LUNA VITROLIRA CONVERSA COM A PHILOS SOBRE ANCESTRALIDADE, A POESIA DO SERTÃO DO PAJEÚ, FEMINISMOS E AS FORMAS DE AMAR EM SEU LIVRO “AQUENDA – O AMOR ÀS VEZES É ISSO”.

Luna, me fala sobre o lugar de onde você vem…

Eu venho do ar [risos], e o ar são todos os lugares possíveis. O ar está por toda parte. Mas eu sou Pernambucana, minha família é do Alto de Santa Isabel e do alto da favela do Vasco da Gama, ali próximo ao bairro de Casa Amarela. A Avenida Norte divide esses dois bairros, esses dois altos. Investigando cada vez mais minha ancestralidade sei que venho de muito longe. A minha família paterna tem ascendência diaspórica dos povos africanos, família preta… E a família materna, descende de povos originários, uma família que vem ali da Zona da Mata [pernambucana], de Nazaré da Mata e Carpina, e que tem essa mística indígena, esse fenótipo indígena e essa cultura também, ambas da oralidade, da cultura que é viva, pulsante, dinâmica, dessa poética das vozes.

E daí que vem o seu entendimento da fala e da voz?

O entendimento do meu trabalho na poesia, embora eu tenha essa ascendência, só chega para mim quando eu vou pro Pajeú, e o Pajeú é o sertão de Pernambuco. Eu costumo dizer que a minha formação poética se deu lá, porque inclusive fui uma criança que não tive contato próximo mesmo, de intimidade, de laços familiares, de vínculo, com nenhuma das duas famílias, nem a materna, nem a paterna. A paterna muito menos, inclusive. Não conheci meu avô por parte de mãe, que era justamente uma pessoa na família muito integrada, muito vinculada às manifestações da nossa oralidade, ao cavalo marinho, ao coco, a cantoria de viola, ele gostava muito de tudo isso, mas eu não o conheci. E os pais do meu pai, meus avós paternos, eu também não tive muita relação. Estou nesse processo de investigar e entender um pouco mais sobre a nossa história familiar, porque a gente entende que nosso povo é um povo que é disperso, então é muito desafiador pra gente, montar a nossa genealogia.

Eu sei que eu venho de muito longe, mas para mim ainda é difícil me situar de fato e com precisão sobre as minhas origens e raízes. Mas quando eu digo para você que a minha formação poética começou no Pajeú, é porque foi lá que eu despertei para a poesia entendendo que a poesia é muito mais do que uma forma literária. É uma forma de vida, é um jeito de ser, é um jeito de viver, é um jeito de existir nesse mundo. Também é o lugar de onde se percebe as coisas todas, então o meu lugar também é a poesia, eu venho da poesia enquanto lugar, também é essa a matéria do sublime, o etéreo. Então mais uma vez, eu venho de todos os lugares [risos]. É metafísico, minha origem é muito metafísica.

Luna Vitrolira para o editorial de primavera-verão da Philos 2021. Fotos do Estúdio Orra (Recife).

O Pajeú

O Pajeú, para situar, é o sertão que fica ali depois do sertão do Moxotó. A gente saindo daqui de Recife, a gente vai passar pela Zona da Mata, vai passar pelo agreste, vai passar pelo sertão do Moxotó, que começa em Arcoverde e logo depois, passando de Sertânia, se chega em São José do Egito, que foi a primeira cidade que eu fui e conheci. Quando eu cheguei no Pajeú, eu vi que a poesia existia em todos os lugares. Nesse entendimento de forma de vida, as pessoas conversavam sobre poesia o tempo inteiro e conversavam poeticamente, inclusive, porque a poesia é um jeito de ser, então as pessoas, além de fazer poesias, também são a própria poesia. E eu comecei a perceber o misticismo naquele lugar, a relação artística que aquele lugar tem, e vendo crianças de 3, 4, 5 anos de idade, antes de começar a escrever, já declamando poesia, porque a poesia faz parte da educação, inclusive dentro de casa, além de estar presente nas escolas. E quando eu digo nas escolas, não é esse sistema canônico da literatura, não são essas autoras e autores reconhecidos pelas academias e que estão nos livros. Estou falando do sistema autárquico. Na minha pesquisa, na minha dissertação, eu digo que o Pajeú tem um sistema literário autárquico, porque é um sistema literário independente. A própria comunidade elegeu os seus cânones, as suas escritoras e os seus escritores tidos ali como clássicos, como emblemáticos. Então você tem essa poesia da comunidade, da região, fomentada nessa educação. E uma educação muitas vezes, como tem no livro “Esse rio que não passa” que trata a poesia também nesse lugar de recompensa. Você que escreve uma poesia, escreve uma sextilha, e ganha uma bicicleta. Escreve um soneto e escolhe um presente que queira. A poesia serve para presentear também, de certa forma. Então a poesia na verdade está presente em tudo, para tudo. Nessa comunidade se vive a poesia de um jeito que eu não percebi ainda em nenhum outro lugar, e isso fez parte da minha formação, porque hoje eu me vejo também parte do Pajeú, mesmo que eu não tenha nascido lá. E essa minha relação que eu desenvolvi com a arte, a partir da poesia, me fez entender essa minha ancestralidade e essa minha linhagem paterna, dos meus avós inclusive, e entender também que meu pai é uma pessoa que tem uma pulsão criativa e que não conseguiu desenvolver para ser artista, mas que ele até hoje tem essa relação muito forte. A minha mãe também sempre foi uma grande leitora, sempre leu muito, sempre foi muito curiosa. Então acredito que tanto a minha linhagem como a minha relação com o sublime, com o sagrado, a minha formação no Pajeú, com essa influência do meu pai, da minha mãe, sobretudo muito presente, me influenciando, me provocando, me incentivando, me levando para saraus, me levando para fazer cursos e assistir a eventos de literatura… Então tudo isso fez muito parte desse meu núcleo. Além das pessoas da minha geração, amigas e amigos que começaram comigo, que eu encontrei nessas encruzilhadas da vida, e que também fazem parte dessa família que elegi, para ser minha grande família, e são pessoas que sempre acreditaram muito no poder da palavra, no poder da música, no poder da voz, e que também sempre usaram isso como instrumento para inventar realidades. Então esse meu núcleo de arte se expande, ele é muito expandido. Como o ar mesmo, se expande, cobre tudo.

Luna, como foi fazer esse ensaio para a Philos de primavera-verão?

Fazer esse ensaio foi uma confirmação para mim de muitas coisas, inclusive ver o resultado fez com que eu me percebesse nesse novo momento que estou, essa nova fase, esse novo ciclo, que estou vivendo agora. Porque eu, como uma boa geminiana, me entendo, sempre me entendi como várias, e as minhas várias vivem vários processos diferentes. Eu percebo que estive durante muito tempo num lugar de muitas dores, num lugar de muitas mágoas, da minha trajetória mesmo no mundo, tudo o que eu já passei na vida, e esse ano de 2020 foi um ano em que eu já estava determinada a aprofundar minha ancestralidade, já estava determinada a entender mais sobre a minha genealogia, mais determinada a aprofundar o meu lugar no autoconhecimento, entendendo cada vez mais quem sou eu, quais são as minhas fragilidades, quais são as minhas forças, minhas potências, onde eu preciso melhorar, o que me torna vulnerável. Nós passamos o ano de 2020 todo dentro desse contexto de mundo pandêmico, tantas outras questões para enfrentar e resolver também… Me vi nesse momento vivendo com muita profundidade nos meus processos de cura, ritualizando o meu dia a dia, ritualizando minha vida, meu acordar, meu dormir. Tudo dentro dessa atmosfera mística, do que é viver, um ritual. Eu levei isso para o ensaio fotográfico de maneira muito intuitiva, digamos assim, até porque a gente não sabia como seria o ensaio fotográfico e não tinha pré-determinado o roteiro. Então no dia eu pensei “vou levar isso, vou comprar isso”, caminhando na rua a gente encontrou parte do cenário [risos], então estavam ali presentes muito dos elementos que fazem parte dos meus rituais, que é a minha verdade diária, do que eu faço. As ervas para banho, as ervas para chá, cachimbo, incenso, meus pratos de barro, meu altar, onde tem a minha foto de criança, que é essa criança que precisa ser tão protegida hoje para mim. Essa criança que estou curando… Curando muitas dores, traumas, mágoas, e coisas que essa criança viveu, acumulou e que estavam ali presas. E o resultado foi tão leve, o processo foi tão leve, foi tão bom de fazer, me senti tão à vontade. Porque inclusive a equipe, o pessoal que integra o Estúdio Orra é uma galera do “fazer acontecer”, é uma galera de uma energia de ciranda, de colaboração, de leveza, de respeito também, e eu me senti muito à vontade para abrir quem sou eu e esses meus processos que são a minha intimidade para que tudo fosse registrado, para que isso fosse fotografado e estivesse hoje na Philos. Eu estou ali na minha plenitude, entendendo que hoje sou uma pessoa que me percebo me curando conscientemente de tantas coisas nesse mundo difícil. É um ano em que a gente precisa realmente pensar sobre cura, um ano em que a gente começa a ver de fato tantos adoecimentos, tantas chagas, em vários setores da estrutura da sociedade. 

Vamos falar de amor, LunaSobre o Aquenda, o amor às vezes é isso?

Vamos aquendar o amor! Aquenda é uma palavra que tem origem no iorubá, é uma palavra que tem origem também no povo diaspórico, vindo de África. Aquenda significa, a princípio, prestar atenção, e foi a parte desse significado que eu pensei o título do livro. Aquenda, o amor às vezes é isso, “presta atenção! O amor às vezes é isso“, porque a gente sonha com uma ideia de amor que foi introjetada dentro da gente, e uma ideia de amor que foi usada pelo mercado como um produto, para inspirar um ideia também de felicidade. Só que esse amor é um modelo eurocêntrico, ocidental, que é usado como um dispositivo de poder, manipulação, que é usado para inferiorizar, para subalternizar mulheres, sobretudo mulheres pretas. Quando a gente fala em quem mais sofre com relação ao amor, quem sofre com o lugar de preterimento, quem sofre a dor da rejeição, somos nós. E um amor que se fundamentou num lugar de violência, tem seus fundamentos ali, na opressão, na vigilância, na punição, na vingança. Como eu disse, eu fui uma criança muito platônica, muito sonhadora, e eu ficava sonhando muito com o amor, com o dia em que o amor ia chegar para mim, com o dia em que eu ia conhecer alguém. E a gente sabe que a nossa cultura, a nossa produção artística, os livros de romance que a gente consome, os filmes que a gente consome, os desenhos animados que a gente consome, tudo que a gente consome durante a nossa trajetória da infância, da adolescência, repercute sobre nós, sobre a nossa personalidade, forma quem a gente é, então de tudo que a gente se alimenta também nos destrói um pouco e forma a nossa personalidade. E essa ideia de amor da qual eu me alimentei me destruiu bastante, me destruiu muito. E isso me fez pensar sobre por que isso me destruía e o que é esse amor que tava me destruindo tanto. Porque quando eu começo a olhar para o mundo, eu percebo que eu não sou a única pessoa a estar nesse lugar, a sofrer essas violências, ligar a televisão e ver que mais uma mulher foi espancada pelo marido, abrir o jornal e ter a notícia de que mais uma adolescente foi asfixiada pelas mãos do namorado. Quantas mulheres esfaqueadas, esquartejadas pelas mãos dos homens que dizem que amam? Uma mulher espancada e jogada do quarto andar, pelas mãos do companheiro. Então que amor é esse que violenta, que agride fisicamente, psicologicamente, verbalmente? Um amor que xinga, um amor que transforma ciúme em sua maior prova. Você vai ouvir as músicas do nosso repertório, seja sertanejo, brega, pagode, axé, seja MPB, forró, todas elas falam muito do amor, mas num lugar de dor, de sofrimento, de vingança. Então, Aquenda, o amor às vezes é isso! Presta atenção que o amor às vezes não é o que você sonha! O amor na realidade é sempre ao contrário, como dizia Cazuza. O amor na prática é sempre ao contrário, você idealiza aquele sentimento sublime, um amor que é um amor perfeito, de transcendência, e na hora que você vai viver isso, você acumula frustrações. Todas as suas expectativas são ali anuladas, caem por terra, tudo cai por terra. Olhando para a minha própria vida, para a vida de mulheres da minha família, mulheres que estavam ao meu redor, da mesma geração que eu, todas traçando o amor como uma perspectiva de vida, como um objetivo de vida, porque inclusive eu lembro, sempre falo isso, a gente aprende na infância que ser humano é aquele que nasce, cresce, reproduz e morre. O nosso auge é esse lugar da reprodução, inclusive vinculada ao nosso corpo, porque temos um prazo de validade, inclusive para engravidar. Como a meta da nossa vida é a reprodução, de acordo com a estrutura a gente precisa encontrar alguém a quem a gente vai presentear com um filho, e a mulher é criada dentro dessa estrutura e recebe essa educação de conquistar um homem, segurar um homem, de que precisa ser criada para casar, para satisfazer e servir um homem, e esse modelo eurocêntrico ocidental inclusive impõe na nossa vida a existência obrigatoriamente de um homem para que a gente consiga ter um status da sociedade, consiga ser reconhecida na sociedade. E isso também acaba impondo relações heteronormativas, além de nos dizer o tempo inteiro que, se precisamos de alguém, é porque não somos autossuficientes, não somos inteiras, somos metade. E aí vem essa ideia do carne e unha, da alma gêmea, tampa da panela, um amor que é divulgado, que é propagado como um meio de nos tornarmos inteiros a partir do momento que em nos unimos a outra pessoa, que é a pessoa que vai nos completar, que é nosso pedaço que nos falta, e eu nunca concordei com isso. Eu sou uma existência inteira. O amor, como eu entendo, como energia, energia que vai fazer com que espíritos se encontrem e criem laços e vínculos, é um amor que vai fazer com que a gente dê as mãos para experienciar a vida, para viver junto a experiência de fazer parte desse mundo, desse tempo e desse espaço. É compartilhar vivências, com carinho, com afeto, com atenção, com cuidado, então eu acho que a gente precisa ressignificar muito, ou reconstruir a nossa ideia de amor, ou a própria ideia de amor. Porque quando se traz uma ideia inclusive do amor cristão a partir de Deus, o Deus que entrega seu filho para salvar a humanidade, esse discurso acaba sendo distorcido e sendo usado também como uma forma de exercer poder sobre as pessoas, então esse amor que Deus tem por nós, ele só é assegurado a medida em que não somos pecadores, porque se pecar, Deus está vendo. Se você pecar, Deus vai te punir. É esse lugar que o amor acabou recebendo, de vigilância de opressão, de alguém que vai estar sempre ali olhando tudo o que você está fazendo, porque se você der um passo errado você será punido, o amor que dá e tira na mesma medida, na mesma proporção. Eu não acredito nesse amor, esse amor que tá na boca dos pais que batem nos filhos para educar, que gritam com os filhos porque amam… Isso é violência, isso não é amor. Então a gente vem naturalizando várias formas de violentar dentro dessa ideia do que é o amor.

Feminicídio

Um amor que é chamado de amor romântico, é um amor que faz matar alguém e faz alguém se matar, e a mídia justificando mortes e homicídios, dizendo que foram feitos em nome do amor, chamando de crimes passionais. Hoje a gente conseguiu, a partir de tanta luta, trazer a realidade dessas mortes, que não aconteceram e não acontecem por amor. Na verdade acontece porque somos mulheres e o amor é usado como dispositivo de poder, e o homem entende, nesse lugar de poder e dominação, que nós somos objetos que eles detêm. Isso é muito doloroso, isso é muito doloroso! A gente chama isso de feminicídio. Então o meu livro fala sobre tudo isso. Fala sobre esse lugar platônico do amor, fala sobre essas agressões várias que a gente sofre, fala sobre abuso, estupro, feminicídio. O amor é feito bala perdida, que acerta um desavisado ao cruzar a rua, ao dobrar a esquina, às vezes vêm num soco, às vezes vem num grito. O amor às vezes é isso, uma panela de água fervendo no rosto de alguém querido. E essa imagem dessa panela de água fervendo é uma imagem de notícia de jornal, de uma mulher que para se defender da agressão do marido jogou água fervendo nele. E é isso, né?! Quando a gente precisa se proteger a sociedade também vai dizer que somos culpadas. A sociedade tem um grande vício em transformar as vítimas em culpadas.

Mas voltando para o aquenda, para o significado de “aquendar”. No pajubá, aquenda é usado também para a ideia de esconder e revelar o órgão sexual masculino. Se chama aquendar a neca, desaquendar a neca, esconder a neca, e mostrar a neca. Então sobre o amor também – como Heloísa Buarque de Hollanda diz-, estou trazendo coisas que a gente não está mais disposta a esconder, então tem esse lugar de revelação sobre esses outros entendimentos possíveis do que é o amor nesse mundo, na forma como que ele está sendo exercitado. É importante que a gente tenha uma compreensão dilatada sobre esse modelo de amor romântico, porque acabamos sendo instrumentos, pessoas que são usadas pela estrutura, para multiplicar essa ideia. Eu fico pensando que para mim, é muito importante viver nessa auto-vigilância, para que eu tenha sempre muita consciência sobre que tipo de ideia eu quero multiplicar nesse mundo, do que é que eu sou multiplicadora.

Luna Vitrolira para o editorial de primavera-verão da Philos 2021. Fotos do Estúdio Orra (Recife).

E esse entendimento sobre o amor virou livro e ganhou prêmios… Como foi esse processo, Luna?

É o meu primeiro livro, levei muito tempo para publicar meu primeiro livro, lembro que você tinha me perguntado também quais foram as dificuldades para chegar até aqui, e aí eu lembro que eu comentei que na nossa vida nada é fácil, né?! Foi difícil para mim a minha infância, foi difícil para mim ter educação, conseguir ter acesso à educação de qualidade, porque minha mãe se endividou muito para que a gente pudesse estudar em colégio particular devido ao sucateamento das escolas públicas, de ensino público. Foi uma dificuldade para mim conseguir estabelecer vínculos e ter amizades. Foi uma dificuldade para mim me olhar no espelho, me perceber, me aceitar, aceitar minha imagem, aceitar quem eu sou. Foi uma dificuldade para mim lidar com a ideia de amor e paixão que não se concretizava, que não se realizava. Foi uma dificuldade para mim desenvolver a minha sexualidade. Foi uma dificuldade para mim conseguir ter uma relação afetiva, um vínculo com alguém, ter um relacionamento. Foi uma dificuldade, e continua sendo, conseguir reorganizar a genealogia da minha família e restabelecer os vínculos familiares também. Foi uma dificuldade me dizer poeta, me admitir poeta, colocar minha voz no mundo. Sempre foi uma dificuldade também escrever e sobretudo declamar minhas poesias, por causa do medo, o medo das pessoas, os comentários, não ser legitimada, de ser ofendida, de ser inferiorizada de alguma forma. Foi uma dificuldade publicar o primeiro livro. Eu tive uma péssima experiência quando fui tentar pela primeira vez publicar com uma outra editora de São Paulo, mas aí Marcelino Freire com Vanderley Mendonça chegaram junto e realizaram esse sonho. 

Luna Vitrolira para o editorial de primavera-verão da Philos 2021. Fotos do Estúdio Orra (Recife).

Eu comecei com quinze anos de idade a declamar poesia, mas só em 2018 foi que eu publiquei o meu livro. Então eu levei dez anos para conseguir materializar esse sonho. Ao mesmo tempo, sempre fui uma pessoa que escrevia para declamar, sempre fui uma pessoa da poética das vozes, e que para mim sempre foi muito mais interessante me entender enquanto livro acontecendo no mundo. Porque quando eu chego em qualquer lugar, as minhas poesias estão na minha mente. Quando eu abro a boca é como se um livro se abrisse diante do mundo, diante das pessoas, então eu sempre fui um livro ambulante. Entender que sou uma poeta da poética das vozes em uma sociedade escriptocêntrica me fez entender que a escrita é um lugar de poder e esse lugar de poder é um lugar que nos dá acesso. Então o livro é um portal, ele abre portas também. A partir dele eu consegui chegar em lugares que eu não chegaria devido a essa estrutura no meio literário, do não reconhecimento dos saberes que são orais e das artes orais também. Então, ser finalista do Jabuti legitimou para o mundo o trabalho que eu já vinha fazendo há muito tempo. Eu questiono esse poder dos prêmios, esse poder das grandes editoras de legitimar e deslegitimar, de determinar quem fica para a posteridade, quem não fica para a posteridade, quem terá visibilidade e quem não terá visibilidade. Porque a gente é quem precisa se legitimar, a gente que precisa se consumir, e tem sido muito bom perceber que o mercado está construindo também as suas vias alternativas e fortalecendo bastante esses lugares. Muitas editoras independentes, muitas pessoas construindo seus próprios livros. Livros de artista, livros artesanais e reestruturando uma lógica, na verdade construindo outras lógicas, outras formas de lógica que não seja a convencional, que é excludente sobretudo. Então eu acredito muito no nosso poder de nos legitimar, de nos consumir, de criar as nossas formas, de fazer a nossa literatura acontecer. Mas também reconheço a importância política de um prêmio ou de ser finalista deste prêmio [Luna foi finalista do Prêmio Jabuti 2019], para os lugares aonde a gente quer chegar, para os acessos que a gente quer ter, e porque também esses prêmios, essas grandes editoras, estão sendo cada vez mais tensionadas a se atualizar no mundo, no tempo, nesse espaço, entendendo as novas… as novas, não; entendendo que estamos vivendo com muita força nesses espaços de disputas de narrativas, que é sobre isso, sobre disputa de narrativas. Então eu fico muito feliz que o meu trabalho esteja alcançando o seu voo, alcançando muitas pessoas, chegando em todos os lugares. O prêmio é um deles, é um desses lugares em que o livro chega. Muitos amores e dores foram aquendados até chegar a essa publicação e até chegar ao Jabuti. Como eu falei, né?! Tudo para a gente é uma luta. Inclusive eu passei muito tempo tentando fazer um livro, tentando buscar, e eram informações que ficavam sempre muito presas, ninguém dizia qual era o caminho das pedras, como é que fazia para publicar um livro. Era uma realidade muito distante no início da minha trajetória, publicar. Não sabia como é que participava de festival, não sabia como é que acessava pessoas, não sabia como é que acessava editoras, não entendia sobre o processo de editoração. Inclusive sobre o processo mesmo de construir, de elaborar um livro, de construir uma narrativa, de entender que existe uma diferença de fazer poesia para declamar e fazer poesia para escrever uma narrativa mesmo, contar uma história, deixar uma mensagem, ter uma proposta, dar ao mundo uma narrativa que seja coerente inclusive com nossas convicções, com nosso propósito de vida. Tudo é sobre propósito para mim. Então foram muitos obstáculos para chegar no livro, para chegar a ser finalista do prêmio Jabuti. O que eu tento hoje é cada vez mais me tornar uma pessoa acessível para quem está começando e quer saber como, passar essas informações adiante, fazer diferente das gerações anteriores, que detinham essas informações e silenciavam quanto a elas. É importante que essas informações estejam no mundo para as pessoas também terem a oportunidade de acessar esses lugares e realizar seus sonhos.

Como que sua arte faz esse diálogo do encontro consigo, com a sua pertinência, levando em consideração tudo o que você já fez, se esse caminho que você já percorreu…

Quando eu escrevo eu estou dialogando comigo sobretudo. E a minha poesia me mostrou muito sobre quem eu sou, me disse muito sobre mim, e foi na minha poesia que eu me entendi enquanto intuição, sobretudo. Nos meus processos de escrita eu me coloco muito aberta, muito aberta como um canal, muito aberta enquanto linguagem desautomatizada, saída dessa lógica cartesiana, racional. Me deixo mesmo pensando com o coração porque eu entendo que a poesia, pensar, refletir, são exercícios cardíacos. Eu estou sempre exercitando a minha espiritualidade quando estou escrevendo. Acho que quando comecei a minha trajetória eu não tinha consciência sobre isso, mas hoje eu me vejo e me percebo muito nesse lugar. E como é importante para mim olhar para trás, analisar a minha trajetória e me perceber. Minha relação com o tempo, inclusive, com esse lugar da memória, entendendo que a minha escrita, mesmo quando eu falo sobre o mundo e para o mundo, também estou fazendo o retorno para mim mesma. A minha caminhada é tanto para fora, em frente, como para dentro e no sentido anti-horário. Entendo que eu sou uma pessoa que nado na correnteza a favor dela. Quando dizem que a gente está nadando contra a correnteza, porque estamos cada vez mais exercitando estar fora do sistema e do caminho que o sistema quer conduzir a gente. Me vejo nadando a favor da correnteza desse rio, desse mar, dessa maré, desse oceano. Que eu estou conectada com a natureza, sobretudo. Então acredito que estou fora cada vez mais de pensar dentro desse tempo que parece ser linear, que está ali girando numa ordem cronológica, no sentido horário.

Luna Vitrolira para o editorial de primavera-verão da Philos 2021, fotos do Estúdio Orra.

Ancestralidade

Estou sempre fazendo o retorno para mim, na minha gira. A gira para a gente, esse movimento circular, ele é importante, mas sobretudo um movimento espiral. Então dentro da minha poesia, quando estou escrevendo, eu me vejo muito flutuando nesse tempo que é espiral, que nunca se encerra, entendendo a importância do meu lugar de memória, que é justamente desse lugar de memória, esse acesso ao tempo. Eu percebo que a minha ancestralidade se faz presente com muita força, porque eu me abro para ela, é uma conexão sobretudo. E hoje com muito mais consciência eu consigo me abrir muito mais e entender muito mais cada palavra que eu coloco na poesia que eu escrevo. Cada coisa que eu digo tem uma intenção e tem um porquê de estar ali. Esse sentimento ancestral agora está na pele, está vibrando, ele me arrepia, ele está no meu mais profundo e ele também me toma toda. Esse lugar de consciência mesmo, de coração, de entender esse exercício cardíaco. As nossas formas mais amplas e mais profundas de sentir. Então sim, ele é muito mais forte, porque ele é muito mais consciente. Ele é muito mais vivo, porque ele é muito mais presente. Influencia diretamente meu propósito, porque é sobre propósito. Ancestralidade para mim também é o meu propósito, também é o meu caminho, é a minha missão. Eu sou continuidade de muitas coisas, de muitas vozes, de muitas pessoas. Eu vivi um encontro agora com Conceição Evaristo, no espetáculo “Cara palavra“, que foi estrelado por Mariana Ximenes, Andréia Horta, Débora Falabella, Bianca Comparato… Eu tinha sido convidada uma vez e retornei no último dia do espetáculo, no último dia da temporada para encontrar Conceição Evaristo, e fizeram uma pergunta para mim e para ela sobre esse encontro de gerações, o quanto que é importante gerações que estão hoje começando a se firmar na literatura, começando a exercer a escrita literária, com as pessoas que já estão aí, que já passaram por aqui. E Conceição falou que para ela é muito importante saber que são as pessoas jovens a maioria das leitoras da obra dela, porque ela se entende como continuidade e nos percebe também como continuidade. Temos as nossas ancestralidades, também seremos ancestralidade de alguém, essa relação com o tempo, nossa relação com o passado, com o presente e com o futuro. Então hoje eu sou presente, continuidade de um passado, mas no futuro, alguém que vai ser presente vai ser a minha continuidade também. Então essa consciência, de entender que essa chama ancestral precisa estar sempre muito acesa, dilatada, porque a gente tem um poder que faz parte dessa missão de continuar uma trajetória, um trabalho que começou muito antes. Então quando essas fotografias, quando esses registros acontecem para mim nesse momento em que eu me vejo muito enraizada, muito firme, muito aterrada, nessa minha travessia do ar, do elemento ar, ao elemento terra, o elemento da materialização. Eu me vejo inteira no meu lugar de ancestralidade.

E ancestralidade para você também significa criar junto com os seus…

Inclusive esse núcleo familiar, para mim, é muito importante, porque a gente cria junto, a gente produz junto, a gente constrói junto. Tudo que eu fiz durante toda a minha trajetória teve a pulsão criativa da minha mãe, Victória, e da minha irmã Gi Vatroi, então a gente sempre se retroalimenta, sempre se motiva, sempre se empurra para o mundo, sempre nos impulsionamos. E tem sido muito importante para mim perceber, na minha trajetória, que esse aquilombamento sempre esteve presente na minha arte, que foi justamente esse aquilombamento que me deu poder, que me tornou capaz, que me fez perceber que a arte era um caminho possível para mim, para eu trabalhar com isso, para eu me profissionalizar nisso, inclusive para me dar forças mesmo, me fortalecer, entendendo que mesmo que o caminho não seja fácil esse é o meu caminho, e de terem sempre me motivado para que eu continuasse, para que eu seguisse e nunca desistisse. Então a família para mim também me sustentou bastante, é a minha base, é meu alicerce, são meus pilares, meu fundamento. Então é meu aquilombamento mesmo, a minha poesia se fortalece ali e é ali que ela nasce, é dali que ela reverbera.

É interessante para mim perceber também o quanto que, de alguma forma, tudo isso, essa energia, essa pulsão criativa, está dentro de casa, mas não só em mim, mas na minha irmã também. Minha irmã é uma existência muito inventiva, muito criativa, ela trabalha com muitas linguagens artísticas também, então a gente tem um núcleo familiar que está dentro desse universo, da criação, de pensar em criar o tempo inteiro. Eu acho que isso se dá mesmo pela ancestralidade sobretudo, hoje eu venho pensando cada vez mais sobre essa relação que a gente tem, mas que de alguma forma a gente achou que tinha perdido, pelo fato de como a estrutura nos conduz no mundo. Mas a gente não perdeu, não se perde, esse vínculo não se perde. Então no meu mapa astral, por exemplo, quando o fiz, a minha pulsão criativa de arte, o marte ou mercúrio, alguma coisa assim, algum desses planetas que estão relacionados a essa criação, à comunicação, está na casa da ancestralidade, e por isso para mim faz muito sentido.

É a força da palavra?

A palavra tem muita força, a palavra tem muitos poderes. Para mim, a palavra é um exercício de autorresponsabilidade, de muita responsabilidade. A palavra, depois que é dita, ela não volta. Minha trajetória me fez entender que eu preciso ter muito cuidado com o que eu digo, porque a partir do momento em que eu estou com o microfone na mão, que eu tenho plataformas que reconhecem a importância do que eu digo, e projetam isso e isso tem uma visibilidade, isso forma uma imagem. É preciso que eu sempre saiba muito bem o que estou querendo dizer e qual é a intenção do que estou querendo dizer. Então toda vez que eu coloco uma palavra no mundo, ela não é aleatória, ela é elaborada para ser precisa. Precisa e necessária. E como eu disse, o começo da minha trajetória foi muito intuitivo. Eu não era uma criança que sonhava em ser escritora, mas sempre escrevia. E a minha trajetória na escrita começa como começa a de muitas pessoas: Fui uma criança que sofri muito bullying, fui uma criança muito retraída, fui uma criança que sofri muitos preconceitos, sofri muitas agressões, físicas, verbais, psicológicas, que atingiram muito meu emocional. A palavra surge para mim como um lugar de fuga, de refúgio, de acolhimento, como um lugar de desabafo, de veículo também. Mas sobretudo me deu um entendimento de como me alinhar espiritualmente, emocionalmente com o universo, com a natureza, na atmosfera da solidão. Fui uma criança muito solitária, muito silenciosa e muito silenciada também. Foi assistindo ao show do Cordel do Fogo Encantado, quando eu percebi que a palavra estava além do papel, estava além da escrita, ela poderia estar no corpo, poderia estar na voz, eu comecei a buscar com mais intensidade a poesia, então… [Luna fica em silêncio, refletindo] Fiquei lembrando de tanta coisa agora, fiz um passeio! [Risos].

Infância

Me lembro muito bem dessa minha criança muito solitária, muito triste, escrevendo de madrugada. Depois que todo mundo ia dormir, eu pegava papel e caneta e ficava ali escrevendo no meu diário, e escrevia tentativas de letras de música, escrevia poemas, escrevia o que eu estava sentido, escrevia tudo, tudo que vinha à minha mente eu colocava ali em palavra, como uma forma de me entender, de conversar comigo, porque não tinha amigas e amigos, então eu sempre conversei muito comigo, e até hoje sou assim. A minha poesia, inclusive, surge de muitas conversas que eu tenho comigo mesma, além de ser uma forma de eu me vingar do mundo, das coisas que as pessoas me fizeram. Eu sou pacífica, eu demorei muito para entender que eu posso ser pacífica, mas preciso me posicionar, preciso falar o que sinto. Sempre me silenciei muito, sofri muito calada, e escrevendo tudo o que sentia.

Então comecei com os diários. Lembro que eu dormia com a minha mãe, quando criança, na cama com ela. Tem uma cena que para mim que é muito forte, como o quarto era uma suíte eu ligava a luz do banheiro, deixava a porta entreaberta e a fresta de luz iluminava um pouco o quarto, e eu ficava bem na fresta com o caderno, escrevendo enquanto minha mãe dormia ali de madrugada. Eu ficava escrevendo e escrevendo, ia dormir já de manhã e sempre perdia o horário da aula, sempre perdia o horário de ir para a escola.

A palavra sempre foi o instrumento…

Então a palavra para mim sempre foi um instrumento de fazer política, transformar a minha realidade, a realidade das pessoas, de inventar realidades, porque inclusive sempre fui uma criança muito imaginativa, muito platônica, sempre sonhei muito acordada, inventando histórias para a minha vida, coisas que eu queria viver. Então eu ficava ali confabulando narrativas de como seria a minha vida, de como eu queria viver cada coisa. Ficava imaginando tudo e escrevendo sobre isso. E isso me fez entender quais eram os meus sonhos, quais eram as minhas metas, quem sou eu no mundo, entendendo as coisas que eu passava, o que me fazia mal, o que me fazia bem. Lembro também que quando eu comecei a trabalhar com literatura, eu comecei a trabalhar num projeto chamado “Agente da palavra“, e tínhamos os agentes de saúde, que batiam de porta em porta para verificar água, para passar informações. E eu ia de porta em porta para dizer poesia para as pessoas, e cheguei a entrar na casa de muitas pessoas desconhecidas, tomar água, tomar um chá, comer uma fatia de bolo, dizer poesia e ficar ali conversando durante um tempo. Porque muitas vezes, falando de Pernambuco, e sobretudo sertão de Pernambuco, quando eu fazia esse projeto, eu tava lidando também com pessoas que são da poesia, da vida da poesia, do exercício da vida da poesia, então sempre que eu dizia uma poesia alguém lembrava de uma poesia, e eu passava um tempo ali na casa da pessoa dizendo e ouvindo, dizendo e ouvindo. Então para mim foi um instrumento político, de entender que era a minha forma de me comunicar com as pessoas, com o sentimento das pessoas, com a sensibilidade das pessoas, uma forma de abrir portais na consciência das pessoas, de intervir no dia de uma pessoa, trazendo uma mensagem boa, trazendo uma mensagem de acolhimento, trazendo uma reflexão diante desse mundo todo, e eu sempre me vi muito nas pessoas com quem eu encontrei nesse mundo. Afinal de contas, estamos aqui vivendo nesse plano, passando por tantas questões, por tantos desafios, e com problemas semelhantes, experiências semelhantes. Então me entendi muito, me entendi muito a partir da palavra. Inclusive entendendo a palavra como um espelho onde eu percebia muito da minha personalidade. Tudo que se esconde de alguma forma se revela. Então tudo que estava escondido em mim e de mim mesma, não só escondido para o mundo, mas de mim mesma, sempre se revelou pela palavra.

Luna Vitrolira no backstage de seu editorial de primavera-verão para a Philos 2021, fotos do Estúdio Orra (Recife).

MODELO LUNA VITROLIRA EDITORIAL @REVISTAPHILOS @CASAPHILOS PRODUÇÃO E FOTOGRAFIA ESTÚDIO ORRA GABRIELA PASSOS GUTO QUIJANO & JOSÉ REBELATTO ACESSÓRIOS XURUCA PACHECO ENTREVISTA JORGE PEREIRA 


A entrevista completa com Luna Vitrolira você lê na edição impressa de primavera-verão 2021 da Philos. Assine e tenha acesso a conteúdos exclusivos.