Palabreria: Pensando nas escritas de mulheres feministas e de feministas negras, em especial, muito se fala em deixar de lado a (falsa) ideia de “imparcialidade” ou “universalidade”, da qual se fantasia o discurso patriarcal branco colonialista. Assim, a ideia de “escrita encarnada” permeia a produção de muitas artistas e pensadoras. Gostaríamos que você falasse, do ponto de vista da sua criação, como o seu corpo e sua experiência aparecem na sua escrita?

Acredito que acabei me tornando dramaturga e depois roteirista porque não via as experiências vividas por mim, tampouco das pessoas do meu entorno, representadas. Nossas presenças estavam sempre condicionadas ao aspecto social, racial, de gênero, como se não tivéssemos subjetividade, sonhos, paradoxos. Como se nossas vidas coubessem em um relato antropológico, sempre como objeto de estudo. Escrever envolve coragem e necessidade e uma ação depende da outra. A urgência cria coragem. Por muito tempo, a inquietude me devorou, como se eu não tivesse lugar no mundo. Qualquer pessoa fora do “padrão universal”, que a gente sabe muito bem qual é (basta olhar para as imagens e narrativas envolvendo estas presenças), é abraçada por sentimentos assim. Neste processo, perdemos muitos talentos, não tenho dúvida. Todo mundo deveria ter o direito de exercer os seus dons. Não sou uma mulher padrão em nenhuma instância, minha história envolve escolhas muito arriscadas. Venho de uma família de mulheres fortes, das favelas do Rio, do interior de Minas, de negras, indígenas, imigrantes pobres, fui criada em um terreiro, mudei de cidade muito jovem, casei cedo, tive filhos, estudei e os criei com todo o sacrifício que isso exige. Evidente que isto afeta minha escrita. Minha vida até aqui envolveu cuidar e escrever. Tenho refletido muito. Há algum tempo, venho buscando alguma serenidade no caos, criando linhas de fuga, sim, mas para dentro, mergulhando na subjetividade das vozes que habito durante a escrita, sem ignorar a máquina de moer gente que nos cerca. Acredito na “micropolítica dos afetos”, em mutirões, associações, cooperativas, irmandades. O tipo de política que as mulheres desse país, sobretudo, praticam há séculos.

Palabreria: Seguindo o raciocínio da pergunta anterior: quais outros corpos você convoca na sua criação. Quais outras mulheres – artistas e pensadoras – ecoam na sua prática?

Tenho meu próprio altar de Entidades para quem rezo e peço conselhos. Oyá Delê, minha mãe, minhas avós Alice e Waldemarina e minha filha, Dionne, sempre estarão antes de todas as mulheres do mundo, como grandes referências para mim, mas Leda Maria Martins é alguém muito importante para a minha formação. Ela pensa dramaturgia a partir do Brasil, olha para dentro, além de unir discurso e prática, algo muito raro. Toni Morrison, Isabel Allende, Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento, Sobonfu Somé, Jota Mombaça, Maya Angelou, Thereza Santos, Marguerite Duras, Lélia Gonzalez, Grada Kilomba,  Grace Passô, Consuelo de Castro, Bell Hooks, Maria d’Apparecida são algumas das mulheres deste altar, mas há muitos outros nomes. É um verdadeiro céu de potências. Tenho uma conexão espiritual, artística e afetiva com muitas artistas de Minas Gerais. É algo muito forte.

Palabreria: Você poderia falar um pouco sobre a dimensão do tempo no seu trabalho? Em Black Brecht, por exemplo, há uma justaposição de temporalidade (eventos presentes se encadeiam com episódios ancestrais e projeções de futuro). Em Ialodês,  a dramaturgia começa com a epígrafe: “O agora é o agora/ O agora é o passado/O agora é o futuro”. Como sua criação se relaciona com o tempo?

O entendimento do tempo, do modo como somos levadas a crer, também é uma invenção imposta a partir de um ponto de vista único, o famigerado “universal”. Nossa memória, porém, nos dá pistas de que esse tempo linear, cronológico, não existe. Nós habitamos muitos tempos e muitos espaços. Acredito que o passado não permite que o presente aconteça, enquanto não o confrontamos. Tudo o que nós, pessoas vivas, temos, é o tempo presente para mudar o passado e inventar futuros. A escrita nos permite operar desta forma. Tenho escrito muitos textos dramáticos a partir de biografias e eventos históricos. Há muitas histórias não contadas, muitos pontos de vista não registrados, muitas formas de se lidar com o tempo. Estamos adoecidas, tentando viver sob essa ditadura de um tempo que não comporta toda a vastidão de nossas experiências, tampouco a nossa multiplicidade.Tudo o que eu busco é furar o tempo sob o qual fui submetida desde o nascimento, atravessá-lo. Talvez pela falta de conhecimento sobre a  origem da minha própria família, eu precise inventar, recriar um passado.

Palabreria: Em sua escrita a ancestralidade é algo muito presente, assim como curanderia, bruxaria, sociedades matrilineares…? Gostaríamos que você falasse um pouco sobre esse processo de escrita trazendo essas referências e outras nas quais você se inspira.

Fui gerada e criada em meio a rezas, banhos de folha, cantigas, parábolas, metáforas, tambores. Fui criada em um terreiro, visitando terreiros de outras pessoas, espaços coletivos de muita força, liderados por mulheres. São lugares de acolhimento, sabedoria e fortalecimento. Nunca tive uma religião, não escolhi, eu nasci dentro de uma filosofia que não separa a humanidade da natureza. Toda a minha sensibilidade foi construída neste lugar de chão de terra batida, folha de mangueira e encanto, onde qualquer pessoa era bem recebida, sempre tinha comida e um afago. Um lugar onde as mulheres lideravam com muita sabedoria. Há alguns anos, venho pesquisando sobre as Irmandades Negras. O modo como essas mulheres sobreviveram e sobrevivem, como elas garantiram que chegássemos vivas até aqui, ainda não foi estudado, registrado, muito menos reconhecido o suficiente. Para Matriarquia, texto que escrevi recentemente, acessei os dados sobre agentes de saúde, em sua maioria mulheres negras. E ao pesquisar sobre a história da enfermagem, me deparei com todo o apagamento da contribuição das enfermeiras negras. Basicamente, você aprende sobre Anna Nery, mas não sabe quem foi Maria Soldado.

Palabreria: Gostaríamos que você falasse um pouco sobre sua experiência como dramaturga do projeto espetáculo na Fábrica de Cultura da Brasilândia. Como foi escrever e criar junto com essa juventude?

Passei três anos como dramaturga convidada e educadora na Brasilândia. Os primeiros dois anos foram de um aprendizado agudo. Logo no primeiro dia, fizeram uma dinâmica para que eu conhecesse a turma. Perguntaram sobre qual seria o maior sonho de cada aprendiz e uma menina de uns doze anos disse: “Meu sonho é não perder mais ninguém”. Eu vinha de uma sucessão de trabalhos com grupos de teatro de São Paulo, em um ambiente artístico de muita liberdade, estava confortável de certa forma. Essa resposta me fez voltar para as minhas raízes. Foi como reencontrar a adolescente que fui em cada jovem que eu conheci. Na Brasilândia, entendi que tinha menos para ensinar e muito mais para aprender. Cheguei lá com um projeto de estudos definido, um cronograma detalhado. Na primeira semana lemos Medéia, de Eurípedes, cheguei com uma aula sobre tragédia na cabeça. A resposta do primeiro dia e a leitura que fizeram sobre a peça grega me fizeram rasgar o projeto. Eles e elas compreendiam a tragédia na prática. Me coloquei em um estado receptivo. Vivemos momentos lindos, outros muito tristes, como a perda de uma aprendiz, Rafaella, morta por afogamento. Passamos um ano estudando Brecht. Montamos Brasilândia submersa. No ano seguinte, estudamos Afrografias da memória, livro de Leda Maria Martins, ela veio até nós. No terceiro ano, estudamos Ailton Krenak e  foi o mais doloroso, porque teve a pandemia, o projeto sofreu mudanças que afetaram a estrutura pedagógica e nós, da dramaturgia, fomos cortados. Durante os três anos, trabalhei com a educadora e diretora Antônia Mattos, uma parceria feliz. Era um projeto muito lindo, de formação, não catequizador, que trabalhava a partir de talentos já existentes. Envolvia muita leitura, exercícios práticos de preparação corporal, vocal, ensino de confecção de figurinos, adereços, cenários e que resultava em uma peça no final do ano, em um teatro lotado pela comunidade. No lugar de estarem na rua ou presos em casa, estavam lendo textos dramáticos, teóricos, escrevendo cenas, exercitando a imaginação. Aquilo afetava, muitas vezes, toda a família, contagiava. Enfim, foi uma experiência transformadora.


A coletiva palabreria nasce a partir de processos artísticos e práticas pedagógicas encabeçadas pelas artistas pesquisadoras Fernanda Machado, Luiza Romão e Sofia Boito. Nosso encontro inicial se deu por meio do Projeto Espetáculo, na Fábrica de Cultura da Brasilândia, onde desenvolvemos duas peças de teatro em colaboração com cerca de 40 adolescente Díptico (2015) e Ponto de Fuga (2017). Em 2018, nos reunimos, novamente, para fazer a performance Scripta Manent, Verba Volant sob direção de Luiza Romão, na biblioteca do SESC Paulista. Já em 2019, iniciamos um novo projeto que mescla literatura, teatro, cinema, performance e feminismo, desde uma perspectiva latino-americana. Em 2020, realizamos atividades formativas em ambiente digital sobre os temas citados, para o Centro de Pesquisa e Formação do SESC (CPF/SESC) e Oficina Cultural Oswald de Andrade; além da intervenção digital Palabreria feminista, com textos de Maria Galindo, Silvia Federici, Angela Davis, e outras.