Aristóteles estabelece que o homem é um animal político com uma tendência natural para a vida em comunidade. Quando a nossa existência em comunidade, inerente a nossa natureza, é ameaçada por uma polarização ideológica, tudo torna-se política. Corpo, espiritualidade, desejo, sobrevivência, manifestações naturais de uma vida em comunidade. Vivemos em um período obscuro da política nacional em que narrativas hegemônicas auxiliam na construção de uma ideologia política não plural. Quando entendemos a nossa subjetividade como atitude política, percebemos a potência da exteriorização das nossas inquietudes.

Arte tem urgência, arte é pulsante. Precisamos ser relembrados da nossa potência como seres capazes de construir narrativas plurais e militantes. Para além de toda a polarização ideológica, política é também sobre como nos enxergamos dentro dessa sociedade e a arte tem o poder de potencializar essas manifestações.

Clara Martins, em Meu Corpo Todo Sente, na Casa Bicho

Lygia Clark em 1970 propõe a obra “Corpo Coletivo”, uma experiência em que a ação individual dos participantes reflete na movimentação desse corpo coletivo, sendo todos alvos de cargas pessoais. O nome da exposição, “Meu corpo todo sente”, surge então de uma provocação sobre esse corpo coletivo ativo, corpo esse que é receptáculo de vivências e marcas históricas, que carrega narrativas, fala sobre lutas e sentimentos. Corpo que é individual mas que carrega em si a coletividade. A escolha dos artistas que participam dessa exposição vem desse desejo de manifestação cultural política, da potência artística de cada um deles em expressar sobre vivências coletivas.

Jefferson Medeiros entende sua arte como uma prática decolonial, com objetos-símbolos marcantes e expressivos refletindo uma violência urbana diária. Gabriela Fero busca através das suas pinturas a possibilidade de um novo imaginário político, distópico e inquietante. André Moura traz em suas obras o relacionamento das populações precárias e com os espaços que ocupam em telas carregadas de detalhes e expressividade. Trabalhando a questão identitária brasileira Lucas Ururah, mergulhando e bebendo de fontes cosmológicas da cultura indígena, africana e afro brasileira entende e expressa a sua religiosidade através da arte enquanto Clara Martins traduz em telas narrativas carregadas de cores, afetos, cheiros e símbolos da nossa cultura.

A coletiva, com curadoria de Carla Oliveira e Luyza De Luca reúne 5 artistas cariocas que através da arte manifestam suas potências, indignações e repertórios. A escolha por artistas cariocas parte de um desejo de rever o Rio de Janeiro como zona simbólica de discussão política, reinserindo nosso campo cultural como lugar de provocação e possibilitando que novos circuitos de discussão sejam realizados. Com essa exposição desejamos ser desconfortáveis, inquietantes, incômodos e críticos. Desejamos acima de tudo, sermos políticos.

A exposição se inicia no próximo dia 2 de setembro e conta com o apoio da cerveja Beck’s e fica aberta para visitação até outubro de 2021.

A Casa Bicho é uma casa de arte que nasceu em 2019, localizada no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro e arquitetura dos anos 50. Após dez anos abandonada, torna-se espaço de expressão artística. Com vista para o Cristo Redentor e a Lagoa Rodrigo de Freitas, a casa traz uma experiência única de contato com a natureza e arte.

A Casa Bicho é um ponto cultural da cidade onde acontece exposições, eventos musicais e mais recentemente, ateliês, residências artísticas, mesas de conversa e troca com outros espaços culturais da cidade, como a Casa Voa. O foco da casa é democratização de espaços comuns para propagar e criar arte, abrir espaços para artistas da cidade toda poderem criar e somar forças potencializando o cenário independente da cidade.


Texto curatorial de Carla Oliveira e Luyza De Lucca, gentilmente cedido para acompanhar a próxima edição da Philos.