Pare de morder a boca. Está louca? Morrer não vale elegância. Marcou os lençóis todo com sangue. Está toda arranhada. Esfrega a pele para livrar-se do invólucro do passado. Não percebe? Assim vai morrer. Pare de bater a cabeça. Olhe, acabou de amassar o lado direito. Está vazando. Aquela noite é justificativa falha para definhar dessa maneira. Antes de hospedar-se no grande hotel, sabia prolongar a noite. Desde menina construía suas bonecas com os ossinhos dos pardais que sua cachorra matava no quintal. Na escola impunha respeito. Por não conseguir codificar fonemas, sempre ignorou o próprio nome. Furava com compasso, qualquer menino preso as vértebras de macho. Não puxe a linha. Sua sobrancelha acabou de ser costurada. Há infinitos frascos de perfume quebrados pelo chão. Não importa o que vai acontecer. Esse hotel será fechado. Não saia da cama. Já cortou demais os pés com os cacos. Repelir a imagem do demônio será o mesmo que rejeitar a criação. Onde estará a verdade a não ser nessa sujeira toda? A camareira está ali fora, limpará tudo em alguns minutos. Nunca deveria ter esquecido que é sonâmbula. Estava toda de preto quando veio para esse hotel fazer o seu trabalho, antes do fato que te levou a autodestruição. O tempo não desatava a cinza vergonha da clarividência. Olha para mim como se houvesse culpa. Esse maldito hotel fez isso consigo mesma. Retiram-se quantas chaves? Trancam-se quantas portas? Durante a construção a errância dos antepassados é herdada a todo construtor que olha para o seu próprio fim. No piso há toda história do subterrâneo das lavras, dos cupins – os responsáveis pelo canto da madeira. É preciso fazer esforço para ouvir. Em anestesia a vida banal, você mesma me ensinou – A revolução do corpo anestesiado é conseguir em coma a eutanásia de si mesmo. Dessa forma, perceberá que o rompimento do chão foi o final triunfante da orquestra que habitava a madeira muito antes de você cogitar vir trabalhar aqui. Dizem que é louca. Os hospedes, dão a segunda pele que se debate infinita no breu. No olhar que te desenham, lá pelos corredores e quartos, trocam suas cordas vocais e no lugar lhe dão esponjas embebidas de vinagre, só para que não conte a verdade. Devo deixar a camareira entrar? Não há possibilidade de você sair dessa cama com tantos cacos no chão. Os perfumes que passou, penetram como a sepultura no corpo do morto em decomposição. Está cheirando moita orvalhada. Dá-me a mão, vou cortar-lhe as unhas. Não há mais coagulo que suporte seus arranhões. Na noite do acidente o seu salto alto fez com que o chão de madeira se rompesse. Fezes, mofo e celulose por todos os seus poros. Mas isso se resolverá. Logo a camareira entrará e todo o hotel saberá onde suas paredes foram erguidas. Pare de se mexer. Vou cortar seu dedo e não a unha. Gritar agora é inútil, disse para ficar imóvel um minuto. A camareira acabou de entrar, se pudesse enxergar com lucidez veria – a busca pela permissão de vida em jorradas constantes de seu sangue. Agora ela limpará os vestígios da história mal contada – A mulher que enlouqueceu ao cair na grande fossa que sustenta esse velho hotel, se pudesse parafrasear o poeta diria que se o coração pudesse pensar ele pararia.


Victor Grizzo é Artista Visual e escritor graduado em História pela Universidade de São Paulo. Foi a partir do trabalho com o artista Walmor Corrêa, em 2014, que iniciou sua pesquisa artística própria trabalhando questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, escultura, instalações). No início de 2016 foi escolhido pelo cineasta Tim Burton através de um concurso de desenho realizado pelo MIS com a obra “Chá das Cinco” para ser exposta no museu. Em 2017 foi convidado a participar da exposição “Uterotopias” do curador antropólogo Leonardo Bertolossi, no espaço cultural A Mesa no Rio de Janeiro, expondo a obra “Caprichos Em Fio Livre”. Nesse mesmo ano participou da segunda edição da Diversa, no Museu da Diversidade Sexual em São Paulo com a obra “Luz Dos Olhos Meus”. Em abril de 2018 realizou a exposição individual “O Invisível Plagiado – O Pó Que Restou Das Asas” na Galeria Ocuparte em São Paulo. Participou do Segundo Festival Internacional de Artes Gráficas (FINART) com a instalação “Ocupação Escarnizinhos”. Em 2019 participou da exposição Percurso da Memória na Galeria Lona com a série Derrelições, e integrou o coletivo de artistas fixos da Galeria Tribo, participando de quatro exposições. Publicou o Livro “Luz dos Olhos Meus” pela Casa Philos, livro infantil que retrata questões de gênero na infância. Desde 2020, pesquisa e trabalha com taxidermia como suporte para indagações, perguntas e questionamentos como pontos de partida para suas obras. Em 2021 lançará seu primeiro romance e o segundo livro infantil também pela Casa Philos.