Zona de investigação autônoma

Esse espaço convida pesquisadores a orbitarem o campo contrafaccionista durante um ciclo de 3 meses, pensando o desdobramento das investigações do convidado a partir do encontro com a ideia de repensar a tarefa de pensar o mundo.

[ética poética]

por Vinícius Costa

Teve um final de semana em que o Jerônimo me ligou pra pedir algo que não se sabia bem o quê, mas que ele sabia que estava “fazendo uma encomenda”. A ideia era que eu produzisse algo pra ser publicado na Revista Philos, que tivesse a ver com o que posto nas redes e também com a minha prática de psicanalista. Ficamos um tempo conversando sobre psicanálise, arte, poesia. Ele me contou sua motivação a partir de um poema de Hilda Hilst: “repensar a tarefa de pensar o mundo”. Era a primeira vez que alguém me pedia uma encomenda. Não sou um artista profissional, tampouco sei dizer o que é isso que eu posto, se é arte, obra, poesia, meme ou nada. Mas o pedido de Jerônimo me botou a trabalhar, a repensar o que eu faço.

Sendo a primeira vez que me encomendavam algo, também repensei a relação com o que eu crio. Fiquei até com receio de, ao invés de repensar, acabar pensando demais, como no caso da centopeia dançarina, que dançava tão bem, mas paralisou depois que a barata lhe perguntou “com qual par de pernas começa a dançar?”. Por não precisar responder encomenda alguma antes, tudo o que eu criei até hoje não teve periodicidade, acontecendo no tempo das coisas que eu vou escutando por aí – não sei ainda dizer se eu repenso essas coisas, mas acho que 𝘳𝘦𝘦𝘴𝘤𝘶𝘵𝘰 muito do que ouço. A verdade é que quase nunca eu crio algo, mas edito o que outras pessoas dizem, tanto dentro quanto fora do consultório – e agora em época de pandemia com a noção de “consultório” em suspensão, diria dentro e fora do “lugar de analista”. Mas será que esse lugar de analista não é também ocupado quando eu brinco com as palavras fora de um dito de um analisando?

Quando se diz que há na psicanálise um posicionamento ético, trata-se de pensar o que ocorre na experiência analítica, e que essa experiência não tem a ver com o divã, com um tempo de cinquenta minutos ou com um preço. Quando Freud disse pra sua histérica que ela mesma falasse de seu sintoma, isso inaugurou também o repensar do lugar médico. Por que só das pessoas irem ao médico e falarem do que padecem, isso já promove alguma cura? Freud percebeu que nesse “falar pra outro” havia um campo valioso de tratamento a ser explorado. Mas que então haveria também um trabalhão – talvez o trabalho de toda a vida de Freud – de fazer dessa queixa inicial uma implicação do sujeito que a diz. O sintoma convoca o sujeito a se responsabilizar sobre o que se queixa e que essa responsabilização constitui um percurso de trabalho de análise. Resumindo, a psicanálise não remove sintomas, como se espera de um tanto de outros tratamentos médicos, mas ela produz analistas. Pelo dito, ela produz um repensar daquilo que se queixa. E isso é fazer análise.

E se pensamos que no ato freudiano há uma ética do “fale você do seu sintoma”, isso também toca a dimensão poética do dizer. A relação do sintoma com o sentido linguístico é uma descoberta freudiana e Lacan repensará até os próprios conceitos, fazendo da poética um método de transmissão. Lacan brincou um tanto com as homofonias de sua língua francesa, fazendo, por exemplo, da “perversão” (𝘱𝘦𝘳𝘷𝘦𝘳𝘴𝘪𝘰𝘯) um “pai-versão” (𝘱é𝘳𝘦𝘷𝘦𝘳𝘴𝘪𝘰𝘯), pra repensar a perversão fora da moral e reconhecendo no perverso uma “versão de pai” – e que, aliás, costuma ser muito dedicado à lei de seu gozo. Também brincou com o “sintoma” (𝘴𝘺𝘮𝘱𝘵ô𝘮𝘦) fazendo dele um 𝘴𝘪𝘯𝘵𝘩𝘰𝘮𝘦 cujo som nos lembra do “santo homem” (𝘴𝘢𝘪𝘯𝘵𝘩𝘰𝘮𝘮𝘦). Há uma santificação daquilo que padecemos, como no caso de algumas neuroses obsessivas com seus paralelos quase religiosos – pisar só no preto da calçada, ou girar a chave três vezes antes de fechar a porta – e que nos remete a verdadeiros ritos sagrados.

Tento aqui trazer alguns exemplos sobre a relação da psicanálise com a subversão do sentido. Não é essa sempre a direção de uma psicanálise. Há aquelas que não tratam subversivamente o sintoma, mas pelo contrário, fazem dele um sentido fechadinho e embaladinho que o sujeito leva pra depois consumi-lo em casa. Quando um diz que tem conflito no trabalho com o chefe, lá vai o analista dizer que “isso tem a ver com sua relação paterna” ou então se fala dos problemas com a namorada, que “isso aponta para algo não resolvido com a mãe”. A ideia de subversão é o que Lacan propunha já na própria forma do seu ensino. A (po)ética com a qual tratou termos como “perversão”, “sintoma” e tantos outros deixava em suspenso esse lugar do 𝘦𝘯𝘵𝘳𝘦, conduta contrária dessa que troca um sentido por outro. Não se trata de substituir a verdade de um dito por outra verdade, mas de apontar pra algo da própria produção de sentido. Tal como um sentido, o sintoma é produzido pela entrada do sujeito na linguagem, e o sujeito não se dá conta disso. É nessa suspensão que toca o tempo e leva o sujeito a ficar entre uma e outra coisa que estaria o inconsciente.

O inconsciente seria menos o encontro de um sentido escondido e que se revela, e que faz do lugar do analista um lugar de maestria que vai dizer a verdade sobre o sintoma, mas mais essa possibilidade de tocar o 𝘦𝘯𝘵𝘳𝘦 sentidos. Diz-se que o neurótico procura uma espécie de “mito individual” sobre sua história. O que diferencia o mito de uma ciência assertiva é que o mito funciona quando é contado por várias bocas diferentes. Quando um povo se junta à noite pra contar o mito do Deus Sol, não há um que vai dizer se aquele mito está correto ou não, mas entende-se que cada um possa contar sua versão, e esse contar de uma à outra boca organizava um coletivo: há um mito universal em comum pra aquele povo, com seus elementos fundamentais, e há o singular de cada um que conta. E há algo 𝘦𝘯𝘵𝘳𝘦 o universal e o singular. Com o advento da indústria, das cidades, dos apartamentos e dos lares com corredores e quartos privados, foi-se perdendo o valor do mito e do contar, pra dar lugar a uma única verdade adquirida via wifi ou 5G. As coisas passaram a ficar muito certinhas, a razão passou a predominar. Mas vemos também na clínica que se um tem certeza demais do seu sintoma, repetindo a si mesmo que é assim por causa do papai ou da mamãe, isso vai dar ruim.

Concluindo essa primeira investigação entre psicanálise e poesia, poderia dizer que tanto uma quanto a outra se encontram nessa tarefa hilstiana do repensar. Ambas repensam o sentido, ao pensar também no que lhe escapa.