus avós, onde manteve ateliê, e a casa onde morou por mais de 20 anos. Ao cabo da mostra, a obra foi destruída. O título se refere ao poema Casas de Vila Rica do livro Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade.

Perguntei a Nuno por que Drummond é enunciado, mas não examinado em seu livro. Ele concordou e disse que o poeta mineiro foi o artista mais diverso, encarnado em toda parte, aquele que foi capaz de amar a linguagem em sua totalidade. “Ele foi para todo lado. Utilizou todas as linguagens, da piada modernista ao formato clássico, à crônica meio burguesa, ao documento de Cartório. De certa forma, ele não habitou o Palácio de Moebius. Mas, pensando no poema A Máquina do Mundo, creio haver ali um retorno, um cair para dentro, que pertenceria ao meu raciocínio.” Nuno suspira, como a se conformar, e disse: “Talvez seja preciso pensar mais sobre isso. Mas no final do meu livro Junco [seu primeiro volume de poesia] eu lhe presto homenagem, parodiando-o”.

Se Drummond alcançou ressonância pública – basta pensar em E Agora José? e sua Pedra no Meio do Caminho -, a sensação de quem faz arte no Brasil, segundo Nuno, é de solidão. “Logo, o único leitor de um livro será o próprio autor”, disse. Mais de uma vez, ele tem reiterado haver uma crise de recepção em nosso meio, com o desaparecimento dos espaços para a análise e fóruns de discussão. 

Nuno disse se sentir chamado para fazer algo político de novo, depois das eleições de 2018 e da vitória de Jair Bolsonaro, o deputado de extrema-direita do baixo clero notório por sua violência verbal, misoginia, apologia às armas, homofobia e ódio às minorias e à preservação ambiental. No início de maio deste ano, ele publicou uma diatribe contra o governo na Folha de S.Paulo, dando a entender que essa guinada já ocorreu.

Por enquanto, seu próximo livro,  Fooquedeu (um diário íntimo), incialmente previsto para este ano será lançado pela editora Todavia em 2021. O título vem da contração das palavras “foi o que deu”, ditas pela artista Mira Schendel ao próprio Nuno em seus últimos meses de vida quando ele a elogiou sobre a incrível potência de seu trabalho.

Ele escreveu em seu novo livro: “Foi o que deu, vale pelo que não diz, conformando-se com o que não sabe, pois ninguém sabe o que faz, muito menos o que fez, e ainda menos a medida proporcional entre o possível e o realizado. Mas percebo agora que, se pronunciá-la bem rápido [Mira não faria isso, pois enrolava-se nas consoantes], ‘foi o que deu’ fica ‘fodeu’, ou, mais precisamente, um misto de ‘fuck’ com ‘fodeu’. Fooquedeu. Nem que seja a última coisa que eu diga, é exatamente o que quero dizer.” 

As anotações começaram há quatro anos, durante uma obra de larga escala, em Belo Horizonte – cidade onde ele conheceu Amílcar de Castro, outra de suas grandes admirações e sobre o qual publicou um texto de que diz não gostar no livro Ensaio Geral (Global, 2001). O executor de suas esculturas é o engenheiro e arquiteto Allen Roscoe, o mesmo de Amílcar e de vários outros artistas, cuja oficina fica em Nova Lima na região metropolitana da capital mineira. 

Para essa obra apolítica – mas aqui deve-se ressaltar: todos os trabalhos de Nuno, desde os plásticos, as performances, vídeos, música, ficção, teatro e poesia, nunca perdem o contato com a aspereza da superfície coartada da sociedade brasileira – intitulada O Direito à Preguiça, tomada de empréstimo do libelo publicado por Paul Lafargue em 1880 [que será publicado em nova tradução pela Casa Philos no outono de 2021] em defesa do operariado francês, Nuno levou 45 dias para a montagem no átrio do CCBB de BH. Um andaime de 15 metros de altura era composto por 106 tubos de órgão musical, que se confundiam às estruturas de metal. A montagem aconteceu em março de 2016 durante o processo que levaria à instauração do processo parlamentar cujo desfecho, em votação na Câmara dos Deputados em Brasília, levou ao afastamento da presidente Dilma Roussef. Em meio ao exaustivo trabalho inaugurado no dia 27 de abril, o artista assistia do imponente prédio da instituição às manifestações pró-impeachment de uma multidão reunida na Praça da Liberdade. 

Algo acontece comigo nesses trabalhos que exigem muita energia e eu acabo escrevendo”, ele diz. Começou então a anotar uma série de textos curtos, alguns deles publicados pela revista Piauí pouco tempo depois. Nuno, sem saber, estava como sempre esteve, no meio de uma fissura. Se a vociferação furiosa do grupo gritava palavras de ordem na principal praça de BH, em outro logradouro da capital, o grupo contrário reunia-se para protestar contra.

Quando Nuno me perguntou se eu tinha visto Direito à Preguiça, minha resposta foi não. No dia seguinte, ao folhear o catálogo da exposição, me lembrei de tê-la visitado em maio de 2016, quando estava em Belo Horizonte para ver meus pais. A recordação, contudo, me ocorreu não pela obra principal, mas pela performance No Sé (Templo do Sol). O ator Aury Porto entra vestido numa sala com plantas atravessando um tapete com motivos florais, uma cadeira com autofalante e começa a se despir lentamente até ficar inteiramente nu. Depois começa a cumprir um lento ritual sobre um tapete de pó estendido no chão. A performance consiste em ele deitar-se de costas e cobrir-se de cal, um microfone descer a centímetros de sua boca e o autofalante fazer-lhe 93 perguntas, as quais ele responde “No Sé” (não sei). A primeira e a última perguntas são Onde está  Girassol, personagem do colonialista “O templo do Sol”, de Tintim, que inspirou todo o projeto. Como num quiz delirante e vertiginoso cujas indagações transitam ao modo de um almanaque de curiosidade entremeados de questões contemporâneas e bizantinas – por exemplo, se “Machado de Assis é melhor que Henry James?” –, a visível angústia da ignorância é mascarada pelo vazio do receptáculo.

Eu me pergunto se é nessa impossibilidade de tamanhas solicitações despropositadas cujas respostas ressoam tão arbitrárias quanto as perguntas, onde se encontra o errático percurso de Nuno, pulando de um galho ao outro com sua força de arrasto que não poupa nada e sem ter certeza de ter acertado.

Sua última exposição foi Sol a Pino, na Galeria Fontes D’Aloia & Gabriel, na Barra Funda. Estive lá numa tarde quente de sábado em abril do ano passado. A rua cheia de galpões e oficinas fechados àquela hora não poderia soar mais inóspita para abrigar a mostra de um artista com sua reputação. O portão escuro de ferro estava fechado. Toquei a campainha, um homem abriu e eu entrei com minha bicicleta. À exceção dele e de uma recepcionista, fiquei sozinho no amplo espaço em cujas paredes estavam fixados os quadros. Vendo agora, a ideia da solidão do artista no Brasil não é uma simples metáfora. Quadros de 250 quilos, cuja superfície transborda feltro, pelúcia, matelassê, câmaras de pneu e placas de metal em encáustica, técnica que utiliza cera como elemento aglutinante. Massas disformes de resistência brutal, exasperante. “São pinturas desesperadamente alegres”, disse Nuno à Folha de S. Paulo poucos dias antes do vernissage.

Senti-me atordoado naquele amplo espaço com paredes brancas e as cores histéricas como se elas gritassem. Quando assinei no caderno de visitas, li o nome de Rodrigo Naves poucas linhas acima. Naves é um dos críticos de arte mais argutos e dotados do país. Ele vem desde o início acompanhando a carreira de Nuno e duas frases suas ecoam como espécie de súmula da álgebra do artista: “As obras de Nuno Ramos surgem pelo modo ostensivo de unir instâncias, elementos e matérias muito pouco unificáveis. As diferenças saltam à vista, mas também as nervuras a reuni-las.”

Lembrei a Nuno ter lido uma entrevista onde ele disse ter adorado o romance Ferdydurke, a insolente obra-prima do escritor polonês Witold Gombrowicz. Ele concordou. “É um livro incrível”. “E se parece muito com o que você faz”, eu disse. “É verdade.” Susan Sontag considerou a obra, lançada em 1937, um épico em defesa da imaturidade. Um romance malformado ou disforme. Como a produção de Nuno.

Na porta de sua casa, combinamos de nos encontrar na outra semana em seu ateliê – um galpão industrial de 600 metros quadrados com pé-direito de mais de 5 metros no Cambuci, bairro da Zona Leste. Aos nos despedirmos apenas nos curvamos como os orientais.

Nuno Ramos: Sol a pino, Galeria Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo (2019).

Na véspera de nosso encontro, segunda (16 de março), recebi um e-mail dele.

André,
Tô levando meio a sério esse negócio de isolamento – não tanto por mim, mas pelos outros. Estou reduzindo minha agenda ao imprescindível do imprescindível (…)

O negócio do isolamento foi a chegada do novo vírus (o Covid-19) ao Brasil. Havia casos notificados em São Paulo e as autoridades ainda não sabiam ao certo como agir, senão orientar as pessoas a não circularem e manterem-se afastadas umas das outras.

Até o fechamento desta edição não mais tivemos contato, mas Nuno havia me adiantado que uma de suas próximas obras seria uma instalação em torno de dois trechos de filmes de Glauber Rocha – Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe – em que personagens dizem uma mesma fala: A culpa não é do povo. Um par de televisores serão colocados frente a frente repetindo as cenas e o chão será forrado de lajotas e pães, por onde o público caminhará, quebrando e misturando as duas coisas. “Você já pisou em pão?” ele me perguntou naquela manhã em sua casa. Eu disse não me lembrar. “Uma vez saí da padaria e pisei sem querer num pão e fiquei impressionado com a força de pecado disso”, contou.

Na Philos impressa #6 você lê trechos exclusivos da entrevista e frases do Nuno Ramos sobre a Flip 2020, arte, o tempo, as minorias e um trecho inédito e exclusivo do seu próximo livro Fooquedeu (um diário íntimo), que será lançado pela editora Todavia no próximo ano.


Obras citadas: “Monólogo para um Cachorro Morto” – “111” – “Asa Branca” – “Direito à Preguiça” – “Non Sé” – “Sol a Pìno” “Ai, pareciam eternas…


André Nigri é jornalista e autor das ficções Paralisia (romance, 2018) e Com a Corda no Pescoço (contos, 2020), publicados pela editora Reformatório.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.