O suplemento cultural da Philos de primavera conversa com a atriz Ana Flavia Cavalcanti. Para o editorial a artista fala sobre a sua carreira, ancestralidade, disparidades sociais e racismo, seu trabalho no cinema e no teatro, e ainda deixa uma importante dica de leitura para os nossos leitores. Aqui apresentamos uma preview da entrevista que será lançada na íntegra na edição impressa da Philos em dezembro. As fotografias que acompanham a entrevista são do incrível Jorge Bispo. Sem mais delongas, Ana Flavia na Philos:

Ana, a primeira vez que você me tocou foi em Serviçal. Alguns anos depois em A Babá quer passear, que vi em São Paulo, talvez nos Jardins. Em todas elas existe uma sede do que eu vou chamar de vontade de atravessar pelo sentimento: pela dor, pela reflexão da tristeza, sobre o riso… Quais são os sentimentos que te permeiam – as sinestesias do teatro, da performance – nesse processo de arte que fala sobre racismo, sobre feminismo, que educa e ao mesmo tempo te atravessa?

O que mais me moveu foi a raiva, a indignação de botar para fora meu sentimento, meu movimento artístico. Eu acho chique falar de sentimentos e sigo falando, acho importante agregar esses desejos de ser isso e ser aquilo que temos. Esse atravessar pelo sentimento, atravessa a todos, não importa o nome ou quem é, mas sim o que acontece quando isso, o sentimento diante da realidade, vem à tona. Pessoas e coisas que sentem, que se despertam por um diálogo, por uma comunicação, ora por um desejo que converge e ora por desejos que já convergiram… Eu sofri e fui impactada por vários atravessamentos de outros corpos com A Babá quer passear, de gente que amava e vinha falar comigo, de gente que achava um absurdo a performance, ou mesmo o desprezo. Nós temos uma relação muito difícil e muito doente entre patrão e trabalhador doméstico.

Eu lembrei muito de A Babá quer passear no trágico dia da morte, ou melhor, do assassinato do menino Miguel, em Recife. E como esse caso se tornou apenas mais um recorte das disparidades sociais, do racismo estrutural… O que ainda precisa ser dito, Ana? E como sua arte faz isso por você e pelo outro?

Eu fiquei muito emocionada, devastada. Eu chorei demais com a morte do Miguel. Eu sou fruto de várias vidas que foram atravessadas por essa realidade, a minha mãe foi trabalhadora doméstica, assim como as minhas tias foram, as minhas avós e minhas bisavós também foram trabalhadoras domésticas. A minha primeira questão é pensar em uma família de mulheres que tiveram suas vidas dedicadas ao outro. Mas um outro que não as tiveram (e não as têm) como família. A família do patrão não é a sua família. É como se você fosse mais um dos seus objetos de posse. E essa questão da posse vem junto com outra questão que é importante, a da limpeza, a da limpeza excessiva, qual o problema em ter sua casa não arrumada naquele dia? Por que você não lida com as coisas que você faz, que você suja? É uma forma de manter as bases da coisa, todo o nosso trabalho era servil, a gente não convivia com o cotidiano, ele era escravizado, nosso trabalho dado de graça, a gente sempre era oferecido, nossa desvalorização é associada ao nosso corpo. Ainda precisamos falar sobre isso, reafirmar posições. Enquanto a gente viver em um país com meritocracia, tudo desmorona e não importa como você chegou até aqui, sabe?

Ana Flavia Cavalcanti pelas lentes de Jorge Bispo.
Ana, nós somos a revista das latinidades, e como não poderia deixar de ser, refletimos sempre nossas construções sociais, políticas, étnicas e culturais, como elementos de percepção e entendimento de uma cultura de latinidade distante dos olhares coloniais. E nesse olhar dos diálogos afro-atlânticos, dos povos originários, da cultura de terreiros, dos canaviais e das manifestações do povo, como você enxerga a nossa latinidade? Quais os elementos de sua ancestralidade?

A minha ancestralidade é muito forte na umbanda, que tem uma influência de matriz africana, do vodu, do candomblé, com ifá, a gente tem muito da cultura indígena e brasileira de modo geral. Parece que tem um pra cada, a umbanda contempla praticamente todos os grupos brasileiros: tem o homem malandro, a mulher que é super empoderada – inclusive já fiz um trabalho que eu pirei muito com ele e queria desenvolver mais, com pombas giras, com as Marias Padilhas, as Ciganas, as Mulambos, as Setes Saias, enfim… Tem uma coisa muito forte aí nessa mulher que gosta de si, que gosta de dar, que é poderosa. Eu acho lindo esse ponto que fala: Arreda homem que aí vem mulher! Que os homens abaixem, que os homens se curvem, que os homens nos escutem, acho que tem a relação com o povo do Nordeste, por meio dos boiadeiros, do povo sertanejo, contempla os ciganos – povo que veio de outra parte do mundo, as crianças, os pretos velhos, os caboclos. Enfim, a minha ancestralidade vem de tudo isso, de ontem que a gente comemorou Cosme e Damião [conversamos no dia 12 de outubro], e eu peguei muitos saquinhos de doce a minha vida inteira, a primeira macumba que eu fui na vida, a primeira gira que eu vi acontecer na minha frente foi numa festa de Erê, e eu fiquei impactada como eu fico até hoje, principalmente em gira de Erê que é uma conexão nossa com nossa ancestralidade e nossa fase mirim (nossa infância) que não acontece em qualquer lugar. Não é em qualquer espectro da sociedade que você dá conta de receber e acomodar em si um monte de gente adulta dançando no chão, se rolando, tomando guaraná com maria mole, passando na cara, falando com voz de criança, eu acho isso de uma libertação, de uma força, sabe? Que a gente precisava praticar mais, sair tanto do controle de si, né? Então é isso, é essa força da Umbanda. Apesar de eu praticar o Candomblé eu sinto que a Umbanda é mais diversa, ela abre muitas outras possibilidades de ser, e contempla todo mundo, tem oferta, tem comida, tem música, tem toque pra todo mundo, ou seja, todo mundo é bem vindo! Não tem mais inclusiva que a Umbanda, sabe? A Umbanda desde sempre, a umbanda e o candomblé recebem muito bem os LGBTQ, todas as bichas tão lá, as sapatões tão lá, os bissexuais tão lá, as trans tão lá, as travestis… Nossa! Eu conheci e convivi com algumas travestis ao longo da vida indo a terreiros. Então vem daí. E se não vem daí, eu gostaria que tivesse vindo. Essa é a maior força latina em mim, sabe? E é engraçado que tem muitas pombas giras que falam espanhol, né? E é louco por que não temos essa prática, não é? Infelizmente mais um dado que nos afasta, que nos distancia, mesmo a gente tão pertinho, colado… Eu acho muito maravilhoso que as Pombas Giras falam em espanhol, eu acho o link total [gargalhadas].

Ana, como não poderia deixar de ser, uma revista de literatura tem que perguntar quais os livros que você leu e que te impactaram ou quais suas indicações de leituras para a Philos?

Sobre a leitura, eu queria indicar o livro Amarelo e Marrom, um livro do Paulo Scott, eu li outras coisas mas eu acho que esse livro me causou uma fissura. Não exatamente uma fissura, mas uma coisa ali que me pegou, que é um pouco: Ele começa a discutir a questão do tom da pele. Eu não gosto da expressão colorismo, porque parece que é um caderno de pintar a cores, e não é sobre isso. O termo me soa um pouco leviano demais. Mas na falta de outro adjetivo, vamos nesse. Mas o Paulo ele conta a história de dois irmãos, filhos dos mesmos pais, o mesmo pai e a mesma mãe. O pai é um preto e a mãe é uma parda e eles [os filhos] nascem cada um de uma cor, um bem preto e o outro não [o narrador]. E ele conta as vivências que eles tiveram mesmo tendo as mesmas saídas, mesmo crescendo juntos como irmãos próximos, tinham praticamente a mesma idade, estudavam na mesma escola, moravam na mesma casa, mesmo tudo, mas não o mesmo atravessamento na vida. E esse livro chega num momento interessante, não poderia ter chegado em outro. Que apesar dos desmontes das políticas públicas pensadas para populações de minorias em direitos, mas maiorias em número de gente. A gente já chegou num ponto, começamos a caminhar para esse ponto, que é dentro da narrativa com esse recorte racial de pretos falando sobre pretos, pretos falando sobre o que vivem, o que gostariam de viver o que não querem mais viver, movimentos negros se relacionando. Eu acho que a gente caminhou muito, sabe? Eu acho que a gente andou, deu vários bons passos e caminhamos tanto que eu acho que agora a gente possa começar a falar sobre essa questão da cor da pele, né? O que é que faz uma pessoa ser negra? O que é que não faz? O que é que impacta você ter a pele clara ou ter a pele escura? Quem pode dizer se você é ou não negro? E o quanto que isso fortalece ou enfraquece? No meu ponto de vista eu sinto que essa discussão enfraquece. Essa divisão ela é uma estratégia também desse racismo estrutural que está em tudo. É um jeito também de você dividir uma população que já é muito fragmentada em direitos sobretudo, e de autoestima e de como se ver no mundo. Então o Paulo tem essa excelente intuição e o livro começa com uma reunião. O irmão amarelo trabalha com muitas coisas, mas ele está dando consultoria para o governo numa Secretaria que está discutindo política de cota racial e desenvolvendo um aplicativo num sistema que vai dizer se a pessoa é ou não negra. E como é que esse aplicativo vai funcionar? Quais são os critérios? E o livro é muito forte, mexeu muito comigo. Eu ainda não tinha conseguido nem atinar e nem perceber em mim completamente o fato de ser uma mulher parda, eu muito recentemente, até acho que pelo tanto de anos que eu tenho – que são 38 -, a minha construção racial foi acontecendo muito aos poucos, eu cresci, fui criança no final dos anos 80, adolescente nos anos 90, então fui muito invisibilizada e totalmente induzida a me embranquecer. Desde tudo, do cabelo, da maquiagem, eu lembro que um dos primeiros trabalhos que eu fiz como atriz e modelo fazendo fotos e até hoje – recentemente eu fui fazer uma sessão de fotos o maquiador fez uma coisa pra afinar meu nariz e eu falei que não. Eu falei: Não faça isso por favor, não faça mais isso, não faça com ninguém isso. Porque em tudo isso são metodologias racistas, né? E foi muito louco porque foi um maquiador preto, também! E ele ficou chocado, mas foi positivo porque ele foi desperto para uma prática que ele tinha e também não percebia. E foi incrível, a gente teve uma discussão muito boa a partir desse momento. Mas eu comecei a me autodeclarar negra já depois de ter passado pela minha adolescência e foi muito importante para minha construção de ser humana e de mulher negra, periférica, favelada. Eu cresci em algumas favelas. Então fez toda a diferença na minha visão do mundo e de como o mundo começou a me ver, me enxergar quando eu disse: Chega desse alisamento, chega desse permanente afro. O que quer dizer permanente afro? Permanente afro é o meu cabelo que já é afro! Isso que é permanente, sabe? E a gente tem, esse é um caminho ou uma linha divisora muito forte na questão fenotípica, pensando em traços negróides, o que é que diz se você é branco ou não no Brasil? Eu tô falando a minha opinião. Eu não sou nenhuma teórica, filósofa ou especialista, mas eu tô viva e eu tô sacando que as coisas acontecem, né? Tem a ver muito com cabelo, sabe? Que cabelo que sai da sua cabeça? Como que ele é, qual que é a textura dele, qual é a cor dele? Ele cai, ele não cai? Ele sobe? Entra água ou não entra água? Penteia fácil ou não penteia? Tem que usar creme condicionador ou não tem? Se passar muito condicionador o cabelo fica mais oleoso? Então, tudo isso vai dizendo muito de onde você vem, né? E isso conta muito a sua história. Qual é o seu berço? Que berço que você foi embalado? Então parar de responder no senso parda ou branca, começar a responder negra, fez todo o sentido pra mim. E agora, já alguns bons anos depois eu sinto que tem uma demanda de uma parte do movimento negro, de pessoas negras com a pele escura que reinvidicam essa, não essa exatamente essa negritude, mas esses direitos ou se colocam muitas vezes como tendo que dividir direitos com a população parda que não passa exatamente pelas mesmas coisas… Então eu acho que se tem uma demanda a gente tem que ouvir, a gente tem que escutar e a gente tem que dialogar, né? Para ter um entendimento assim reto, né? Um papo reto e entender como a gente pode se potencializar ainda mais, não uma conversa que invisibiliza e põe o outro pra fora, né? Nos dois sentidos. Quem faz parte, a maior parte mesmo da população brasileira são os pardos, né? E quando junta pardos e pretos, a gente tem aquela abinha que o senso chama de os negros. Os negros no Brasil são a junção de quem auto se declara pardo e de quem se auto declara preto, então assim também é muito forte essa força dessa maioria parda, dessa maioria mestiça, dessa maioria que tem uma descendência africana e que por conta disso toda a existência dessa população, dessas pessoas e da minha vida e da sua será atravessada por isso, e num país racista como o nosso que foi o último a abolir a escravidão, o último! É muito sério isso! Uma gota, uma gota preta num pote branco faz toda a diferença, faz toda a diferença mesmo! Enfim eu tô falando desse livro, já falei muita coisa mesmo, 8 minutos, Jesus amado! Coitado de quem for transcrever! Mas eu acho que essa discussão é muito afrofuturista, assim. É importante que a gente fique bem ajustado, bem alinhado, sabe? Que não corramos o risco de nos perder no caminho.

Ana Flavia Cavalcanti pelas lentes de Jorge Bispo.
Por fim, que reflexão ou que pergunta você deixaria para os nossos leitores, Ana?

Uma pergunta eu não sei não. Mas uma reflexão, que a gente tinha falado aquele dia e eu sigo com ela, que é assim: E eu acho que tem a ver com o novo trabalho da Beyoncé, que eu acho que tem a ver com a nova galeria da Igi Ayedun, a HOA.TOUR. Não sei se você conhece a Igi, ela é amiga do Lucas e da Cynthia também [o Lucas e a Cynthia são dois amigos em comum] -, a Igi acabou de abrir a rua que é a primeira galeria negra brasileira, a , ela é uma galerista negra, é um fenômeno nas artes plásticas, é um fenômeno esse acontecimento, é um fenômeno também a gente ter sido – as mulheres negras-, as mais premiadas no Festival de Gramado deste ano. Todos os grandes prêmios foram dados para mulheres negras. Essa reflexão que eu quero propor é a reflexão do sim, sabe? É a de ter políticas na vida pessoal e profissional (tudo meio que se mistura pra mim) mas de quando eu decido contar uma história, o recorte, o lado que eu quero contar que parte que eu quero falar, e de que maneira tem sido, e eu acho que por um longo tempo será aquele lado que rolou, sabe? É aquele lado que deu certo, eu tô muito a fim de trabalhar a suavidade, porque para seguir adiante, para pessoas com o nosso histórico, né? Nossa situação… A gente precisa ter muita força, muita determinação. E a gente vive muitas coisas, todo mundo, os mais variados tipos de violência, de escravidão, de tortura né? São muitas formas e daí você precisa ir ficando muito forte, muito forte e você vai observando as coisas e você vai ficando raivoso, né? Por que a indignação ela te toma, né? A injustiça é visível, ela tá na tua casa, na casa do teu vizinho, no bairro inteiro, num BRT lotado. Então você vai pegando tudo isso e tendo que jogar em algum lugar. E daí ativistas, artistas, pensadoras, eu acho que a população que tem esse desejo, esse impulso e essa demanda de se colocar, né? E de pautar um futuro um pouco mais justo ou igualitário, menos injusto, vamos começar por aí. Pode e desenvolve, como é o meu caso, um dispositivo muito raivoso em relação a vida e muito agressivo. E é assim mesmo a gente tem que ser, se não for, não vai! Não chega! A fala não é ouvida, entendeu? Então você tem que estar o tempo todo pedindo a fala, exigindo o microfone, querendo dizer, se colocando, exigindo seu pedaço de bolo. E aí isso depois de um tempo, no meu caso, por exemplo, suavizou. Porque a minha voz tem chegado cada vez mais, de pouquinho em pouquinho, eu também estou me assentando em mim, também estou reconhecendo em mim novas formas de ver e de encarar e de não me afetar tanto, né? Pra poder ter saúde mental, pra poder ter autocuidado, assim, e recentemente eu fiz um teste e eu falei um texto da Angela Davis. E ela termina falando que ela acha que: o autocuidado entre pessoas negras reconhecem a conexão entre luta e arte, e entre a beleza e a imaginação. E eu achei isso muito forte, porque é exatamente isso. A gente consegue. O autocuidado feito por pessoas negras, o autocuidado, o cuidar de si, o cremosinho, o fim de tarde, o café com leite, tudo que tem como delícia para você eu acho que a gente, nós negros, a gente consegue reconhecer que essas coisas estão conectadas, que tem uma conexão entre luta e entre arte. Então você luta para produzir arte, a sua arte é sua luta. E também essa conexão entre a beleza e a imaginação, eu acho tudo isso muito foda, é muito poético pra mim. Porque é isso que a gente faz, né? A gente também imagina e tudo que a gente faz é muito lindo, cara! É sério! E é por isso que eu estou deixando essa reflexão. Porque a beleza que a gente produz ela é muito única e é isso que eu quero fazer, eu quero produzir mais beleza e quero viver nessa onda suave, sabe? E a suavidade só vem com cuidado, com poder se olhar, com ter tempo pra ser ver, quando as coisas começam a dar certo você não precisa mais estar no meio, ou estar no front ou no meio da batalha, e pra todo lado que você olha você vê inimigos, sabe? E quando passa essa fase – e essa fase não exatamente passou para mim, mas ela começa a se desenhar como se estivesse em um outro ponto agora, sabe? Desse combate, assim… Então eu queria propor a reflexão a partir dessas palavras da Angela Davis, que é esse reconhecimento da população negra que se cuida, que se autocuida, que reconhece a conexão entre luta e arte, entre beleza e imaginação.


A entrevista completa com a artista você lê no suplemento cultural da Philos de dezembro. Ana também é nossa convidada no caderno da Philos #6 de primavera e publicará um conto inédito conosco.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.