soslaio

Quando te olhar, vou ser assim, arisco.
É que não posso ser de outra maneira,
vender todo meu choro, carpideira
de lágrimas falsas enquanto pisco,

ao que, nos abismos teus, não arrisco.
Não encaro o penhasco em cuja beira
chego perto, e, na boca da pedreira,
eu decido parar, porque o chuvisco

já se adensa mais e mais, tempestade,
fúria violenta, tufão, tormenta.
Vem e assola o que há de íntimo, e tinge

de cores duvidosas, e afugenta
os meus olhos que te encaram, esfinge
que se disfarça de cara-metade.

éter

Tem gente que se prende pelo tato
porque é sensível ao toque da mão,
mas tem gente que prefere a audição,
sussurros e viola, mas o fato

é que alguns se prendem mesmo pelo olfato,
são sensíveis ao cheiro do carvão,
mas outros não têm essas coisas não,
curtem de tudo, eles são um retrato

de uma geração que vê o cheiro
e sente o gosto do perfume doce
enquanto ouve um ruído quadrado

fundindo as coisas como tudo fosse
éter sinestésico maquinado,
fragmentos de sentidos, mas inteiro

quê!?

algo que me arrebate
sem que me arrebente

da morte

Se a morte chegar
pelo correio, junto com as contas
e os postais

compro selos
mando a alma envelopada
e não registro

à certeza do destino,
prefiro
o acaso do extravio


Igor Dias é carioca e nasceu no outono de 1987. Além de escritor, é também engenheiro de produção. Publicou “Além dos Sonetos Breves” (2012, poemas, Ed. Oito e Meio), “Dinamarca” (2015, contos, Ed. Oito e Meio), “Extravios” (2018, romance epistolar escrito em conjunto com a escritora Vivian Pizzinga, Ed. Oito e Meio) e “A expansão bandeirante não acabou” (2018, ensaios, Azougue Editorial). Participou da antologia de contos “Nosotros – 20 contos latinoamericanos” (2017, Ed. Oito e Meio), com um conto sobre a ilha de Cuba. Colaborou também com as antologias dos coletivos literários de que faz ou fez parte: “Clube da Leitura”, “Caneta, Lente & Pincel”, e “Poesia em profusão”.