“A Favela é nossa!
Respeita, Respeita!
A favela é nossa!
Respeita, Respeita!”

05 de agosto de 2020

O mundo sofre para se adaptar à nova realidade do isolamento social ocasionado pelo COVID 19. Uns sofrem mais que outros. Entre os mais sofridos, no Brasil, estão as pessoas negras, pobres e faveladas. Nas favelas da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, o corona-vírus é comparado ao corona-tírus, que é causado pela violência de estado que, com suas operações, matou crianças, adolescentes e jovens. Diante da luta e clamor de movimentos sociais, o ST F- Superior Tribunal Federal instituiu a ADPF 635 (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) suspendendo operações policiais em favelas durante a quarentena. Uma vitória para movimentos sociais e moradores de favelas.

19 de agosto de 2020

No Conjunto de Favelas do Viradouro, em Niterói, começa uma ocupação policial. A quarentena segue e o STF mantém a proibição de operações policiais. O pedido para esta ocupação, segundo um jornal, foi do prefeito de Niterói, Rodrigo Neves (PDT), que teria se reunido com o governador afastado Wilson Witzel (PSC). O mandatário estadual (afastado do governo e em via de processo de impeachment por crime de corrupção) teria ordenado a ocupação do complexo de favelas na Zona Sul de Niterói. Uma excepcionalidade à proibição do STF. As autoridades decidiram ocupar o Viradouro com armas, fuzis e policiais para instalar cabines blindadas (nos moldes da UPP – Unidade de Polícia Pacificadora) para segurança da população. Até o momento, onde isso aconteceu, só gerou insegurança… e muitas mortes! Cadê o Amarildo? A favela da Rocinha continua perguntando.

OCA – Ocupação Cultural do Viradouro, Rio de Janeiro (Centro do Teatro do Oprimido)

Diante da ocupação policial, Eloanah Carolina da Silva Gentil, mulher negra que atua no palco e na vida com a metodologia do Teatro das Oprimidas, um avanço revolucionário do Teatro do Oprimido, propõe a realização do manifesto: A Gente pela Gente! No Teatro das Oprimidas, praticado por Eloanah, o objetivo é a transformação da realidade. As técnicas teatrais, as produções artísticas devem provocar discussão crítica sobre a realidade e produzir ações concretas que provoquem mudanças na vida cotidiana.

Mas, como se engajar em ações transformadoras quando a realidade te bloqueia as ideias, te cansa e te exauri a ponto de não sobrar tempo nem para respirar? Como pensar em ambientes de paz quando a guerra vem a sua porta e sua preocupação mais urgente é sobreviver e tentar garantir a sobrevivência de seus filhos? Como se articular tendo o medo constante de sua filha ser violentada sexualmente por um policial e/ou por alguém dos poderes transversais de onde mora? Como reagir se todos os poderes estão nas mãos de homens? Como não temer, sabendo que, mesmo desarmados, os homens, por serem homens, se sentem no direito de abusar até de crianças de 10 anos? Como ser estratégica e, ao mesmo tempo, cuidar das filhas, da casa, do trabalho, do estudo com aulas virtuais com internet que não conecta? Como se concentrar com operações policiais? Como unir uma comunidade envolta em conflitos alimentados pela armadilha dos opressores? 

Como enfrentar um conflito que começou com um prefeito (um homem branco) que se reuniu com um governador (um homem branco) e um coronel (um homem branco) comandante de um batalhão da polícia para ocupar um território e desafiar, segundo este prefeito, um traficante (um homem), enviando quase uma centena de homens?

OCA – Ocupação Cultural do Viradouro, Rio de Janeiro (Centro do Teatro do Oprimido)

O território que esses homens decidiram ocupar, o Viradouro, é maciçamente habitado por mulheres negras. Nenhuma delas foi consultada.

“Não dá mais para continuar desse jeito. Precisamos fazer alguma coisa”, disse Eloanah. Superando a insegurança inicial, um grupo de mulheres negras abraça a proposta de Eloanah mesmo tendo que enfrentar toda uma estrutura machista, patriarcal e racista. Unidas e determinadas, elas criam a OCA: Ocupação Cultural e Artística do Viradouro, a favor da comunidade e contra a Ocupação Policial, exigindo que as autoridades escutem suas reivindicações.

A primeira manifestação agendada foi frustrada por uma chuva torrencial. Apesar disso, nas redes sociais, uma outra mulher negra, Cíntia Gonçalves, publica um vídeo mostrando sua casa completamente devastada e bagunçada pela polícia enquanto ela estava trabalhando. 

 

#LARDEMORADORARESPEITE:

26 de agosto de 2020

No dia seguinte, com tintas e pincéis improvisados, algumas mulheres começam a pintar lençóis doados com a seguinte frase: # LAR DE MORADORA. RESPEITE! Perguntam a outras vizinhas se gostariam de participar colocando a intervenção estética em suas janelas. Desconfiança, medo de retaliação, ironia, desprezo e até violência doméstica impedem a adesão de muitas delas.

“Eu gostei de ter pintado com você, mas conversei com meu marido e ele achou melhor não participar”, disse uma das vizinhas, após pintar o lençol em conjunto.

Eloanah coloca um lençol em sua janela e chama pessoas parceiras para realizar um vídeo sobre esse processo inicial. O vídeo viraliza e outras vizinhas começam a aderir ao movimento. 

02 de setembro de 2020

Outras mulheres, ao verem os lençóis pendurados e o vídeo, pedem para que seja feita a mesma ação em seu Morro. A ação acontece no Morro do Africano. Mais mulheres querem pendurar a mensagem em suas janelas.

 

Eloanah se articula e realiza reuniões com a Associação de Moradores, atualmente presida por homens lidos como… vamos dizer claros brasileiros! Depois que eles se certificam que ela não tem interesse em se candidatar e nem está ligada a nenhum partido político, oferecem o “apoio” da Associação. Ela tenta se reuni com uma organização cultural da favela, também coordenada por homens, que, por telefone, prometem ajudar no que puderem. Dos organizadores da escola de samba da comunidade, também homens, recebe o seguinte aviso: “disseram que você está envolvida com aquele partido de esquerda. Se for assim…”. Em suas redes sociais, Eloanah ratifica que não é candidata e nem é filiada a nenhum partido.

Em conjunto com outras mulheres, Eloanah, mapeia as e os artistas do Viradouro. Além dos artistas, as crianças fazem músicas (entre elas a que abre esse texto), dançam e tocam instrumentos emprestados pela escola de samba. Eloanah ainda encontrou tempo para ensaiar com as mulheres de seu morro a performance Suspeita, do Coletivo Madalena Anastácia.

05 de setembro de 2020

Com Pula-Pula, Cortes de Cabelo, Cortejo com os instrumentos da Folia do Viradouro, Poesia/Slam, música com o Cantor Buiú, Performance, Dança, Doação de Livros, Brincadeiras, Cachorro Quente e a Barraca de Cíntia Gonçalves, aconteceu a primeira edição da CA – Ocupação Cultural e Artística do Viradouro. A programação estava prevista para encerrar às 15h, mas foi até às 17h30. Uma ação comunitária e revolucionária!

Repercussão da OCA faz prefeito receber Moradores do Viradouro

Pelas ruas, becos e vielas do Grande Viradouro só se falava na manifestação. Nos jornais, a OCA ganha visibilidade. E os cadernos de Niterói, dos principais jornais do Rio de Janeiro, estampam os abusos cometidos pela polícia e a reação criativa das moradoras. 

10 de setembro de 2020

A repercussão levou o prefeito a convidar a Federação de Associação de Moradores de Niterói, juntamente com a Associação de Moradores do Viradouro, para uma reunião num espaço nobre da cidade, o Solar do Jambeiro. A equipe da Associação de Moradores do Viradouro foi representada por 5 pessoas, 4 homens e 1 mulher. O prefeito tentou explicar o porquê da ocupação. Apesar de não anunciar o fim da ocupação policial, prometeu realizar uma Ocupação Cultural nos moldes da realizada pelas mulheres negras do Viradouro.

OCA 2: agora no Pico do Morro

“Esse trabalho que vocês estão fazendo é continuação”. Afirmou Dona Efigênia, Presidenta da Associação de Moradores do Morro da União por mais de 30 anos.

12 de setembro de 2020

As mulheres negras deram continuidade aos preparativos para a segunda OCA. Aline Cristina e Larissa, ficam responsáveis pela preparação da feijoada. Dona Teca doou refrigerantes, Dona Aída cortou as laranjas, Priscila, Fabiana e Natasha pegaram firme na ornamentação. Maiara Carvalho chegou com mãos, braços e força dando o gás em todas as funções, desde a distribuição de picolés, a fiação das luzes, passando também por som e projetor. Samantha Sú mobilizou parceiros para o registro de imagens. Cintia, a mulher que denunciou a invasão da sua casa no Facebook, subiu o Morro e se juntou às mulheres da União. Ela confirmou o ”boato” de que a polícia estava evitando as casas com o lençol. “Não entram mais lá”, falou.

Dona Marlene, 81 anos, abre os trabalhos falando de sua trajetória no Morro. Em seguida, exibimos o filme “Desterro”, do coletivo Siyanda. Durante a exibição, à medida que Gustavo, Gabriel, entre outros moradores do morro, apareciam na tela, a comunidade os aplaudia. A projeção foi um sucesso e as mulheres querem realizar um cineclube mensal, a ser inaugurado no dia das crianças.

A feijoada fez o protesto ainda mais saboroso. As crianças se divertiram no Pula Pula e se deliciaram com os picolés de sobremesa. O parceiro do Favela e Arte apresentou rimas e poesias no estilo slam. Eu declamei “Suspeito”, poema de Bárbara Santos que inspira várias performances. O pagode, na caixa de som, rolou até às 11h da noite. O Morro estava iluminado e cheio de vida. O céu cheio de estrelas abrilhantou a festa. As organizadoras saíram satisfeitas e desejam continuar. 

Reunião com o comando da polícia

15 de setembro de 2020

A repercussão da OCA reverbera mais e mais levou os comandos que da ocupação policial (BOPE, CHOQUE e 12º BPM – Batalhão de Polícia Militar), a chamar uma reunião com os moradores das comunidades, no Colégio Estadual Guilherme Briggs, em Santa Rosa, arredores do Viradouro. Esse encontro foi uma solicitação da Federação de Associações de Moradores de Niterói -FamNIT, a fim de receber explicações sobre a ocupação. 

Os comandos envolvidos enviaram uma mulher para coordenar esse encontro, a capitã Tatiana Lima, do Choque. Quando questionado sobre a alta taxa de mortalidade negra cometida pelas autoridades, um dos chefes do comando deu a seguinte resposta: “negros morrem mais porque são maioria da população. É só um reflexo populacional”. 

O dito chefe recebeu a informação que, em Niterói, que negros e negras são minoria, cerca de 35% (IBGE 2010) da população. Ainda assim, os negros são 88% (Instituto de Segurança Pública) dos mortos pelas autoridades do estado.

Eloanah e as mulheres negras saíram dessa reunião decididas que a OCA tem que continuar. E agora estão se articulando com movimentos internacionais para que a luta do território do Viradouro possa ser reverberada e compartilhada com lutas passadas, contemporâneas e atuais.

“Neste mundo de retrocessos políticos promovidos por uma extrema direita populista, fascista, machista, arrogante, ignorante, heteronormativa e hipócrita, que prolifera propostas de ódio para estabelecer uma supremacia branca e masculina, as feministas voltam ao topo da lista como inimigas. Mas, por toda parte, são elas, somo nós, as feministas, que estão, que estamos, nos diversos fronts de lutas mostrando que a revolução é feminista e ponto.”

Eloanah Gentil, mulher negra, cria e criada da favela, do seu front está revolucionando o Complexo do Viradouro continuamente e de forma concreta.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.