Temos a alegria de apresentar dois poemas inéditos da escritora venezuelana Esther Pineda G. Esther é socióloga, Mestre em Estudos da Mulher, Doutora e PhD com honras em Ciências Sociais pela Universidade Central da Venezuela. A convite da Revista Philos, a autora publicará no Brasil os seus livros Ressentida (Casa Philos, 2021)e Racismos, estigma e vida cotidiana: ser afrodescendente na América Latina e no Caribe (no prelo, Casa Philos, 2022); um recorte poético e ensaístico das questões da negritude e latinidades. As traduções são de Lucía Tamaroff, argentina, formada em francês língua estrangeira (FLE) em Buenos Aires no Instituto Superior Lenguas Vivas. 

el racismo nos vuelve extranjeros en nuestro país

Para muchos
lo más difícil de ser extranjero
es tener que explicar
es tener que responder
a la eterna,
la inacabable pregunta,
¿De dónde eres?
¿De dónde sos?
Where are you from?
D’où viens tu?
De onde é?
Da dove vieni?
Woher kommst du?
Pero más difícil
es ser extranjero
en tu país.
Ser negro es nacer extranjero
ser negro es ser ajeno
a la tierra que te vio nacer.
Ser negro es ser
constantemente expulsado
con el discurso
con los gestos
con la mirada.
Desde que la memoria me asiste
recuerdo,
la incesante pregunta:
¿De dónde eres?
Mi extrañeza ante la interrogante
pero sobre todo,
la sorpresa
la incredulidad
la burla
la sospecha ante mi respuesta:
de aquí.
La insistencia de mi interlocutor
la repetición de la pregunta
esta vez,
esperando ser respondida
con lo que este desea escuchar:
la afirmación de que no
no soy,
no puedo,
no debo,
ser de aquí.
Mi respuesta nuevamente:
de aquí
solo causa decepción
en quien me interpela.
No es suficiente
mi respuesta no le basta
no le satisface.
Ahora,
el pertinaz cuestionador
quiere saber de mi familia
de dónde son
cuántos son
cómo son
para encontrarle sentido
a lo que para él,
es un absurdo,
un despropósito.
Que yo
al igual que él
nací aquí,
que mi piel negra
al igual
que la suya blanca
es también de este país.
El racismo
nos vuelve extranjeros
en nuestro país:
yo soy extranjera
desde que nací.

o racismo nos torna estrangeiros em nosso país
Para muitos
O mais difícil de ser estrangeiro
É ter que explicar
É ter que responder
À eterna,
A inacabável pergunta,
De onde é?
¿De dónde sos?
Where are you from?
D’où viens tu?
¿De dónde eres?
Da dove vieni?
Woher kommst du?
Ainda mais difícil
É ser estrangeiro
No teu país
Ser negro é ser alheio
À terra que te viu nascer
Ser preto é ser ser,
constantemente expulso
com o discurso
com os gestos
com o olhar
Desde que tenho memória
Lembro,
A incessante pergunta:
De onde é?
Minha estranheza à frente da pergunta
Mas sobretudo,
A surpresa
A descrença
A zoada
A desconfiança frente a minha resposta:
Daqui.
A insistência do meu interlocutor
La reiteração da pergunta
Esta vez,
Esperando ser respondida
Com o que ele deseja ouvir:
A afirmação de que não
Não sou,
Não posso,
Não devo,
Ser daqui.
Minha resposta novamente:
Daqui
Só provoca decepção
Em quem me interpela.
Não é suficiente
Minha resposta não lhe basta / deixa contente
Não lhe satisfaz.
Agora,
O obstinado questionador
Quer saber da minha família
De onde são
Quantos são
Como são
Para achar o sentido
Do que para ele,
É um absurdo,
Um despropósito.
Que eu
Igual do que ele
Nasci aqui,
Que minha pele preta
Igual
Que a sua branca
É também deste país.
O racismo
Nos torna estrangeiros
Em nosso país:
Eu sou estrangeira
Desde que nasci.
Ilustrações de Willian Santiago (2020)
resentida

Cuantas veces me dijeron
maldita negra en la cara,
por atreverme a más
de lo que el colonialismo esperaba.
Cuantas veces me dijeron
resentida
acomplejada,
por defender mis derechos
por no quedarme callada.
Cuantas veces me negaron
la palabra en las aulas,
para después reclamarme
por qué tenía esa cara.

Cuantas veces me dijeron
agresiva

y alterada,
por denunciar el racismo
que nos excluye y nos mata.

ressentida

Quantas vezes me disseram
Maldita preta na cara,
Por ter me animado a mais
Do que o colonialismo esperava.
Quantas vezes me disseram

Ressentida
Complexada,
Por defender meus direitos
Por não ficar calada.
Quantas vezes me negaram
A palavra nas aulas,
Para depois me reclamar
Porque eu tinha essa cara.
Quantas vezes me disseram

Agressiva
E transtornada,
Por denunciar o racismo
Que nos exclui e nos mata.