Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma. -alberto caeiro


Caro Caeiro,

Te escrever é absurdo por não saber onde te encontrar. Por ter certeza que ainda continuas andante pelas estradas se preocupando em estar somente presente onde se está. E sei que esses que tem teimosia por presença acabam por não estar nunca no mesmo lugar. Espero que essa carta chegue a você. Espero que ela te descanse as canelas. Há pouco tempo eu nem sabia se era possível escrever cartas aos mortos, mas um amigo poeta me disse uma vez que os poetas tinham guardado segredos à ele e me disse que achava que você tinha guardado alguns pra mim também. Te escrevo como só mais um que caminha e que caminhando tem tentado lavar os olhos pra olhar o mundo sempre pela primeira vez.

Há alguns anos eu li um trecho de uma matéria de jornal com uma frase do Antonio Candido que me revirou do avesso. O trecho era “O capitalismo é o senhor do tempo. Mas o tempo não é dinheiro. Dizer que tempo é dinheiro é uma brutalidade. Tempo é o tecido das nossas vidas.” Tempo é o tecido das nossas vidas, eu repeti quando li. Por isso comecei a andar.

Te confesso, Caeiro, que andar não me traz coisa alguma. Não me entrega nada de especial. Quando digo que ando, as pessoas dizem que é meditativo, que eu devo ter pensado muito na vida, que tem alguma ligação espiritual. Eu escuto e aceno afirmativamente com a cabeça mas, sinceramente, eu só sei que ando. Só sei que fui daqui alí com minhas pernas. Sei que lá estive e pronto. Isso me basta. Sei que vi pedras que me ajudaram, cachorros que me atacaram e que conversei com um caramujo e que isso tem pouquíssima importância. Sei que bebi cerveja e fumei tabaco com Dona Elza e sua neta Marmory no dia 31 de dezembro de 2019 em Pindorama, no extremo sul da Bahia. Eu sei que estava alí.

Nasci e vivo na cidade de São Paulo. Não consigo dizer que aqui foi o lugar que escolhi como morada porque nunca me senti, de fato, fazendo essa escolha. O que quero te contar é que nascer aqui no século XXI é como ser programado para pressa. Aqui a gente nasce com asfalto e fumaça nos dentes e parece impossível não tropeçar os passos quando se dá um gole no café já pensando no próximo gole e ouvindo as notícias no jornal e programando a semana e o que é que vou assistir essa noite? É uma doença social mesmo. Venderam pra gente a ideia de que o mundo é um “sonho de possibilidades só basta você querer”, e quando a vida se apresenta na sua total banalidade a gente não dá conta.

A vida não é um mar de possibilidades. Eu trago no meu peito um mar imenso de sonhos e por acreditar que tudo nesse mundo se transforma a partir da ação humana o que eu desejo pra mim é estar inteiramente onde estou. Olhando no profundo da concretude enquanto eu existir. Foi isso que o mundo tirou da gente. A sabedoria que viver é só dar um passo depois do outro até que não se dá mais passo nenhum. Não existe território de passagem. Existe só território de presença. Na estrada que liga uma cidade a outra o que existe é gente morando e criando família, trabalho, história, e essa é a vida dessas pessoas. Encarar a estrada como território de passagem até uma cidade é o que nos faz não chegar à cidade nenhuma. Nós somos só um ponto na linha infinita da história.

A última longa viagem que fiz andando foi de Porto Seguro à Salvador. Foram nove dias andando. Por muitas vezes eu me encontrava completamente sozinho no meio da estrada. Quilómetros de nenhum carro pros dois lados. Nenhuma casa. Ninguém. Nessas horas era inevitável que a imagem da consciência do meu próprio corpo não subisse lá pro alto e eu me percebesse como um ser humaninho no meio do mundo. Minúsculo e mortal. O próprio caramujo. Nesses momentos, a constatação da minha pequenez e insignificância eram meu encontro mais genuíno com a liberdade. Deitar sozinho na estrada e pensar que é bom estar vivo.

Resolvi te escrever essa carta porque tenho achado importância em dizer obrigado. E digo baixinho ao vento na esperança de que a palavra te alcance os ouvidos. Sinto dificuldade em escrever sobre o que é andar porque as palavras pesam na importância e inflam algo que é totalmente ligado à experiência do real pra mim. Tenho vontade de que andar seja minha vida e não um projeto artístico. E ler seus poemas me dá a direção no horizonte e a consciência de que escrever sobre o que é banal não serve para entregar-lhe importância, mas para garantir que o mundo existe e que é nele que estamos.

Quem sabe nos encontramos pela estrada antes do castelo, refrescando a cuca com um trago de água gelada, enquanto fitamos o primeiro despontar do sol atrás do monte.

Com carinho,
Renan.