Enquanto eu lia os escritos de Lia, ia pensando no quanto os nomes nos apontam caminhos, nos revelam segredos. Mas é preciso saber ler, ler atrás, ler através, e aqui, como mais um presente, ler e ouvir, verbos tão desprezados ultimamente. E Lia, enquanto eu lia, ia me fazendo esses convites proibidos: ler e ouvir suas andanças pelo Sertão.

Escrevo inspirada pela voz da autora, que narrou seus diários – capítulos de uma série em formato de podcast –, e também pelas belas imagens da versão online, e sua escrita com maiúsculas a dar ênfase às suas importâncias. Estou falando de “Abro-te Meus Caminhos: Contos-diários do Meu Primeiro Sertão da Caatinga”, livro digital e audiobook de Lia Rezende Domingues, recém-lançado pela editora La petite ferme de São Paulo. E onde somos convidados a compartilhar de sua intimidade através de suas reflexões ao longo de meses de uma primeira viagem pelo Sertão.

Outro dia ouvi de um historiador que o contrário da vida não é a morte, que traz o mistério e nossa maior transformação rumo ao desconhecido. O contrário da vida é a perda do Encantamento. Partindo dessa imagem, ideia, princípio, lógica, Lia já pode pensar em viver para sempre a partir de seus escritos. Tudo ali é Encantamento, a começar pelos nomes das personagens com que ela vai cruzando pelo Caminho, na verdade a grande personagem de seus diários. O Caminho da transformação, o fim de um ciclo pra começar uma nova vida, um Caminho de iniciação. Entrar na vida adulta? Se recuperar de um coração partido, de ilusões perdidas, e descobrir o porquê de estar aqui, ou quem sabe um grande objetivo pra vida? Ou apenas se abrir para o Encantamento dessa mesma vida, que esse sim, a acompanhará por todo o Caminho pela frente.

Os nomes das personagens, para além de um recurso literário ou forma de preservar a identidade das pessoas reais (reais?) descritas ali, apresentam-se como charadas que alimentam a imaginação, ao mesmo tempo que já vão revelando qual pista cada uma vai indicar para os caminhos que Lia tem a percorrer na sua iniciação pelo Sertão. Esse Sertão, que com esse nome já é tantos.

A começar – e terminar, que é quem abre e fecha os Contos-diários – pela personagem onipresente, a Senhora Jaguar, o animal de poder das américas, o maior, mais forte, a Onça. Quem sabe a marca de uma geração que está tentando se conhecer mais profundamente, se enveredando por um Brasil afora, Sertão adentro. E entre o início e o fim desse primeiro caminhar na Caatinga sob os aprendizados com a Senhora Jaguar, outras personagens vão cruzando o caminho de Lia, e os codinomes dados a elas já vão revelando um pouco de suas histórias: Mulher Doce, Mulher Perpétua e Marido Artista, Menino Artesão, Cabocla dos Peixes, Meu Amigo das Palavras, Mulher Merecedora, Guardião de Memórias, Ancião das Plantas, e tantos outros, cada um com seus ensinamentos e segredos.

O que considerei pequenas escorregadas no trajeto da leitura, mas que acabam se revelando também uma força do texto pela dose forte de sinceridade – afinal estamos lendo seus diários –, são algumas reflexões da autora a respeito de sua vida fora desses caminhos do Sertão, sua ‘vida real’, para onde fatalmente voltará ao final dessa jornada. É como se de repente ela nos arrancasse de sua viagem iniciática, cortando o fluxo intenso da narrativa, trazendo-nos de volta a uma realidade mais conhecida nossa, cotidiana, de pessoas desencantadas que somos. Ao mesmo tempo, enquanto leitores, acabamos entrevendo que essa Lia já não existirá mais depois dessa experiência, e talvez precise justamente se fazer presente ali para se despedir. 

Fui parar nessa mesma Terra Prometida – como a autora denomina Canudos, no Sertão da Bahia – com outro grupo de andarilhos, artistas de muitas áreas, pra reviver a tragédia da guerra lá mesmo onde tudo aconteceu. Fomos, um grupo de aproximadamente cem pessoas, em 2007, encenar Os Sertões e tentar viver, através do teatro, um rito de desmassacre, junto com o povo de lá. Essa Canudos, que conhecemos n’Os Sertões de Euclides da Cunha e mesmo nas montagens do Teatro Oficina, de que fiz parte, é uma terra bem masculina, com homens que seguiam o Homem Que Andava – como descrito nos Caminhos de Lia – sendo massacrados por homens uniformizados com a farda da república que se formava, que comandavam outros homens que serviam a esses para massacrar seus quase iguais. Depois de ter vivido essa saga, é um respiro ler os Contos-diários de Lia, que vai nos revelando um Sertão de Mulheres, com suas delicadezas e valentias. E de sabores e nomes tão suculentos e exóticos para nós sudestinos como Licuris, Macambiras, Caruás, Umbus, Cuscuz, Mungunzá, Baião de Dois, um Sertão de Feiras de Agricultura, Estrelas Cadentes e Sementes Sagradas. Um Sertão desmassacrado, que realmente não se rendeu.

Poderia continuar escrevendo inspirada pela leitura e pela audição, mas deixo o convite para uma aventura mais inesperada: que você se deixe guiar por esses Contos-diários, e se enverede pela Caatinga dos Caminhos Abertos – e Encantados – de Lia.


Lia Rezende Domingues é jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora e designer ecológica pela Gaia Education. Trabalhou com comunidades tradicionais, economia popular solidária, a Embrapa e o ICMBio. Peregrina dos sertões, escreve desde pequena. Abro-te meus caminhos: contos-diários do meu primeiro sertão da caatinga e Minha vida com Tê: estudos genealógicos são seus dois primeiros livros.


Letícia Coura é uma artista mineira em São Paulo. Cantora, compositora, atriz, preparadora vocal, escritora e tradutora, suas ferramentas são o violão e o cavaquinho.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.