Aluna se abre sobre raça, sexismo e música, em uma entrevista com Ana Monroy Yglesias e tradução de Amanda Álvares.

Em carreira solo e conhecida somente por um nome, Aluna está mais aberta e honesta que nunca, discutindo os obstáculos que enfrentou na indústria musical e o que lhe dá esperança para o futuro…

Aluna Francis é uma mulher de negócios. Ela tem uma forte pegada nas pistas de dança ao redor do mundo como parte do duo britânico de música eletrônica AlunaGeorge, com o produtor George Reid, desde que o par estreou na cena eletrônica britânica em 2013, graças à plataforma SoundCloud.

O remix feito pelo DJ Snake em seu single de estreia, “You Know You Like It” (inicialmente lançado em 2012), levou o par ao maior hit até hoje – atingindo o número #13 no Hot 100 da Billboard em 2015.

O domínio continuou com “I’m in Control” (2016), com participação de Popcaan, e eles apareceram também no feat “White Noise”, com o duo Disclosure, em 2013.

Depois de praticamente uma década sendo uma das raras mulheres negras liderando a dance music moderna – solitária, mas ao lado de outros contemporâneos artistas negros como Kaytranada e Flying Lotus – Aluna tornou sua missão pisotear a exclusividade branca na indústria.

A cantora londrina de 32 anos juntou essa jornada e transformou-a em Renaissance, seu álbum solo em que estreia somente como Aluna, lançado no dia 28 de agosto. Sua mensagem desafia expectativas do que a dance music eletrônica deve ser para uma audiência mainstream, lembrando-nos das raízes do gênero e de músicos da diáspora africana, como Black Coffee e Frankie Knuckels.

Como parte do desenvolvimento do álbum, Aluna compartilhou uma carta aberta no Instagram desafiando sua comunidade a ser ativamente inclusiva. “Muitos de nós sabemos que a dance music não foi inventada em 1988 na Europa. Sua história real ainda deve ser espalhada e apreciada já que ela foi virtualmente apagada,” ela escreveu. “Dance music é música de protesto, libertação da opressão, então é amargamente irônico que ela seja apropriada pela comunidade branca, que tanto enterra sua rica história quanto exclui a maioria dos artistas negros de um gênero que sua comunidade inventou”.

Como produtora executiva do Renaissance, Aluna regeu cada parte do álbum, até mesmo como ele seria visualmente representado. “Antes [da morte de] George Floyd, era como você disse, ‘Eu quero uma pessoa negra [para trabalhar comigo]’, e isso era, de alguma maneira, ofensivo a todas as outras pessoas”. Ela relembra sua busca por diretores de vídeo negros: “É estranho quanto tempo levou até que eu agisse tipo ‘Vocês vão ter que jogar fora todo o projeto a não ser que me encontrem um diretor negro.’ Eu sei que vai levar mais tempo, mas é importante.”

Gravando parte do Renaissance enquanto estava grávida em 2019 [sua primeira filha, Amaya, nasceu em novembro], Aluna usou a maternidade, assim como a renascença negra que começou a explodir nas artes, como combustível para focar na sua visão. O resultado é uma jornada com dois propósitos que abre níveis identidade criativa enquanto faz você querer correr desesperadamente para a boate mais próxima no minuto em que isso for seguro.

Como você tem lidado e enfrentado 2020?

Há duas direções que a maioria das pessoas seguiram. Uma onde suas vidas foram diferentemente afetadas ao ponto de perder mais dinheiro do que se pode e de perder seus negócios. Isso pode levar você a uma espiral descendente onde a depressão se instala e você se sente como um animal enjaulado. Outra é das pessoas como eu. Eu tinha escrito um álbum inteiro antes disso acontecer então durante esse tempo eu estive mixando e masterizando. Eu tive a oportunidade de evitar distrações e não há desculpas para não lidar com as coisas que estão te travando. Toda semana eu me sinto como se estivesse lidando com algo diferente e dizendo para mim mesma, ‘tudo bem, você tem que trabalhar essa falha na sua personalidade, vamos lá!’ A lista de afazeres se tornou, na verdade, sobre trabalhar em si mesmo!

Aluna Francis pelas lentes de Jeremy Paul Bali (2020), cortesia da Paper Magazine.

Em que medida a música foi um escapismo para você?

Tem sido um puta presente de Deus. Estou criando um recém-nascido no momento e nós estamos todos em uma casa. Dois anos atrás, eu comecei a procurar ativamente por dance music feita por mulheres negras e pessoas negras – é um trabalho de escavador que se tornou completamente desgastante – é raro encontrar uma mulher negra criando dance music. Então, durante a explosão depois da morte de George Floyd, isso se tornou um foco que foi ampliado pela habilidade de falar de racismo, da minha experiência e da minha opinião sobre isso. Eu realmente não pensava que alguém ligaria para isso antes, eu só fiz isso por mim porque eu sou uma mulher negra na música e eu preciso sentir que há outras mulheres fazendo isso e irrompendo nessa parte da indústria que é muito segregada e saturada por homens brancos de classe média. Eu não quero ser a única a fazê-lo – quero mudar isso para todas as pessoas negras.

É tão difícil ser uma mulher na indústria da música e a questão da raça adiciona mais uma camada a essa luta. Quais foram os obstáculos que você teve que superar?

Várias portas são fechadas para você e o que você acaba tendo que fazer é escolher suas batalhas porque existem desafios em cada um desses departamentos. Eu acho que ter uma pele mais clara como uma mulher negra significou que eu pude escolher minhas batalhas uma a uma. Por exemplo, no início da minha carreira, eu me assimilava muito. Eu alisava o cabelo e nunca falava sobre raça – para ninguém. Eu só aceitava o desafio como algo que era simplesmente constante. Eu ainda fingia que ‘isso não me afeta, eu sou a exceção da regra.’ Eu me foquei majoritariamente na questão da luta contra a discriminação sexual e em fazer música boa. E cheguei ao ponto em que eu pensava que se eu fizesse algo que não foi feito antes, ninguém poderia me dizer que eu não era convincente. Eu tentei tocar música indie com um violão, e as pessoas ouviam e diziam ‘só não é muito convincente! Talvez você devesse tocar R&B ou Soul, porque você realmente tem uma voz linda’. Quando tentei estar em uma banda, foi pura fantasia. Nem mesmo uma pequena porcentagem de mim acreditava que eu deveria fazer aquilo como artista indie – eu pensava, as pessoas podem dar risada assistindo a uma garota negra tentar ser uma artista indie no palco. Então eu descobri essa arte de mergulhar no avant-garde do mundo eletrônico onde não há regras – é livre para todos.

Você acha que ter tido uma filha te deu um novo ímpeto para se assegurar de estar levantando essas vozes e garantindo que você está criando um mundo melhor?

Na verdade, eu acho que minha maior motivação são os momentos passageiros em que eu ajudei uma jovem negra a ser vista, ou eu estive em algum lugar com mulheres negras de formas criativas, e perceber o que isso me fazia sentir. Há algo indescritível, caloroso e natural sobre isso que é bastante viciante quando você o sente. E então você percebe que muitas pessoas não-negras experienciam isso com uma certa frequência, esse tipo de sentimento de sentir-se em casa, de ter opiniões semelhantes. Quando eu fiz meu tour do ‘Champagne Eyes’, eu decidi que só teria jovens negras para me apoiar. Eu me lembro de como foi, garotas nunca teriam colocado garotas em suas vagas de apoio antes, então foi uma pequena rebelião, engraçado fazer o completo oposto.

Você se sente mais numa irmandade na indústria da música agora do que quando você começou?

Eu acho que há potencial para isso. Acho que temos muito a fazer e a interseção de raça e gênero significa que você acaba focando-se em um de cada vez, o que, de certa forma, é engraçado. Eu vi mulheres se unirem e muitas vezes isso não significa um equilíbrio entre mulheres negras e brancas, e você pode ter pessoas negras reunidas, mas não mulheres negras, etc.

Qual você acha que foi a mudança mais sísmica que você viu na música?

O hip hop se tornar música pop e simplesmente ver o quanto isso foi bom para a indústria musical. O conteúdo lírico do hip hop é tão rico e ter todas essas letras transbordando para cada aspecto da nossa cultura popular é incrível. Mas obviamente há áreas problemáticas com isso. Número um sendo a misoginia discutida no hip hop. Mas a jornada de pessoas negras tem sido basicamente documentada nessas letras também e isso é algo que eu nunca esperaria ver.

Por que você sentiu que esse era o momento certo para ir para a carreira solo?

Havia algumas coisas, num sentido puramente egoísta, que eu não conseguia expressar como parte de um duo. Eu podia sentir que eu estava começando a fazer isso dentro do AlunaGeorge, e então as coisas não pareciam tão naturais. Eu não conseguia me entregar. Eu só queria assegurar que as coisas que estou fazendo são porque eu quero fazê-las, e não porque eu estou com medo de fazer algo ou porque estou confortável fazendo alguma outra coisa.

Como você encontrou seu processo criativo?

A música é uma forma de arte colaborativa, mas quando você está em um duo, você é mais diplomático sobre quem tem a voz final. Eu tinha essa voz em cada aspecto; o que era divertido. Eu sabia exatamente o que eu queria, como explicar e como conseguir isso. Isso se tornou uma boa ideia porque o álbum que obtive ao final realmente explora toda minha herança cultural e minha criação, e todos os sons diferentes que eu escutava quando criança.

O álbum se chama ‘Renaissance’. Qual foi a inspiração por trás disso?

Eu estava vendo pessoas negras fazerem coisas para si, por diferentes meios, que vão diretamente contra o status quo. Eu fiquei impressionada com isso porque demanda uma certa quantidade de energia ir lá e fazer o que você quer fazer, apesar das pessoas que vão te julgar por isso. Isso era muito inspirador de se ver, então eu decidi ter minha própria renascença.

O recente movimento Black Lives Matter trouxe temas como esses à tona para todos. Você sente que a mensagem do álbum tomou algum novo significado?

Eu jamais poderia agradecer a George Floyd pelo efeito que ele teve no mundo, mas eu sou grata pelo movimento que aconteceu a partir de sua morte. Eu nunca tive conversas com a mídia, com meus amigos ou com artistas que trabalho no nível que estou tendo, e isso significa tudo para mim. Eu acho que muitas pessoas que seguiram minha carreira diriam que elas gostam da minha música mas que elas não necessariamente sabem quem eu sou, ou se identificam comigo em algum sentido particularmente forte, e isso é basicamente porque eu sou o tipo de pessoa que não fala com as pessoas sobre coisas que elas não estão interessadas. Eu estava sempre feliz em falar sobre música, mas em um nível pessoal falar sobre coisas com as quais me importo não estava realmente na mesa. Especialmente crescendo na Inglaterra, as conversas sobre raça são… a primeira coisa que você tem que fazer é argumentar que o racismo existe, e se essa é a primeira coisa que você tem que fazer em uma conversa, você não vai chegar muito longe. Então ser possível falar sobre todas essas coisas é tudo para minha carreira. Eu sou muito grata por estar fazendo a música que faço, mas ser uma pessoa real em público, que tem opiniões e é honesta sobre como se sente, é tudo. Se eu pudesse assinalar um ponto alto na minha carreira, é agora.

Quando alguém vê artistas negros, suas mentes tipicamente vão ou para o hip hop ou para o R&B, e não para a dance music. Você foi estereotipada?

Quando eu decidi fazer esse álbum dance para minha estreia solo, eu estava plenamente consciente do ideal eurocêntrico onde o som atualmente aceito é EDM, house ou trance. Todas as outras músicas que as pessoas dançavam não eram consideradas dance. Esse álbum é dancehall, afrobeats, house, garage, e funk. Minha equipe ficava tipo “Bem, mas qual o gênero?”, e eu pensava, “lá vamos nós de novo!”

Originalmente, quando pessoas negras inventaram a dance music, ela não estava fechada numa fronteira. Então essa acabou sendo a minha questão: eu não queria ser a exceção à regra. Eu aprecio o apoio, mas ela não é replicável, porque eu não quero falar para mulheres negras, “ei, você pode fazer dance music, mas só se você fizer house.”

Em qualquer indústria, é tipo, “vai lá e pede para a mulher negra para expor todo mundo em seu trabalho sobre quem não está sendo progressista”. Então eu vou perder meu emprego, e vocês terão um bom momento enquanto eu sou o porta-voz. Sempre recai sobre mulheres negras criar nossos espaços em vez de ter pessoas de fora da nossa comunidade nos defendendo.

A partir dessa carta aberta, toda uma conversa começou a acontecer. Dentro de dois dias, eu era a única mulher negra falando por mulheres negras. Eu preciso, então, criar toda uma conversa nova e específica para que nós possamos trabalhar o que é que queremos, para que esses novos aliados tenham algo para falar sobre. Privilégio combinado com grande entusiasmo e boa vontade cria essa grande energia propulsora. Como se fosse uma mangueira de água jorrando em todas as direções. Espera um minuto, joga a água somente nas flores! [risadas]

Certo, e você não pode estar simplesmente correndo sem rumo, desperdiçando dinheiro sem nenhum propósito.

Especialmente com mulheres negras, nós acabamos muito expostas. Quando você está no início de uma luta, as probabilidades são de que você não vai ganhar. Então quando eu coloquei essa carta na mesa, minha equipe foi muito cuidadosa para que eu não acabasse sendo punida. Infelizmente, isso é algo que você tem que fazer quando é mulher negra se manifestando.

Você ouviu falar da música “WAP” da Cardi B e da Megan Thee Stallion? Ela tem a ver com essa conversa sobre mulheres negras sendo autônomas enquanto são simultaneamente marcadas por isso.

Nossa existência foi tomada como propriedade por outras pessoas por tanto tempo que as pessoas acham que têm o direito de dizer se estamos ou não autorizados a fazer algo. Quanto mais uma mulher negra expressa seu eu autêntico, mais as pessoas a desafiam por ir contra os padrões que todos têm para ela. Eu acho que é difícil conseguir satisfação pessoal, porque a reação é muito mais uma opinião do que simplesmente diversão. Ter permissão para só ser não é o status atual para nós.

Eu tomo decisões sobre fazer um show em que parece que não estou fazendo muito, porque eu sinto que eu tenho o direito de fazer exatamente o que qualquer produtor branco faz no palco, que é: absolutamente nada. As pessoas ficam tipo: “Ah, mas por que você não dança?” Bom, eu não sou seu bichinho dançante. Se eu estou dançando, é porque estou em uma boate ou porque eu saí e decidi me divertir. E não porque você espera que mulheres negras sejam fabulosas e dancem o tempo todo.

As vozes de mulheres negras são normalmente confundidas, e o Me Too foi e continua a obedecer à regra. Quando você soube que estava pronta para se abrir ao público sobre sua história de assédio sexual ano passado?

Eu olhei para minhas razões para não me manifestar sobre e se eu gostava ou não delas. Eu estava com medo de que minha carreira acabasse e de que as pessoas tentassem descobrir quem era. Ou mesmo, se elas descobrissem, que elas tentassem me difamar. Ou eu tinha medo de que as pessoas tentassem descrever o que aconteceu e então dizer que a culpa havia sido minha. Eram só camadas de medo. E eu pensava, isso não é bom o bastante. Então eu esperei até que uma publicação de mérito [a BBC] decidisse falar comigo sobre isso.

Se você quer causar um impacto, quer muitos cliques, então as redes sociais são o lugar perfeito. E está tudo bem com isso, mas você tem que fazê-lo conscientemente por causa da reação emocional que você vai ter. As pessoas virão atrás de você. Se você quer uma conversa com nuances, tem que escolher alguém que trabalhe nesse meio de jornalismo. Então escolhi este caminho.

Agora já faz um ano. Você sente que sua história foi ouvida, ou que foi mais você tirando um peso dos seus ombros?

Os efeitos pessoais foram maravilhosos porque ainda é totalmente sobre mim e sobre o que aprendi com isso. É algo que agora eu posso discutir sem estar constantemente em uma posição de defesa ou preocupada com o que as pessoas interpretam do que eu disse, e o assunto não se tornou nenhum tipo de frenesi na mídia. Nesse sentido, foi muito positivo para mim. Eu pude começar a procurar o por quê de haver tanto assédio sexual na indústria musical e pensar claramente sobre o processo de cura. E eu não acho que ele teria começado se eu não tivesse falado sobre isso publicamente.

A liberdade pulsa no seu álbum, especialmente nos contrastes de som e na forma que você não liga para regras de gêneros musicais. É libertador escutá-lo.

Isso é maravilhoso. Você acabou de me deixar arrepiada! [risadas] Quando eu percebi o que eu queria fazer, eu pensei, “isso vai cair bem”. Mas eu mantive duas coisas em mente. Uma é que pessoas negras inventaram a dance music, então não há razão pela qual eu deveria sentir como se precisasse ter um tipo específico de som. A segunda coisa: é minha herança multicultural [nota do editor: sua mãe é indiana, e seu pai é jamaicano]. Então eu deixei essas coisas me guiarem.

Quando você percebeu que queria criar música fora do AlunaGeorge?

Quem sabe? Cresceu devagar. Não foi tipo, eu tenho que fazer isso! Foi mais tipo, Eu estou com medo de fazer isso. Vamos dizer que vamos fazer isso agora e depois resolver as coisas.

Do que você tem medo?

Eu estava tão acostumada a trabalhar com o George [desde 2009]. Você poderia nos dar uma semana e nós faríamos dez músicas. Qualquer gênero – nós simplesmente fazíamos. Era fácil. Então eu pensei, “O que vai ser quando eu não tiver ninguém para pedir uma opinião?” Eu também sabia que eu estava fazendo algo muito difícil ao misturar todos esses gêneros.

Aluna Francis pelas lentes de Jeremy Paul Bali (2020), cortesia da Paper Magazine.

Na música de abertura, “I’ve been starting to love all the things I hate”, você canta sobre como o ciúme não será o seu fim. Parece um momento de busca da sua alma. Qual a história aí?

Eu nunca falei sobre isso – faz eu me sentir muito envergonhada. Mas quando eu vejo uma jovem branca sendo si mesma, indo contra qualquer padrão que ela quiser e sendo celebrada por fazer algo fora do comum, eu fico extremamente enciumada. Quando adolescente, tudo que eu queria era ser alternativa e que isso fosse ok. Mas porque eu era negra, isso não me era permitido.

Eu quero que as meninas negras ravers possam estar em festivais onde elas não são mais segregadas. Eu não quero viver num mundo onde só temos o Afropunk disponível para pessoas negras.

Eu pensei, “Por que eu estou com ciúmes disso?” E é provavelmente porque eu cresci sendo a única pessoa negra no meu meio. Eu tinha amigos brancos ou amigos com passabilidade branca, e eu ficava obcecada com sua percepção de ter um direito de existir no planeta. Eu desejava poder saber como era aquilo. Eu tinha que criar uma ideia de que eu tinha permissão para estar ali. É daí que muito da minha criatividade vem. Eu realmente preciso apreciar o fato de que aprendi essas lições. Eu tive vantagens nas minhas desvantagens. Então essa música é sobre isso: começar a se amar e sobre o que eu trago à tona sendo uma mulher negra.

Há tantas músicas no álbum que fazem você querer dançar e suar. Mas, é claro, estamos em uma pandemia. Você está frustrada por isso?

Não. Toda minha relação com a dance music é construída em espaços seguros e fechados onde eu pude ser eu mesma porque não havia ninguém para me julgar. A música podia me levar para outro universo. Então escutar meu álbum na sua casa, na quarentena, é completamente projetado para ter o mesmo efeito em você que ele teria na pista de dança.

Uma vez que nós realmente pudermos sair, eu quero que minhas meninas negras ravers estejam em festivais onde elas não sejam mais segregadas. Eu quero artistas negros nos line ups dos maiores festivais do mundo. Eu não quero viver em um mundo onde só o Afropunk está disponível para pessoas negras. Esse espaço de libertação deveria ser criado em qualquer ambiente designado para a dança.

Sua última música “Get Paid” vem com uma mensagem importante. Você pode falar dela, e também sobre como foi colaborar com a Princess Nokia e a Jada Kingdom nela?

Eu não posso dizer que eu tinha um planejamento, eu geralmente não tenho, mas o que eu tenho a dizer, acontece. Então, eu precisava cantar sobre o que é ser uma mulher negra tentando ser paga no mundo. Frequentemente, minha abordagem é uma forma de criar um momento aspiracional, celebratório, e “Get Paid” é uma celebração de nós sermos pagas. Às vezes nós somos pagas, mas nós queremos mais, e consistentemente, e o queremos de forma justa e que isso esteja de acordo com nosso valor e nossas contribuições.

Princess Nokia é franca de diversas maneiras. Ela é basicamente a epítome do poder feminino, mas ela também se posiciona pelos direitos LGBTQIA+. E ela é uma ativista de uma maneira tão eloquente que eu realmente queria a opinião dela nessa música para que ela se completasse. E nós fizemos uma inserção de uma música clássica jamaicana de dancehall [“Heads High” por Mr. Vegas, de 1998]. Eu estava escutando “Banana” por Jada Kingdom e a tinha no meu DJ set, e eu pensei, “Ela vai terminar esse quebra-cabeças. Ela é a última peça para completar essa bela imagem.” Quando ela mandou os versos dela, eu fiquei muito emocionada porque é muito poderoso, mas é muito bonito e sexy também. E isso é muito importante para mim na música – o seu flow tem que cair bem, assim como a beleza, a melodia, e as palavras.

Como “Get Paid”, “Body Pump” é uma batida que eu tenho ouvido no repeat. Você poderia nos contar sobre o processo criativo de “Body Pump” – ele começou com a batida, com a letra, com um conceito? E como ele evoluiu?

Bom, eu e o Josh [Lloyd-Watson da Jungle, que co-produziu a música com ela] somos duas cabeças fortes no estúdio, então passamos algumas horas nos desentendendo, o que foi bem engraçado. Nossos egos estavam ocupando todo o espaço, e tínhamos nossas próprias ideias. Era quase o fim da noite quando começamos a concordar. E começamos do zero. Nós escutamos muita música, e estávamos tipo, “Não, não podemos trabalhar com nada que já foi começado”. Começamos a construir essa música, e eu estava tipo, “estamos indo para algum lugar”. Estávamos realmente colaborando em cada som, em cada instrumento, em cada vocal, ele me fazia gritar no microfone, e dizia “Mais alto! Mais alto!”, e eu tipo “meu deus, isso é assustador!” [risadas]

E então o computador quebrou e nós perdemos a música toda. Na época, eu estava grávida de seis ou sete meses, e eu não podia perder tempo. Então, eu estava tipo, “Vou comprar uma garrafa de vinho pra você, e eu vou usar minha memória para te levar pela música, passo a passo, reconstruindo a música do zero.” E ele respondeu, “Ai meu deus, eu estou tão feliz que você topou. Muitos artistas teriam simplesmente desistido e ido pra casa.” E eu estava tipo “até parece, eu vou morar aqui, porra. Não vou a lugar algum até que essa música volte.”

Eu sabia que tinha algo sobre ela. E alguma mágica pode ter sido adicionada por nós termos refeito a música. Aquela parte no final onde ela para, com as palmas rápidas e tal, surgiu de um erro e nós ficamos tipo, “pera, o que aconteceu? Vamos manter isso.” Foi realmente uma experiência ótima.

Aluna Francis pelas lentes de Jeremy Paul Bali (2020), cortesia da Paper Magazine.

Essa foi uma das primeiras músicas em que você trabalhou para o álbum ou onde esse processo começou? Onde foi o ponto de partida para você para o álbum como um todo?

Foi em julho [2019] e eu tinha começado a trabalhar em fevereiro. Eu não sei qual foi a primeira música que eu escrevi. Algumas das primeiras foram “Off Guard” e “Whistle”. E você pode ouvir o quanto eu estava aberta nesse ponto. Quando eu comecei a escrever, porque eu sou uma artista muito versátil, eu pensava, “Eu posso fazer qualquer coisa. Eba! Vamos lá.” E eu fiz qualquer coisa, eu fiz tudo. Para esse álbum, foram 50 músicas. E então eu pensei, “não, eu vou fazer um álbum de dance. É isso que eu vou fazer”. E eu comecei a me mexer em uma direção particular.

“Off Guard” e “Whistle” são da parte pré-direcional do álbum, mas eu quis incluí-las porque, para mim, o álbum é realmente uma jornada com uma história principal. [No Renaissance], a história principal é a história do dance. Mas você também pode ter aquele momento em que você está com um amigo ou com um date ou algo do tipo, quando você adiciona esse algo a mais na sua experiência, você consegue todo esse espectro. É tipo uma festa em casa em que você teve seu momento de dançar por um instante, e então descobriu um quarto no andar de cima onde todo mundo está fumando e bebendo e curtindo e você pensa, “isso é maravilhoso também”. Essas músicas estão no álbum também. E então você acaba, eu não sei, com um psicodélico. Quero dizer, são definitivamente 6 da manhã, em qualquer lugar do mundo, no fim do álbum. No começo são tipo 9 da manhã, mas é o começo do dia, o outro fim.

Na verdade eu me lembro sim da primeira música que escrevi. Eu escrevi “I’ve Been Starting To Love All The Things I Hate” [a primeira música do álbum] bem antes de começar a escrever esse álbum. Era só uma peça de piano com uma mensagem na voz. Então, eu a expandi para uma música inteira.

Se você tinha mais ou menos 50 músicas para selecionar, foi difícil escolhê-las? Qual foi o processo de lapidação para um álbum, para 14 músicas?

Escolher as músicas demorou quase tanto tempo quanto escrevê-las. Ai, é agonizante. Eu tinha todas essas planilhas e diagramas. Eu imprimi os nomes das músicas, cortei e coloquei em cartões para que eu pudesse misturar e organizar. Foi muito disso. Porque é um molho, é um molho e tem que ter todos os ingredientes certos ali, e você não pode ter nenhum ingrediente faltando.

Você acha que você faria um lado B ou talvez espalharia algumas das outras músicas depois do álbum em algum formato?

Havia algumas músicas escolhidas que não entraram para o disco. Talvez elas sejam músicas que ficariam melhor sozinhas – num single, uma música que não toca bem com as outras. Havia também algumas músicas que tinham essa veia de algo que já estava no álbum. Então, não quisemos duas com a mesma pegada.

Você já expôs muita música no passado, mas essa é sua estreia como projeto solo. Como você está se sentindo oferecendo isso para o mundo?

Estou curiosa para ver o meio no qual o álbum vai despontar. Nós não sabemos, mês a mês, em qual mundo estaremos vivendo. Quero dizer, eu nunca planejei fazer um tour do álbum imediatamente após lançá-lo. Eu queria deixar as pessoas terem as músicas por um tempo antes de que eu começasse a viajar. Mas com isso fora do horizonte, eu estou feliz que criei um álbum da maneira que criei, porque ele não é rave do começo ao fim – ele vai te levar àquele ponto de rave e depois te trazer de volta. Então, ele é muito bom para estar em casa ou para estar no carro e em todos os ambientes em que estamos vivendo no momento, o que é legal.

Eu também sinto que, porque todo mundo está dentro de casa a maior parte do tempo, as pessoas poderão ouvi-lo em um ambiente menos distraído, o que para mim é um bônus, porque as pessoas podem ouvir as letras, o que seria legal. Eu não espero que as pessoas escutem as letras, mas se elas escutarem, vão curtir.

Quando você estava trabalhando nesse projeto e decidiu que queria fazer um álbum dance, o que provocou essa mudança?

Bom, tinham muitas mensagens vindo em minha direção e elas estavam passando pela barreira do medo e da trepidação que eu tinha. Como uma artista destacada no dance, eu meio que tinha sido hóspede nesse gênero. Eu o via como um gênero muito branco, e eu, como pessoa negra, não me sentia convidada. Eu não sentia como se eu pudesse pegar aquele gênero e fazer o que eu quisesse com ele como uma pessoa não convidada.

Mas eu já estive em situações em que eu havia visto uma ou duas meninas negras na multidão quando eu estava como guest em um festival em que havia um show de um colega branco em que eu entraria. Então, eu as via. E, nos meus shows, eu podia ver algumas meninas negras esperando até o fim quando eu toco todos os meus álbuns de dance do AlunaGeorge. E eu pensava, “ok, eu tenho isso”. O ponto final foi descobrir a história do dance e perceber que meu sentimento de não estar convidada não fazia sentido nenhum. Era completamente ridículo. Eu ainda me sentia desconfortável e como se eu estivesse fazendo algo que ninguém mais queria, mas isso não me parou de fazer nada. Então, eu fui em frente e fiz, eu só precisava de um pouco de munição.

É a prova de que os sentimentos que você está sentindo… de que isso não era só você.

Aluna Francis pelas lentes de Jeremy Paul Bali (2020), cortesia da Paper Magazine.

Os sentimentos que eu estava sentindo estavam baseados em uma realidade que era uma mentira, que, bem honestamente, me deixavam com raiva. Me deixavam com raiva de que eu tinha que me sentir desconfortável fazendo algo que é parte da minha herança e de que isso me segurou por ao menos um segundo. E então eu estava tipo, “rápido, se apresse”. Isso acabou tomando um ano e meio.

Com base nisso, em junho, você postou sua carta aberta poderosa para a comunidade do dance music. Você pode falar sobre como você se sentiu até agora sobre a resposta dentro da comunidade musical?

A resposta foi de uma certa curiosidade. Eu tive alguns executivos e pessoas no círculo interno dos DSPs [digital service providers] curiosos sobre o que fazer. Então, isso foi bom. É bom ter curiosidade. Eu acho que a ação vai acontecer – eu acredito muito em abraçar o caos. Eu acho que nós precisamos – e provavelmente vamos – passar por um período de caos no que concerne o gênero musical.

O que estou querendo fazer é sacudir o gênero. Não estou esperando a poeira baixar por um tempo. Então, há muitas conversas diferentes sobre o que é dance, quais gêneros de dance foram deixados de fora, quais devem ser incluídos, quais são mais mainstream, quais são mais underground. Seria o eletrônico o maior som do dance, apesar de como ele é categorizado na realidade? Seria o eletrônico realmente um sub-gênero oposto ao corpo principal do dance music?

Todas essas questões são muito, muito legais de se perguntar porque se eu fosse inventar um mundo, um mundo que é muito legal e novo e sempre mutante, eu não acho que eu colocaria homens heterossexuais brancos no centro do mundo. Eu nem acho que um homem heterossexual branco criaria esse mundo. Essas podem ser as pessoas que comandam as coisas, mas estamos falando de festas, estamos falando de dança, estamos falando de cultura, e estamos falando de unidade, de festivais. Quando na história foi um homem heterossexual branco o catalisador para esse tipo de aglomeração alegre, multicultural, e de sexualidade aberta? É preciso refletir sobre a atividade de festejar, dançar, sobre unidade e expressão, e coisas desse tipo.

Você poderia nos dar um resumo do que você convocou nessa carta?

Eu gostaria que toda plataforma e organização que categoriza música reanalisasse o que eles consideram que seja a dance music. Quando estão considerando isso, eles precisam olhar globalmente e culturalmente: para o que as pessoas dançam? A resposta é para o dancehall, o afrobeat, o reggaeton, house music, e os subgêneros destes também. Eu acho que há um longo caminho em unir as pessoas que fazem dance music ao redor do mundo, porque no momento ela está realmente segregada. Realmente, o que acontece é que o ouvinte pula de um lado para o outro nos becos dessas plataformas. Eu considero essa música mainstream dance music, elas não são sub subgêneros. Elas são subgêneros do dance, mas não sub sub sub sub sub subgêneros, que é onde elas estão atualmente categorizadas.

Essa música deveria ser posta na posição onde elas possam acessar o ouvido mainstream, porque ela é música mainstream. A evidência está nas músicas pop que usam esse tipo de música como sua base fundamental. A evidência está também em produtores brancos usando essas batidas para refrescar o som do dance music no momento. Se é bom o bastante para ser apropriado, então é bom o bastante para ser ouvido em sua forma original e pelos seus criadores originais.

Se a comunidade do dance estava feliz em simplesmente viver em um ecossistema completamente monocultural de ouvir somente um som aceito de dance music idealmente eurocêntrico, então é só copiar e copiar e copiar até que a dance music não seja um gênero relevante para ninguém, e daí pronto, mas isso não é o que ninguém quer.

Qual foi a sensação para você, até o momento, de se lançar como artista solo e estar fazendo música para você, e produzindo-a também?

Aluna Francis pelas lentes de Jeremy Paul Bali (2020), cortesia da Paper Magazine.

Isso criou muitos sonhos novos para mim. Agora, eu tenho esse sonho que estou sentindo que está mais e mais tangível – basicamente, um festival/rave com meninas negras ravers pra todo lado, não somente uma raver em um mar de pessoas brancas, parecendo estar super deslocada. Eu só acho que isso seria muito legal.

Você tem alguma mensagem para mulheres e meninas negras que estão querendo compartilhar suas vozes e suas visões na música, mas não tem certeza de por onde começar ou como fazer isso de uma maneira que se sintam seguras?

É difícil. Eu tento falar por meio das minhas ações. Eu fiz álbuns de dance como uma mulher negra, e algumas das músicas foram bem recebidas porque elas se encaixam no som tradicional do dance music. E nós ainda vamos ver como esse álbum vai ser recebido, mas eu não ligo.

O que eu diria para meninas negras? Queremos e precisamos delas, de suas perspectivas criativas.

Nós realmente amamos sua playlist Dance Renaissance no Spotify. Você poderia falar um pouco sobre alguns artistas que você destacou nela?

Eu tenho UniiQU3, tenho Jayda G. Tenho alguns criadores originais do dance music como Mr. Fingers e Larry Heard, porque eu queria mixar uma história com as coisas atuais. E Black Coffee, Azari, Rema, AJ Tracey, Cookiee Hawaii. Também, Skales – “Shake Body” é uma das minhas músicas preferidas. Essa playlist era realmente o que eu estava performando no meu DJ set naquela semana. Foi uma exploração, eu queria ver como uma faixa do Larry Heard soava ao lado de UNiiQU3 ou TT The Artist ou Jayda G. E eu estava explorando artistas negros do dance no geral.

Eu tenho uma coleção enorme. A próxima coisa que eu quero fazer é uma playlist global do dance que realmente captura as músicas mais badaladas ao redor do mundo. Porque prestar homenagem à história é muito importante, mas uma das coisas que pode acontecer é que se você só fizer isso, você perde o momento presente e não tem como recuperar isso depois, porque as pessoas precisam de apoio agora. Nós precisamos saber o quão foda essas coisas novas são.

E honestamente, o COVID foi uma enorme oportunidade para mim, para esforços de cavar procurando coisas e tudo mais. Tem sido realmente, realmente maravilhoso pensar sobre a mudança de cenário da forma que consumimos dance music, então todas essas músicas que tenho curtido como DJ vão ter mais reconhecimento e mais respeito. E ser celebrado de uma maneira que as eleva para o pop, o que eu acho que é realmente importante para muitos artistas que trabalham em um gênero com que se deve importar dessa maneira e ter essa motivação.

Aluna Francis pelas lentes de Jeremy Paul Bali (2020), cortesia da Paper Magazine.

Você está super certa. No fim do dia, playlists de streaming têm muito poder. O número de streams que vêm de uma dessas maiores playlists do Spotify é absurdo. Realmente mostra o quanto há de potencial para mudar as coisas e para, como você está fazendo, mudar o rumo da conversa.

Claro. Esse trabalho deve ser feito muito cuidadosamente se você está fazendo o que eu estou fazendo, porque essa playlist do Dance Renaissance é minha primeira tentativa de trabalhar em algo no momento, o que é muito, muito mais curado como DJ. E eu acho que é realmente importante quando estou mostrando como Jersey club, dancehall, techno, e afrobeat podem viver juntos na pista de dança.

A razão pela qual eu sei disso é porque eu sou uma mulher negra, mas também sou multicultural. Então, eu tenho todas essas influências globais no meu sangue. Eu trabalho a harmonia comigo mesma, então eu sei que há a possibilidade de todas essas coisas funcionarem harmonicamente. Eu aplico isso quando estou escolhendo minhas músicas. Não sou alguém que está apenas tentando elevar um gênero do dance. Eu sou uma embaixadora da unidade, realmente baseada na simples ideia de que estou tentando criar a melhor qualidade.

Para mim, se eu for a uma boate e só tem um tipo de música tocando, eu não consigo ficar. Eu posso aguentar por meia hora, mas não posso fazer nada monocultural. Simplesmente não sou essa pessoa. Eu e o futuro do nosso mundo estão ficando cada vez mais e mais multicultural. Nós podemos estar brigando uns com os outros, mas, por trás das brigas, todo mundo está transando e tendo bebês, por sinal. E eles serão multiculturais. É inevitável. Eu estou criando música para que essas crianças se sintam confortáveis escutando.


Ana Monroy Yglesias é escritora para o Grammy Academy. Música e contação de histórias são suas primeiras paixões e ir a shows está no seu sangue. Seu gosto musical eclético e expansivo é firmemente enraizado no disco e nos anos 1980 em que ela cresceu. Possui interesse especial na interseccionalidade da música, arte, cultura e em temas de justiça social, e realmente acredita que a maior representação e que contar histórias mais diversas na mídia pode criar uma mais unidade e entendimento, num sentido amplo. Ela ama vinis, gatos e o oceano.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.