A coletiva Palabreria conversa com a Philos sobre feminismos plurais, América Latina e literatura e os processos artísticos e práticas pedagógicas encabeçadas pelas artistas pesquisadoras Fernanda Machado, Luiza Romão e Sofia Boito.

As violências contra as mulheres na América Latina nunca são apenas consequência exclusiva da opressão patriarcal, são um produto da história onde se entrecruzam colonialismo, racismo e exploração sexual e econômica. Isso significa que qualquer abordagem conceitual e qualquer possível solução deve ter em conta um recorte interseccional. Assim, como percebem e vivem o feminismo em seus respectivos contextos pessoais e sociais, sobretudo nos últimos anos onde, se por um lado falamos mais de feminismos, graças aos grandes movimentos sociais, temos uma afirmação de conservadorismos e autoritarismos na política e na sociedade?

Sofia Boito: Não há como negar que houve grandes avanços no que diz respeito aos debates feministas e na abordagem interseccional destes. De fato, os movimentos sociais na América Latina têm sido os propulsores de tais debates e de suas reivindicações (legalização do aborto, leis e iniciativas que diminuam as taxas do feminicídio, etc). Essa mobilização tem como ponto de partida, principalmente, os corpos das mulheres – ou corpos que performam gêneros dissidentes – que até hoje são vistos como corpos a serem governados pelo estado (no que diz respeito à reprodução), além de serem possuídos, reificados e aniquilados cotidianamente. Tais corpos reivindicam, então, seu direito à vida, à escolha e à liberdade. Essas reivindicações tomaram a fórmula de “mexeu com uma mexeu com todas” (“tocan a una, tocan a todas!”), criando um potente corpo coletivo latino-americano. Gostaria de citar aqui a cientista política argentina Verónica Gago que diz que “o que produz uma forma de ressonância e implicação é a composição de um corpo comum: uma política que faz do corpo de uma o corpo de todas“.  Esse grande corpo coletivo, que mobilizou uma massa considerável de mulheres, pessoas trans, pessoas não-binaries, teve um impacto grande em um momento da escalada do conservadorismo de direita nesses países. (Não por acaso, foi o movimento das mulheres que puxou a maior manifestação antibolsonaro no dia do “Ele não”. ) A força de tais manifestações não se dá, portanto, apenas pela luta política, se dá também nesse campo simbólico, pois ela apresenta aos homens cis, brancos, da elite, uma afronta ao poder patriarcal e colonial, do qual eles são representantes e pelo qual são privilegiados. Não é difícil imaginar o impacto da imagem que essa onda humana – não branca, não masculina, não heteronormativa – representa para o imaginário da elite patriarcal racista. A reação raivosa e agressiva dessa direita pode ser lida sob esse aspecto: o medo, e o susto, de se deparar com um grito de um corpo que nunca foi ouvido. Um corpo que foi silenciado pela violência patriarcal, um corpo reificado pelas leis do mercado, um corpo agredido e aniquilado pelo poder colonial. A potência desse feminismo está exatamente aí: em impor uma resistência coletiva, com esses corpos não normatizados e não hegemônicos, ao avanço neoliberal e conservador que a elite vem tentando impor aos países latino americanos.

E quanto ao Palabrería? Quais as inquietudes que dão origem a esta ideia e o que ela significa no nosso contexto histórico e social?

Fernanda A Coletiva Palabrería é formada por três mulheres artistas que, apesar da formação teatral, se reconhecem numa zona de fronteira entre linguagens artísticas, criando a partir da experimentação de mesclas. Nos encontramos como diretoras e dramaturga do projeto espetáculo da Fábrica de Cultura da Brasilândia no ano de 2015, um projeto sócio cultural administrado por uma OS. Trabalhamos por dois anos nesse projeto, criando junto com artistas adolescentes da periferia da cidade de São Paulo. Ali, vivenciamos um lugar de muita potência da arte, pois foram processos criativos completamente atravessados pela realidade sócio-política do lugar e muitas de suas questões – desigualdades das mais diversas: raça, classe, gênero e pela violência da polícia e do estado. Nesse espaço de experimentação com adolescentes da periferia de São Paulo, sentimos uma força fluida nessa trinca de artistas que formamos e essa força vinha com o desejo de fazer arte juntas. Verónica Gago diz que “O desejo possui um potencial cognitivo”, então partimos desse desejo de estar juntas, fazendo arte com o intuito de provocar reflexão e transformações. Habitamos um espaço entre literatura e outras manifestações artísticas e nossas criações são pautadas em estudos feministas e em práticas artivistas.

O que é possível fazer por meio da literatura? Para vocês, qual a função da palavra?

Luiza Romão: Eu gostaria de começar essa resposta citando a Gloria Anzaldua. Ela tem um texto muito interessante chamado “Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo”. Quando questionada sobre o que a impulsiona a escrever, ela responde: “Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome.” Nesse sentido, a escrita se torna uma possibilidade de deslocar as posições violentas que a realidade (hetero-cis-branca-patriarcal) impõe aos corpos femininos, racializados, dissidentes, do Sul Global. Óbvio que quando falo de Literatura (ou seja, a literatura com L maiúsculo, a literatura da tradição, a literatura institucionalizada), não estou falando de um campo neutro; pelo contrário, a literatura também foi (e às vezes, continua sendo) um lugar de poder onde a ideologia e os discursos dominantes operam. Em retrospectiva, fica evidente, por exemplo, como o cânone literário é formado hegemonicamente por homens brancos, assim como se acumulam os modelos de representações estereotipadas de personagens femininas. Tornar a escrita uma redistribuição simbólica do mundo e um lugar de insurgência, envolve repensar o que é literatura, o que entra nos espaços de visibilidade, o que é descartado, quais os suportes e materialidades do texto. Para mim, há um olhar para o passado – escavar nas ruínas da tradição outras vozes -, e um olhar para o futuro – imaginar outros paradigmas. A disputa é no corpo da linguagem, no corpo a corpo das palavras. Nesse viés, a produção contemporânea das poetas da fala, dos saraus e dos slams me mobiliza imensamente, tanto pelos temas que são discutidos quanto por borrar as fronteiras entre performance e literatura, arte e intervenção política, texto e corpo, sentido e voz, e tantas outros binarismos e hierarquias ocidentais. Gosto de pensar nessas poesias como palavra em estado de lança(-chama). Também foi com muita surpresa e alegria que, ouvindo a ativista e pesquisadora Cecília Palmeiro, soube que o #niunaamenos surgiu a partir de sarau. Pra mim, é simbólico de como o fluxo entre produção poética contemporânea e ação política direta pode instigar marés.

Um tema que também nos interessa são os movimentos ditatoriais nas Américas como sobrevivência de certos imaginários imperialistas no fundo da mentalidade de algumas sociedades atuais.  Estes têm uma tendência, ainda que mais ou menos velada, direcionadas por propostas racistas, machistas, xenófobas e, em muitos casos, reacionárias. Acabamos de publicar na Philos o especial Os 50 anos do AI-5 e os golpes políticos no Brasil e gostaríamos de refletir com vocês: Como podemos explicar o surgimento poderoso deste imaginário, que parecia estar latente, nas mãos de figuras como Bolsonaro e Trump, por exemplo?

Sofia Boito: Essa é uma pergunta complexa, difícil, e que, acredito, muitas pessoas estão tentando responder, por diversos pontos de vista. O que Trump e Bolsonaro revelam é que essas pulsões autoritárias, racistas e machistas ainda estão vivas em nossas sociedades. Essas figuras estão no poder “dando voz” a esse discurso, que até então estava reprimido ou adormecido. Um discurso que traz, mais uma vez, à tona o nosso passado colonial – como diz Grada Kilomba, o colonialismo não está no passado, ele se reatualiza no presente de diversas formas e em diversos momentos. É impossível dizer que nós “superamos” o colonialismo, ele está latente em nossa sociedade e enquanto não conseguirmos instaurar projetos concretos, eficazes, de longa duração, para tentar restaurar os efeitos violentos que o colonialismo criou nestes países, ele continuará a ser uma ferida mal cicatrizada no corpo latino-americano. Nos vemos agora ouvindo os mesmos discursos, com algumas diferenças, sem dúvida, do período da ditadura, porque também nunca olhamos de fato para ela. O Brasil, enquanto país, negou a possibilidade de se elaborar o trauma da ditadura. Mas, se por um lado há a volta desse imaginário autoritário, imperialista e conservador, por outro, também podemos observar a força da resistência que pode (re)nascer. É interessante perceber que entre as décadas de 60 e 80, enquanto as ditaduras latino-americanas estavam em plena ascensão, muitas artistas mulheres estavam produzindo performances e intervenções como forma de resistir, reagir e se opor a esses governos autoritários, conservadores e assassinos.  Podemos lembrar aqui de Ana Mendieta, Márcia X, Victoria Santa Cruz, Marta Minujín, Letícia Parente, Sonia Gutiérrez, entre tantas outras, que colocavam seus corpos e suas vozes em um combate direto com esses governos autoritários. Cabe-nos, portanto, enquanto artistas, inventar estratégias e formas para resistir, combater e criar outros imaginários.

Sofia Boito, Fernanda Machado e Luiza Romão pelas lentes de Sérgio Silva.
A América Latina é uma região de resistências e lutas históricas dos movimentos sociais e políticos, e não é diferente com os movimentos feministas latinos e suas representações na literatura e na arte. Quais as referências de vocês quando se tratar desses movimentos e suas lideranças?

Fernanda Machado: Essas resistências e lutas que você menciona estão na América Latina desde que os países foram invadidos por estrangeiros que vinham da Europa trazendo ‘educação’ para os ‘selvagens’. Gosto muito de lembrar a escrita de Sílvia Federici em seu livro “O Calibã e a Bruxa”, em que ela traz um entendimento diferente sobre a caça ao corpo das mulheres na Idade Média, financiada pela igreja e pelo estado  – (não consigo escrever o nome dessas entidades com letra maiúscula, me perdoem). Federici faz uma analogia ao personagem Calibã da peça teatral “A Tempestade”, de William Shakespeare, em que ele é retratado como um selvagem que abandona os costumes rurais e migra para a civilização, ou seja, se rende à domesticação pelos costumes de quem o coloniza. Foi assim com os povoados que existiam nas Américas: antes da chegada dos estrangeiros, os corpos eram considerados selvagens e precisam ser controlados e colocados numa fôrma de padronização importada. As lutas de resistência e preservação dessas culturas começaram desde lá e nunca cessaram, provocando abalos consideráveis nessa dominação capitalista. Pensando em revoluções, nos conectamos muito com a escrita de artivista boliviana Maria Galindo, que diz que nas Américas a luta é campesina, por direito a terra, e não se pauta pelas conhecidas ‘ondas’ que a teoria feminista considera como principais. Aqui, no lado sul do mundo, a luta pela liberdade é “agora, agora e agora!”. Outra referência recente de movimento que nos atravessou foi Un violador en tu camino, performance criada por Las Tesis, coletivo de mulheres chilenas, e apresentada pela primeira vez em um festival de teatro em Valparaíso. Depois dessa apresentação, surgiu a performance com textos da antropóloga argentina Rita Segato e trechos do estatuto da polícia local, evidenciando o abuso sexual como uma violência a que estão submetidos os corpos de mulheres. A performance se espalhou pela internet provocando um grande número de replicações e intervenções nos mais diversos países. Não à toa, esse movimento feminista parte da América Latina. Antes dele, outros surgiram com tamanha força como resposta à violencia e se fortaleceram através das redes. Como o #niunamenos que surge em 2016 na Argentina, logo depois de três casos de feminicídio chocar o país, e o #nonoscuidannosviolan que surge no México em 2019, depois de um caso de estupro de uma adolescente por quatro policiais. Também é muito importante falar da onda verde que vem com a campanha #abortolegal na Argentina, que desde 2018, tenta liberar o aborto no país, provocando discussões e ações das mais diversas. Essa campanha se espalha por outros países latinoamericanos e tem um lenço como bandeira “el panuelo verde”, um signo de luta que pode ser encontrado espalhado pelas mais diversas cidades do mundo. E, como não poderia deixar de mencionar o trabalho do Mujeres Creando, liderado pela já citada Maria Galindo, se trata de um coletivo de mulheres que realizam intervenções nas ruas bolivianas e mantém uma casa para acolhida de mulheres em situação de vulnerabilidade social, com cursos variados e uma rádio comunitária.

Essas são somente alguns dos muitos movimentos e ações que nos contaminam, pois felizmente estamos vivendo tempos em que articulações das mais diversas são necessárias.


A coletiva Palabrería nasce a partir de processos artísticos e práticas pedagógicas encabeçadas pelas artistas pesquisadoras Fernanda Machado, Luiza Romão e Sofia Boito. Nosso encontro inicial se deu por meio do Projeto Espetáculo, na Fábrica de Cultura da Brasilândia, onde desenvolvemos duas peças de teatro em colaboração com cerca de 40 adolescente Díptico (2015) e Ponto de Fuga (2017). Em 2018, nos reunimos, novamente, para fazer a performance Scripta Manent, Verba Volant sob direção de Luiza Romão, na biblioteca do SESC Paulista. Já em 2019, iniciamos um novo projeto que mescla literatura, teatro, cinema, performance e feminismo, desde uma perspectiva latino-americana. Em 2020, realizamos atividades formativas em ambiente digital sobre os temas citados, para o Centro de Pesquisa e Formação do SESC (CPF/SESC) e Oficina Cultural Oswald de Andrade; além da intervenção digital Palabrería feminista, com textos de Maria Galindo, Silvia Federici, Angela Davis, e outras. As fotografias que acompanham a entrevista são do fotógrafo Sérgio Silva.

Fernanda Machado é Doutora em Artes cênicas pela Universidade de São Paulo, Mestra pela mesma instituição e Bacharela em Comunicação e Artes do Corpo, pela PUC/SP (habilitação em teatro e performance). Principais trabalhos como atriz: Scripta Manet, verba volant, intervenção literária de Luiza Romão; Corpo_Cidade_Ficcões, de André Capuano; TeatroSolo, de Matias Umpierrez; Barafonda, O Santo Guerreiro e o Herói Desajustado e As Bastianas, com a Cia São Jorge de Variedades. Como diretora teatral: Ponto de fuga e Díptico, pelo projeto espetáculo da Fábrica de Cultura Brasilândia; Teatro da Vida Real, com a Associação Abrace; As relações naturais com a Santa Cia (assistência) e Um Homem é um Homem da Escola Livre de Teatro (assistência). Trabalhei como artista orientadora no Programa Vocacional Teatro (2012, 2013, 2016 e 2018). Atualmente investiga movimentos feministas na América Latina e as conexões com a caça ao corpo da mulher como bruxa na idade média.

Luiza Romão é Mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo. Bacharela em Direção Teatral pela Universidade de São Paulo (ECA/USP) e formada na Escola de Arte Dramática (EAD/USP). No teatro, trabalhou em coletivos como Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, Teatro Documentário, Cia Ato Reverso e com diretores como Rogério Tarifa, Cristiane Paoli Quito, Silvana Garcia, Lina della Rocca (Itália), entre outros. Seu último projeto autoral chama-se Sangria e além de mesclar cinema, performance e poesia, circulou por diversas mostras e festivais do Brasil e América Latina (Porto Rico, México, Cuba, Argentina, Uruguai, entre outros). Além disso, Luiza é poeta, com dois livros publicado pelo selo doburro/SP (Sangria e Coquetel Motolove); ademais, desde 2013, participa ativamente da cena de slams (batalhas de poesia) e saraus.

Sofia Boito é Doutora pelo programa de Artes Cênicas da Universidade de São Paulo (USP), é mestre pelo mesmo programa, tendo realizado suas pesquisas em torno da performance, fotografia e escrita, sempre com bolsa FAPESP. Em 2017 fez estágio de pesquisa de doutorado na Sorbonne Nouvelle – Paris 3, na França. Interessa-se em suas pesquisas artísticas e acadêmicas pela questão de gênero e pela urbanidade, tendo desenvolvido diversos projetos nesses campos. Trabalhou com coletivos e artistas de teatro e performance no Brasil, Chile, Dinamarca, Portugal, França e Itália; dentre eles: Cia Temporária (da qual foi uma das fundadoras); Teatro da Vertigem, V.AG.A*, TeaterKUNST, Cie Nathalie Béasse, TMV, Antonio Januzelli, Ana Borralho e João Galante, Cyril Désclès. Recentemente acaba de finalizar temporada do espetáculo JAZ, de sua concepção e interpretação, no SESC Belenzinho – para o qual fez residência de criação artística na Cité Internationale des Arts de Paris, França. Atualmente é professora temporária de dramaturgia e teoria teatral no Departamento de Artes Cênicas da ECA-USP.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.