A edição da Philos #6 está chegando em fevereiro e apresentamos no neolatina o poema “dei o que tinha“, da escritora Lubi Prates (1986, São Paulo/SP) Lubi é poeta, tradutora, editora e curadora de Literatura. Tem três livros publicados (coração na boca, 2012; triz, 2016; um corpo negro, 2018). “um corpo negro” foi contemplado pelo PROAC com bolsa de criação e publicação de poesia e está em processo de publicação na Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Espanha e França, além de ter sido finalista do 4º Prêmio Rio de Literatura e do 61º Prêmio Jabuti. Tem diversas publicações em antologias e revistas nacionais e internacionais. Co-organizou os festivais literários para visibilidade de poetas, [eu sou poeta] (São Paulo, 2016) e Otro modo de ser (Barcelona, 2018) e também participou de outros festivais literários no Brasil e em outros países da América Latina e Europa. É sócia-fundadora e editora da nosotros, editorial, e é editora da revista literária Parênteses. Dedica-se à ações que combatem a invisibilidade de mulheres e negros. Atualmente, é doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento Humano, na Universidade de São Paulo.

dei o que tinha

1.
te dou de comer
na palma da minha mão.

é ancestral
o gesto de agachar,
se reconhece:

me curvo ao chão
então, você vem,
faminto.

não distingue
entre o que é comida
e quem eu sou.

penso domar a fera,
as pontas dos meus dedos se vão.

não distingo
se é dor ou prazer
me transformar em seu alimento.

voltarei amanhã,
você sabe.

2.

sequer havia luz,
mesmo assim,
aprendi a te alimentar
primeiro.

antes de qualquer verbo
ou nome:

não havia chamado,
ainda não há.

embora sequer houvesse luz
e tendo, ainda, olhos
preservados por você,
me guiei pelo cheiro da sua boca
entreaberta.

agachado,
com minha pata de bode,
te dou de comer
antes de seguir, veloz.

3.

esse chão
criamos nós

a partir do nada que havia:

era apenas linguagem.

na palma da sua mão
dei o que eu tinha,
cuspi a palavra terra
que você moldou com sua saliva.

fez-se lama.

nomeamos assim,
essa porção ínfima
onde deitamos.

4.

quando forte,

você se antecipa.

reproduz meus gestos
com uma velocidade maior.

trama uma fuga.

quando você passa,
eu lanço a pólvora.

o fim te alcança
ainda preso a mim.

aqui, agora,

explosão
diante dos nossos olhos.

5.

você escancara essa boca
de mundo, tão vazia
de dentes, só saliva e oco.

você escancara essa boca
sobre um corpo
crescido do chão,

engole tudo
enquanto o lodo escurece
o que se quer pés.

aguardo o que virá:
língua, voz, manhã.

6.

sobre a lama onde deitamos,
passou tempo.

confundimos
passado presente futuro:

aparentam ser o mesmo.

na lama onde deitamos,
criaram-se frestas,

nelas, imaginamos caminhos.

surgiram tantos outros iguais a nós.

abri uma encruzilhada
e te coloquei no meio.

de costas, esperei que seguisse.

7.

conforme você se afasta
um novo dicionário
adentra a boca.

eu não me viro:
enxergo o futuro
às minhas costas.

de cada verbete engolido
você cospe a própria matéria.

com os seus passos,
vi surgir o vazio.

8.

não calculei a medida
do quanto permanecer imóvel.
olhos fechados
mãos fechadas
segurando tudo que não existia.

enquanto eu me escapava.

este estalo inaugurou algo novo:
essa dissolução.

me tornei poeira,
depois de você.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.