O corpo negro e torpe sob as marcas das rugas anunciava – junto ao cabelo crespo, os largos cotovelos, o peito grande e caído, as mãos estragadas pelo roçado e unhas grossas e grandes – as marcas que essa mulher carregara. Sete filhos que, assim como a mãe, nasceram de parto forte – nem normal e nem cesárea – que era pra deixar cravada a destilação de pus de abandono.
A criançada de Dona Cícera, enquanto pequenos, comia as pobres comidas feitas por ela com o pouco que a vida a havia dado: farinha, vez ou outra, feijão. Daqueles filhos vinha o desprezo do marido – que fugiu pra longe – curado com a ‘bença’ de cada ‘menino’. Mas aquela ‘bença’ foi escasseando quando – como o pai – partiram logo para viver uma vida melhor. A mulher de cor escura não fugiu, enfrentou aquele abandono todo. Resignou-se na cidadezinha que comportava pouco mais de 20 mil habitantes.
Para sair da derrelição, transformou a vida entre idas e vindas. Ia visitar os filhos com a boca decaída, voltava era com expressão de quem tinha ganhado na loteria. E assim fez seus dias.
Dona ‘Ciça’ – como aquela gente do agreste falava – tem corpo de mulher forte. Daquelas que nem o homem mais atrevido é capaz de calar a voz. A cada lugar que passava reclinava-se um pouco para enxergar a estrada e cumprimentar as pessoas.
Se alguém perguntasse quem era Deus, qualquer um que a conhecia respondia: “Acho que é Dona ‘Ciça’, viu?!”


Andriele Moraes (Pesqueira, Pernambuco, 1996). Jornalista, uma das criadoras do grupo de leitura e podcast “Clube do Livro Feminista”, contista, com textos publicados nas revistas Mallamargens, Arara, Subversa e Acrobata.