O isolamento era só meu,
Veio bem devagarinho,
no início eu até o confundia com carinho.

O isolamento era só meu,
Crescendo aos poucos.
Num disfarce perfeito:
mistura de cuidado e excesso de amor.

O isolamento era só meu.
Foi se alastrando dentro de mim.
As vezes como culpa ou medo de uma eterna solidão.
Cada vez mais forte e silencioso lá dentro do coração.

O isolamento era só meu.
Aprendi com meus erros.
Sair, beber com amigos, sem condição.
Por que irritar quem simplesmente me ama do fundo do coração?

O isolamento era só meu:
Chegou o dia em que descobri.
Caíram os véus junto com o medo que senti,
E a certeza de que não teria para onde fugir.

O isolamento era só meu:
Sobrevivendo aos poucos, ato de autodefesa ou automutilação?
Encolhi meu “eu” para que só vissem o “nós”.
De forma que não viessem mais torturas,
consequência do meu suposto egoísmo e falta de compaixão.

Mas agora,
O isolamento é de todos…
Nem a desculpa de trabalho existe mais,
para tentar atenuar os dias possivelmente fatais.

O isolamento é de todos…
Vinte quatro horas por dia,
sufoco e engulo o choro em agonia.
Torço em silêncio, para que no novo dia
não seja considerada a vagabunda ou vadia.

O isolamento é de todos…
Obrigada a viver isolada com meu isolante.
Isolados em conjunto, tento fingir ser amante.

O isolamento é de todos!
Não sei como esse amor virou tortura e dor.
Mas receio todas as noites de não conseguir mais ver cor.
Ver céu, ver lua, ver sol.

Nua, com feridas ainda cruas,
não sei se esse vírus é mais letal do que minha condenação.
Prisão invisível, solidificada no meu inconsciente.
Vou esquecendo e sendo esquecida.
Enquanto o mundo aguarda ansioso a vida,
Eu só espero que eu consiga passar por mais um dia.


Debora Calmon (Rio de Janeiro, 1987). Carioca, transântica, aprendendo esse carnaval da vida. É autora do livro “Gozantes“, publicado pela Casa Philos em 2018. Atualmente vive em São Paulo e é colaboradora da Philos.